Raca - Revista de Alimentação e Cultura das Américas
Este ensaio examina a transformação da experiência alimentar na modernidade urbana e sua relação com a expansão dos alimentos ultraprocessados. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, fundamentado na análise documental de materiais jornalísticos e publicitários, interpretados à luz de referenciais teóricos das ciências humanas e sociais. Argumenta-se que shopping centers e supermercados operam como paisagens administradas que reorganizam a temporalidade, a memória e a sociabilidade do comer, contribuindo para o empobrecimento da experiência alimentar. A partir de reflexões de Walter Benjamin, analisa-se a inauguração de um shopping center como expressão histórica da mercantilização do espaço urbano. Em seguida, com base na semiologia de Roland Barthes, discutem-se discursos publicitários de refrescos em pó, interpretando o nutricionismo como uma mediação simbólica central do consumo alimentar contemporâneo. Sustenta-se que a consolidação dos alimentos ultraprocessados expressa uma reconfiguração mais profunda da experiência do comer, na qual referências culturais e memoriais são substituídas por atributos técnicos e promessas funcionais. Ao articular a crítica da modernidade à análise do consumo alimentar, o ensaio contribui para ampliar a compreensão das mediações simbólicas que sustentam a mercantilização urbana da comida.
DOI
10.35953/raca.v7i1.240
Palavras-chave
Identificação
Referências do artigo
1. Bustamante-García M, Martinez-Feliu M, Servan K, Mayta-Tristán P. Oferta y composición nutricional de ensaladasenpatios de comida de centros comerciales de Lima Metropolitana, 2014. Rev Peru Med Exp Salud Publica. 2015 [cited 2026 Jun 18];32(4):739-45. Available from: http://www.scielo.org.pe/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1726-46342015000400016
2. French SA, Story M, Jeffery RW. Environmental influences on eating and physical activity. Annu Rev Public Health. 2001 [cited 2026 Jun 18];22(1):309-35. Available from: https://www.annualreviews.org/content/journals/10.1146/annurev.publhealth.22.1.309
3. Jayne M. Cities and consumption. London: Routledge; 2005.
4. Kantar IBOPE Media. Insideadvertising: os principais movimentos da indústria publicitária em 2024 [Internet]. São Paulo; 2025 Apr [cited 2026 Jun 10]. Available from: https://26080127.fs1.hubspotusercontent-eu1.net/hubfs/26080127/Data-Stories-Ed.-46-Inside-Advertising-3.pdf?hsCtaAttrib=228565969139
5. Martin-Biggers J, Yorkin M, Aljallad C, Ciecierski C, Akhabue I, McKinley J, et al. What foods are US supermarkets promoting? A content analysis of supermarket sales circulars. Appetite. 2013 [cited 2026 Jun 10];62:160-5. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195666312004837
6. Martins BG, Andrade GC, Souza TN, Martins CA. Propaganda de alimentos em programas de culinária de canais abertos da televisão brasileira: alimentos ultraprocessados são protagonistas. Demetra. 2025 [cited 2026 Jun 18];20:e82370. Available from: http://doi.org/10.12957/demetra.2025.82370
7. Collaço JHL. Restaurantes de comida rápida em praças de alimentação de shopping centers: soluções à moda da casa [dissertação]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2003.
8. Collaço JHL. Representações do comer e alimentação em restaurantes de comida rápida na cidade de São Paulo: alguns aspectos sobre saúde e obesidade. Rev Eletr Gest Educ Tecnol Ambient. 2014;18(Spec No):101-15. Available from: https://repositorio.bc.ufg.br/items/fac8305b-ef84-4c93-b6aa-14071a5d94fe
9. Collaço JHL. Espaço urbano e consumo alimentar: trajetórias locais e diferença em três cidades brasileiras. In: Collaço JHL, Barbosa FAC, Roim TPB, editors. Cidades e consumo alimentar: dinâmicas socioculturais do comer no espaço urbano. Goiânia: Editora da Imprensa Universitária; 2017. p. 38-64.
10. Goidanich ME, Rial C. Um lugar chamado supermercado. Int Rev Soc Res. 2012 [cited 2026 Jun 12];2(1):143-56. Available from: http://doi.org/10.1515/irsr-2012-0010
11. Scrinis G, Monteiro CA. Ultra-processed foods and the limits of product reformulation. Public Health Nutr. 2018 [cited 2026 Jun 18];21(1):247-52. Available from: http://doi.org/10.1017/S1368980017001392
12. Benjamin W. Central Park. In: Benjamin W. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. São Paulo: Brasiliense; 1989. p. 27-53.
13. Gomes AP. A cidade e o shopping: do mundo da via expressa aos processos de gentrificação em Blumenau-SC (1990-2000) [dissertação]. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina; 2016.
14. Jornal O Estado. Florianópolis. 1980 Sep 27:18-19. Exemplar consultado na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina.
15. Góes E. Shopping center: consumo, simulação e controle social. Finisterra. 2016 [cited 2026 Jun 18];(102):65-80. Available from: https://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0430-50272016000200004
16. Freitas RF, Avila VA. Comunicação, consumo e cidade: praças de alimentação dos shopping centers do Rio de Janeiro. Rev Periferia. 2010 [cited 2026 Jun 18];2(2):1-10. Available from: http://doi.org/10.12957/periferia.2010.3459
17. Jornal O Estado. Florianópolis. 1980 Oct 2:20-21. Exemplar consultado na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina.
18. Fischler C. La nourriture, pour uneanthropologieculturelle de l'alimentation. Communications. 1979 [cited 2026 Jun 18];(31). Availablefrom: https://www.persee.fr/issue/comm_0588-8018_1979_num_31_1
19. Benjamin W. Experiência e pobreza. In: Benjamin W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 8th ed. São Paulo: Brasiliense; 2012. p. 123-8.
20. Benjamin W. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Benjamin W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 8th ed. São Paulo: Brasiliense; 2012. p. 213-40.
21. Sarlo B. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; 1997.
22. Paula MFC. Tensões e ambiguidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Plural Rev Ciênc Soc. 1994 [cited 2026 Jun 18];1:106-30. Available from: https://revistas.usp.br/plural/pt_BR/article/view/68057
23. Sarlo B. La ciudad vista. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores; 2009.
24. Jornal O Estado. Florianópolis. 1980 Nov 6:23. Exemplar consultado na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina.
25. Oliveira N, Fontes GAV, Freitas MCS. Fast-food: um aspecto da modernidade alimentar. In: Freitas MCS, Fontes GAV, Oliveira N, editors. Escritas e narrativas sobre alimentação e cultura. Salvador: EDUFBA; 2008. p. 239-60.
26. Fischler C. A McDonaldização dos costumes. In: Flandrin JL, Montanari M, editors. História da alimentação. 7th ed. São Paulo: Estação Liberdade; 1998. p. 841-62.
27. Ritzer G. The McDonaldization of society. London: Pine Forge Press; 1992.
28. Rial CSM. Fast-foods: a nostalgia de uma estrutura perdida. Horiz Antropol. 1996;2(4):94-103.
29. Garcia RWD. Reflexos da globalização na cultura alimentar: considerações sobre as mudanças na alimentação urbana. Rev Nutr. 2003;16(4):483-92.
30. Adorno TW. O fetichismo na música e a regressão da audição. In: Adorno TW. Textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural; 1999. p. 65-108.
31. Biernath A. O brasileiro que liderou revolução global na ciência dos alimentos: "ultraprocessados são desenhados para enganar o apetite. Você quer comer sempre mais e mais" [Internet]. BBC News Brasil. 2026 Jan 16 [cited 2026 Feb 7]. Available from: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yj6xjkjr7o
32. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2nd ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
33. Scrinis G. Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional. São Paulo: Elefante; 2021.
34. Monteiro CA, Louzada MLC, Steele-Martinez E, Cannon G, Andrade GC, Baker P, et al. Ultra-processed foods and human health: the main thesis and the evidence. Lancet. 2025 [cited 2026 Jun 18];406:2667-84. Available from: http://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)01565-X
35. Scrinis G, Popkin BM, Corvalán C, Duran AC, Nestle M, Lawrence M, et al. Policies to halt and reverse the rise in ultra-processed food production, marketing, and consumption. Lancet. 2025 [cited 2026 Jun 18];406:2685-702. Available from: http://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)01566-1
36. Baker P, Slater S, White M, Wood B, Contreras A, Corvalán C, et al. Towards unified global action on ultra-processed foods: understanding commercial determinants, countering corporate power, and mobilising a public health response. Lancet. 2025 [cited 2026 Jun 18];406:2703-26.
37. Available from: http://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)01567-3
38. Jacob M. O saborem Roland Barthes: literatura e alimentação. In: Marques AHO, editor. Barthes (im)pensado. Natal: Editora do IFRN; 2016. p. 40-59.
39. Barthes R. Pour une psycho-sociologie de l'alimentationcontemporaine. Ann ÉconSocCivilis. 1961;16(5):977-86.
40. Lévi-Strauss C. A origem dos modos à mesa. São Paulo: Cosac&Naify; 2006.
41. Douglas M. Deciphering a meal. Daedalus. 1972;101(1):61-81.
42. Mason P, Lang T. Sustainable diets: how ecological nutrition can transform consumption and the food system. London: Routledge; 2017.
43. Poulain JP. Sociologia da obesidade. São Paulo: Editora Senac SP; 2014.
44. IPES-Food. Unravelling the food-health nexus: addressing practices, political economy, and power relations to build healthier food systems. London: IPES-Food; 2017 Oct [cited 2026 Feb 1]. Available from: https://www.ipes-food.org/_img/upload/files/Health_FullReport(1).pdf
45. MCCALL, K. L. What’s the big dif? Differences between marketing and advertising. Marketing, 2003. Disponível em: http://www.marketingprofs.com. Acesso em: 1 fev. 2026.
46. McCall KL. What's the big dif'? Differences between marketing and advertising. Marketing. 2003 [cited 2026 Feb 1]. Available from: http://www.marketingprofs.com
47. Barthes R. Mitologias. 3rd ed. São Paulo: Bertrand Brasil; 2002.
48. Mills CW. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar; 1975.
49. Scrinis G. Ultra-processed foods and the corporate capture of nutrition—an essay by Gyorgy Scrinis. BMJ. 2020 [cited 2026 Feb 1];371:m4601. Available from: http://doi.org/10.1136/bmj.m4601.
50. Simon M. Appetite for profit: how the food industry undermines our health and how to fight back. New York: Nation Books; 2006.
51. Gaskell G, Bauer MW. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes; 2002.
52. Santos M. A revanche do território. Folha de S Paulo. 1997 Aug 3 [cited 2026 Jun 20]. Available from: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/8/03/opiniao/8.html
53. Harvey D. O direito à cidade. LutasSociais. 2012 [cited 2026 Jun 20];29(2):73-89. Available from: http://doi.org/10.23925/ls.v0i29.18497.
Página da publicação
Publicado por (Instituto)