Cadernos de Saúde Pública (CSP)
Este artigo aborda o fenômeno do hiperdiagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA), que ocorre quando o transtorno é identificado com frequência maior do que sua real relevância clínica, incluindo casos sem impacto funcional significativo. Embora o reconhecimento ampliado do transtorno tenha possibilitado inclusão e apoio a muitas pessoas, o aumento acelerado dos diagnósticos suscita questionamentos sobre critérios técnicos, potenciais usos do diagnóstico para obtenção de benefícios e a influência de fatores sociais e institucionais. Estudos epidemiológicos recentes indicam crescimento gradual da prevalência global do TEA, com dados nacionais apontando cerca de 1,2% da população diagnosticada, evidenciando maior reconhecimento e acesso ao diagnóstico. A evolução do conceito desse transtorno ampliou os critérios diagnósticos, incluindo manifestações mais leves e heterogêneas da condição, o que contribuiu para o aumento expressivo das taxas de diagnóstico ao redor do mundo. Fatores como maior conscientização social, busca por laudos escolares e pressão institucional para adequação comportamental também influenciam o aumento dos diagnósticos. O hiperdiagnóstico traz consequências negativas, como estigmatização precoce, tratamentos inadequados, impacto emocional nas famílias e distorção dos dados epidemiológicos, o que prejudica políticas públicas. Destaca-se a diferença entre diagnóstico precoce, desejável e criterioso, e diagnóstico precipitado, baseado em avaliações superficiais. Para promover um diagnóstico mais responsável, o artigo propõe a capacitação contínua de profissionais, avaliações interdisciplinares, acompanhamento longitudinal e valorização das singularidades. Além disso, defende a ampliação de políticas públicas que não dependam exclusivamente de laudos médicos para garantir apoio, priorizando as reais necessidades do indivíduo.
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10.1590/0102-311XPT140725
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