Pular para o conteúdo principal

Entre cartilhas e canais de denúncia: a atuação das Defensorias Públicas Estaduais brasileiras frente à violência obstétrica

Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário (CIADS)
Objetivo: descrever e analisar a atuação das Defensorias Públicas Estaduais brasileiras no enfrentamento à violência obstétrica, a partir da produção de materiais educativos, da oferta de canais específicos de denúncia e da presença de Núcleos Especializados de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres. Metodologia: trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter documental, realizada nos sites oficiais das Defensorias Públicas Estaduais, buscando identificar documentos de natureza institucional que tratem do enfrentamento da violência obstétrica. Resultados: verificou-se a existência desses Núcleos Especializados em 18 Defensorias Públicas e, em outras cinco, estruturas com atribuições semelhantes. Dentre as 27 unidades da federação, 11 disponibilizam cartilhas sobre violência obstétrica, concentradas nas Defensorias que possuem Núcleos Especializados, sugerindo que a presença desses núcleos contribui para a produção e a divulgação de materiais informativos sobre o tema. As lacunas temáticas dessas publicações — que raramente tratam de situações de abortamento ou de racismo institucional — revelam desafios persistentes na compreensão de dimensões estruturais da violência obstétrica e na formulação de respostas efetivas. Experiências como o Comitê Estadual de Enfrentamento à Violência Obstétrica no Amazonas e o Protocolo de Atuação em Casos de Violência Obstétrica do Paraná ilustram caminhos distintos e complementares de fortalecimento da escuta qualificada, da articulação intersetorial e da produção de dados. Conclusão: a atuação das Defensorias Públicas Estaduais no enfrentamento à violência obstétrica permanece em processo de construção. Os achados indicam a importância de ampliar a visibilidade institucional do tema e de fortalecer mecanismos de escuta e responsabilização do Estado frente a uma das mais persistentes formas de violação de direitos das mulheres.   Recebido: 07/08/2025 | Revisado: 05/11/2025 | Aprovado: 19/12/2025
DOI
10.17566/ciads.e2026006
Referências do artigo
1. Quattrocchi P, Magnone N, editores. Violencia obstétrica en América Latina: conceptualización, experiencias, medición y estrategias. Remedios de Escalada: Universidad Nacional de Lanús; 2020. 2. Bohren MA, Vogel JP, Hunter EC, Lutsiv O, Makh SK, Souza JP, et al. The Mistreatment of Women during Childbirth in Health Facilities Globally: a Mixed-Methods Systematic Review. PLoS Med [Internet]. 2015 [citado em 22 jul. 2026];12(6):e1001847. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1001847 3. Pantoja JC, Batisti MB, Pereira MCAR. Repensando o nascimento como um direito integral na luta contra a violência obstétrica no Brasil. Cad Ibero-Am Direito Sanit [internet]. 2024 [citado em 22 jul. 2025];13(2):41-61. Disponível em: https://doi.org/10.17566/ciads.v13i2.1233 4. Tesser CD, Knobel R, Andrezzo HFA, Diniz SG. Violência obstétrica e prevenção quaternária: o que é e o que fazer. Rev Bras Med Fam Comunidade [Internet]. 2015 [citado em 15 jul. 2025];10(35):1-12. Disponível em: https://doi.org/10.5712/rbmfc10(35)1013 5. Fundação Perseu Abramo. Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado. Fundação Perseu Abramo: São Paulo; 2010. 301p. Disponível em: https://apublica.org/wp-content/uploads/2013/03/www.fpa_.org_.br_sites_default_files_pesquisaintegra.pdf 6. Leite TH, Marques ES, Leal MC, Domingues RMSM, Nakamura-Pereira M, Theme-Filha MM, Baldisserotto ML, et al. Violência obstétrica no estado do Rio de Janeiro: Pesquisa Nascer no Brasil II. Rev Saúde Pública [Internet]. 2025 [citado em 26 jan. 2026];59(S1):e6s. Disponível em: https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2025059006536 7. Tempesta GA, França RL. Nomeando o inominável: a problematização da violência obstétrica e o delineamento de uma pedagogia reprodutiva contra-hegemônica. Horizontes Antropológicos [Internet]. 2021 [citado em 26 jan. 2026];27(61):257-290. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832021000300009 8. Leal MC, Pereira APE, Domingues RMSM, Theme-Filha MM, Dias MAB, Nakamura-Pereira M, Bastos MH, Gama SGN. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad Saúde Pública [Internet]. 2014 [citado em 29 jul. 2025];30(Suppl 1):S17-S32. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311X00151513 9. Diniz CSG. Gênero, saúde materna e o paradoxo perinatal. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum [Internet]. 2009 [citado em 20 jul. 2025];19(2):313-326. https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822009000200012 10. Brasil. Ministério da Saúde. DATASUS. Painel de monitoramento de nascidos vivos segundo classificação de risco epidemiológico [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2014-2024 [citado em 15 jul. 2025]. Disponível em: https://svs.aids.gov.br/daent/centrais-de-conteudos/paineis-de-monitoramento/natalidade/grupos-de-robson/ 11. Martins AL, Coelho CC, Soares VMN. Mortalidade materna no Brasil: comove, mas não mobiliza. In: Senapechi E, Peres L, editores. Dossiê de 30 anos da Rede Feminista de Saúde: democracia, saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos [Internet]. Curitiba: CRV; 2021 [citado em 22 jul. 2025]. p. 51-72. Disponível em: https://www.redesaude.org.br/wp-content/uploads/2021/12/Dossie%CC%82-de-30-anos-da-Rede-Feminista-de-Sau%CC%81de_Livro-Digital.pdf 12. Defensoria Pública do Estado de São Paulo. NUDEM – Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres: página institucional [Internet]. São Paulo: Defensoria Pública do Estado de São Paulo [citado em 9 mar. 2026]. Disponível em: https://www.defensoria.sp.def.br/nucleos-especializados/pagina-inicial-nucleos-especializados/promocao-e-defesa-dos-direitos-das-mulheres 13. Cavalcante PR. Contribuições da psicologia no acesso à justiça: reflexões sobre a atuação de psicólogas/os na Defensoria Pública do Estado de São Paulo [Dissertação na internet]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2015 [citado em 13 jul. 2025]. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-07082015-112201/publico/cavalcante_me.pdf 14. Lewin APOCM, Prata ARS. Da atuação da Defensoria Pública para promoção e defesa dos direitos da mulher. Rev Dig Dir Adm [Internet]. 2016 [citado em 30 jul. 2025];3(3):525-541. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2319-0558.v3i3p525-541 15. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14ª ed. São Paulo: Hucitec; 2010. 16. Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre a pesquisa em Ciências Humanas e Sociais e dá outras providências [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2016 [citado em 23 set. 2025]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2016/res0510_07_04_2016.html 17. Vieira EM. A medicalização do corpo feminino. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2002. 18. Davis DA. Obstetric racism: the racial politics of pregnancy, labor, and birthing. Med Anthropol [Internet]. 2018 [citado em 8 jul. 2025];38(7):560-73. Disponível em: https://doi.org/10.1080/01459740.2018.1549389 19. Diniz CSG, Niy DY, Andrezzo HFA, Carvalho PCA, Salgado HO. A vagina-escola: seminário interdisciplinar sobre a violência contra a mulher no ensino das profissões de saúde. Interface [internet]. 2016 [citado em 20 set. 2025];20(56):253-259. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1807-57622015.0736 20. Barroso ABM, Andrade MD. Violência obstétrica: há responsabilização judicial pela “dor necessária” do parto? RDFD [Internet]. 2024 [citado em 30 jul. 2025];29(1):115-150. Disponível em: https://doi.org/10.25192/ISSN.1982-0496.RDFD.V.29.N.I.2292 21. Oliveira JS, Novais TG. A tipificação penal da violência obstétrica: limites e possibilidades para a proteção jurídica da mulher no Brasil. REASE [Internet]. 2024 [citado em 30 jul. 2025];10(11):5280-5296. Disponível em: https://doi.org/10.51891/rease.v10i11.16953 22. Brito CMC, Oliveira ACGA, Costa APCA. Violência obstétrica e os direitos da parturiente: o olhar do Poder Judiciário brasileiro. Cad Ibero-Am Direito Sanit [Internet]. 2020 [citado em 30 jul. 2025]; 9(1):120-140. Disponível em: https://doi.org/10.17566/ciads.v9i1.604 23. Committee on the Elimination of Discrimination against Women. Alyne da Silva Pimentel Teixeira (deceased) v. Brazil, Communication nº. 17/2008, UN Doc. CEDAW/C/49/D/17/2008. 2011. Disponível em: https://www.globalhealthrights.org/wp-content/uploads/2013/08/Pimentel-Brazil-2011.pdf 24. Conselho Nacional de Saúde (Brasil). Rede Alyne: novo programa busca reduzir mortalidade materna no Brasil [Internet]. Brasília: CNS; 2024 [citado em 29 out. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/assuntos/noticias/rede-alyne-novo-programa-busca-reduzir-mortalidade-materna-no-brasil 25. Comitê de Enfrentamento à Violência Obstétrica no Amazonas. Violência obstétrica no Amazonas: histórico e audiência pública [Internet]. 2025 [citado em 30 jul. 2025]. Disponível em: https://express.adobe.com/page/3Eee8ziTAzn59/ 26. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Comitê de enfrentamento à violência obstétrica no Amazonas [Internet]. 2016 [citado em 30 jul. 2025]. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/iniciativas/comite-de-enfrentamento-a-violencia-obstetrica-no-amazonas/ 27. Defensoria Pública do Estado do Amazonas. Defensoria, SES-AM e FVS lançam projeto pioneiro para monitorar casos de violência obstétrica [Internet]. Manaus: Defensoria Pública do Estado do Amazonas; 2024 [citado em 30 jul. 2025]. Disponível em: https://defensoria.am.def.br/2024/08/22/defensoria-ses-am-e-fvs-lancam-projeto-pioneiro-para-monitorar-casos-de-violencia-obstetrica/ 28. Diniz M. Prefácio. In: Lucena FS, Amanda A, organizadoras. Concepção, gravidez, parto e pós-parto: perspectivas feministas e interseccionais [Internet]. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; 2024 [citado em 30 jul. 2025]. p. 9-21. Disponível em: https://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-saude/homepage/pdfs/temas35-concepcaogravidezpartoeposparto_digital.pdf 29. Heise LL. Violence against women: the hidden health burden. Washington: World Bank; 1993. World Bank Discussion Paper 255. 30. Faria CP, Vergara S. Justiça reprodutiva e institucionalização do cuidado: notas sobre as práticas das Defensorias Públicas. In: Diniz D, Rondon G, organizadoras. Direitos reprodutivos em disputa: políticas, conflitos e práticas. Brasília: ANIS/UnB; 2021. p. 121-138. 31. Moreira MA, Souza AS, Oliveira PM, Souza MX, Araújo Junior JC, Ribeiro PS. Violencia obstétrica en el proceso del aborto. Enfermería (Montev) [Internet]. 2023 [citado em 30 jul. 2025];12(2):e3166. Disponível em: https://doi.org/10.22235/ech.v12i2.3166 32. Coutinho RZ, Guimarães FF, Ferreira MES, Mateus VFD, Souza FG. Violência obstétrica no abortamento: tipificação de relatos de mulheres que tiveram perdas gestacionais em Belo Horizonte - MG entre 2018 e 2021. Rev Latinoam Población. 2025 [citado em 15 jul. 2025];19:e202428. Disponível em: https://doi.org/10.31406/relap2025.v19.e202428 33. Rio de Janeiro (Município). Lei nº 8936, de 12 de junho de 2025. Dispõe sobre a obrigatoriedade de afixação de cartazes ou placas informativas acerca do aborto nos locais que menciona no âmbito municipal. Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro; 12 jun. 2025. 34. Audi A. Prefeitura de São Paulo suspendeu serviço de aborto legal sem denúncias de irregularidades. Agência Pública [Internet]. 1 maio 2024 [citado em 30 jul. 2025]. Disponível em: https://apublica.org/2024/05/prefeitura-de-sp-suspendeu-servico-de-aboro-legal-sem-denuncias-de-irregularidades/ 35. Schreiber M. Como Conselho Federal de Medicina se tornou pivô dos embates sobre aborto legal no Brasil. BBC News Brasil [Internet]. 21 jun. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgg3lp5pddo 36. Brasil. Projeto de Lei nº 1904/2024. Altera o decreto-lei nº 2.848 de 7 de dezembro de 1940. Brasília: Câmara dos Deputados; 2024. 37. Góes EF, Ferreira AJF, Ramos D. Racismo antinegro e morte materna por COVID-19: o que vimos na Pandemia? Ciência & Saúde Coletiva [Internet]. 2023 [citado em 30 jul. 2025];28(9):2501-2510. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1413-81232023289.08412022 38. Leal MC, Gama SGN, Pereira APE, Pacheco VE, Carmo CN, Santos RV. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad Saúde Pública [Internet]. 2017 [citado em 30 jul. 2025];33(Supl 1):e00078816. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311X00078816 39. Leal MC, Granado S, Bittencourt S, Esteves AP, Caetano K. Nascer no Brasil II: pesquisa nacional sobre aborto, parto e nascimento 2022-2023: dados preliminares da pesquisa para oficina: morte materna e mulheres negras no contexto do SUS. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2023 [citado em 01 ago. 2025]. 33 p. Disponível em: https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/wp-content/uploads/2023/11/Dados-preliminares-da-pesquisa-Nascer-no-Brasil-2.pdf 40. D’Orsi E, Brüggemann OM, Diniz CSG, Aguiar JM, Gusman CR, Torres JA, et al. Desigualdades sociais e satisfação das mulheres com atendimento ao parto no Brasil: estudo nacional de base hospitalar. Cad Saúde Pública [Internet]. 2014 [citado em 5 jul. 2025];30(Supl 1):S154-S168. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311X00087813 41. Diniz CSG, Salgado HO, Andrezzo HFA, Carvalho PGC, Carvalho PCA, Aguiar CA, Niy DY. Violência obstétrica como questão para a saúde pública no Brasil: origens, definições, tipologia, impactos sobre a saúde materna e propostas para sua prevenção. J Hum Growth Dev [Internet]. 2015 [citado em 10 jul. 2025];25(3):377-384. Disponível em: http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.106080 42. Defensoria Pública do Estado do Paraná. Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (NUDEM). Protocolo de atuação em casos de violência obstétrica – Alyne Pimentel [Internet]. Curitiba: Defensoria Pública do Estado do Paraná; 2022 [citado em 30 jul. 2025]. Disponível em: https://www.defensoriapublica.pr.def.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2022-05/copia_de_protocolo_nudem_sobre_vo_-_alyne_pimentel.pdf
Publicado por (Instituto)