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Sofrimento mental e a pandemia da COVID-19: o papel da personalidade e das estratégias de enfrentamento

Cadernos de Saúde Pública (CSP)

Traços de personalidade e estratégias de enfrentamento predizem significativamente a predisposição à psicopatologia. Este estudo buscou examinar o papel preditivo das estratégias de enfrentamento ao sofrimento mental durante a pandemia da COVID-19 em uma amostra portuguesa considerando variáveis sociodemográficas e de personalidade. Os dados de 2.402 indivíduos (86,8% mulheres; Mage ± SD = 36,80 ± 11,80) foram coletados pelo Google Forms entre março e junho de 2020, majoritariamente através do Facebook. Os instrumentos incluíram o Inventário Breve de Sintomas (BSI, acronimo em inglês), o Inventário de Personalidade de Cinco Fatores NEO e o Brief-COPE. Jovens adultos, mulheres, indivíduos solteiros e aqueles com menor escolaridade experimentaram maior sofrimento. O neuroticismo foi fortemente associado a todas as dimensões do sofrimento mental e ao BSI geral. Estratégias de enfrentamento desadaptativas (autodistração, negação, autoculpa e desengajamento comportamental) foram positivamente correlacionadas com sofrimento, enquanto a agradabilidade e a ressignificação positiva foram negativamente correlacionadas. A análise de regressão mostrou que gênero, idade, escolaridade e diagnóstico psiquiátrico previram 12% do sofrimento, ao passo que adicionar neuroticismo à análise aumentou a previsão para 34% e estratégias de enfrentamento, para 37%. No mais, a autoculpabilização foi o preditor mais forte entre as estratégias de enfrentamento. Traços de personalidade e estratégias de enfrentamento foram preditores significativos de sofrimento mental durante a pandemia da COVID-19. Esses achados enfatizam a necessidade de intervenções que visem o neuroticismo e estratégias de enfrentamento desadaptativas para melhorar os desfechos de saúde mental durante crises públicas.

DOI
10.1590/0102-311XEN096123
Edição
Publicado por (Instituto)