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Cobertura da Covid-19 não acompanhou número de mortes no Espírito Santo, mostra estudo

30/03/2026
Por Simone Intrator

A cobertura jornalística sobre mortes por covid-19 no Espírito Santo, entre 2020 e 2021, não acompanhou de forma proporcional a evolução da mortalidade registrada no período. É o que aponta um estudo da RECIIS, que analisou a relação entre mídia e saúde, destacando o papel do jornalismo como uma das ferramentas mais rápidas e abrangentes de comunicação em saúde pública.

A pesquisa comparou o volume e a abordagem de matérias publicadas sobre óbitos por covid-19 com os dados oficiais de mortalidade. Ao todo, foram registrados 12.170 óbitos no estado, segundo o Painel Covid-19 da Secretaria Estadual de Saúde. Já o monitoramento de conteúdos jornalísticos, realizado por meio do sistema automatizado SIG Covid-19, identificou inicialmente 7.297 matérias. Após a aplicação de critérios de exclusão, o número foi reduzido para 1.803 textos analisados.

Os resultados mostram que não houve correlação estatisticamente significativa entre o número de mortes e a quantidade de reportagens publicadas (p-valor = 0,053). Na prática, isso indica que o aumento ou a redução de óbitos não se refletiu diretamente na intensidade da cobertura jornalística.

Além da discrepância quantitativa, o estudo chama atenção para a forma como as mortes foram abordadas. De acordo com os pesquisadores, fatores socioambientais que influenciam o risco de infecção e agravamento da doença — como condições de moradia, trabalho e acesso a serviços de saúde — foram pouco explorados nas reportagens. A ênfase predominante recaiu sobre números absolutos e aspectos biomédicos da pandemia.

Para os autores, esse padrão limita a compreensão pública sobre a complexidade da crise sanitária. Ao tratar a morte apenas como estatística ou evento biológico isolado, o jornalismo deixa de contextualizar as desigualdades que impactam diretamente os desfechos da doença.

O estudo defende uma aproximação maior entre os critérios de noticiabilidade e as necessidades da saúde pública. Isso significa ampliar o olhar sobre os determinantes sociais da saúde e incorporar análises que contribuam para o debate e a formulação de políticas públicas mais eficazes.

Nesse sentido, os pesquisadores argumentam que a cobertura midiática pode desempenhar um papel estratégico não apenas na informação, mas também na promoção de respostas sociais mais amplas. Para isso, é fundamental que a narrativa sobre a morte vá além dos números, incorporando os contextos que a produzem e as possibilidades de prevenção.

A análise reforça que, em situações de emergência sanitária, a comunicação em saúde não deve se limitar à divulgação de dados, mas também atuar como instrumento de conscientização e transformação social.

 

 

 

 

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