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Violência contra negros no Brasil: pesquisas mostram que desigualdade racial é letal

19/11/2019

A violência contra os negros, no Brasil, é evidente — leia-se, cientificamente. Pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentam dados de como a desigualdade racial é letal: as taxas de homicídios de negros, principalmente os jovens, são altas e preocupantes. O tema é debatido no Canal Saúde, por pesquisadores e educadores (assista aqui).

Por trás das estatísticas alarmantes, há uma realidade mais do que dolorosa, que causa adoecimento, sobretudo de mulheres negras de periferias urbanas, que perderam seus filhos para a violência de Estado. É o que aborda Rosana Castro (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em sua resenha do livro Não. Ele Não Está, publicada na revista Cadernos de Saúde Pública (vol. 35, n.6, jul/2019).

O livro foi escrito pela jornalista e especialista em políticas públicas em gênero e raça, Maíra de Deus Brito, para apresentar os resultados de sua pesquisa de mestrado em direitos humanos. Nas palavras de Rosana, a autora do livro “avança na caracterização das dimensões que compõem o genocídio negro e, nesse passo, aposta na potência da noção de necropolítica para articular questões relativas à violência de estado, ao adoecimento e ao gênero”. Vale a leitura: acesse aqui a resenha Necropolíticas e adoecimento: genocídio negro, gênero e sofrimento.

Pesquisas traçam o mapa da violência por cor e raça no Brasil

Realizado pelo IBGE, o estudo Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, mostra que a taxa de homicídio de pretos ou pardos é quase três vezes maior que a de brancos. A pesquisa tem a finalidade de acompanhar a meta para que se reduzam as taxas de mortalidade relacionadas à violência, parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Não foi o que aconteceu entre 2012 e 2017: o estudo indica que a taxa de homicídio entre pessoas pretas ou pardas aumentou de 37,2 para 43,4 mortes para cada 100 mil habitantes, enquanto, para a população branca, o índice ficou estável entre 15,3 e 16.

O mesmo cenário é descrito pelo Atlas da Violência 2019, que registra 65.602 homicídios em 2017, no Brasil – sendo que 75,5% das vítimas eram negras. O levantamento foi realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tendo como base os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS) de 2017.

Em termos de classificação, o estudo considera pretos e pardos como negros. Já brancos, amarelos e indígenas são considerados não negros. A pesquisa revela que a desigualdade racial é letal: a taxa de assassinatos de negros é de 43,1% e a de não negros de 16%. Ou seja, a cada não negro morreram 2,7 negros.

A situação piorou em relação ao ano anterior, já que em 2016, 71,5% dos assassinados no Brasil eram negros. Além disso, houve uma relativa estabilidade na taxa de mortes de não negros, com redução de 0,3%, enquanto a de negros cresceu 7,2%. Esse agravamento é explícito na análise da série histórica (2007 a 2017): entre não negros, o percentual de homicídios cresceu 3,3%, já entre pessoas negras, chegou a 33,1%.

Ser jovem e negro é um risco: assista ao debate do Canal Saúde

Os dados do IBGE indicam que a violência relacionada à raça é ainda mais acentuada na população jovem. A taxa de homicídios chega a 98,5 entre pessoas pretas ou pardas de 15 a 29 anos. Entre jovens brancos na mesma faixa etária, a taxa de homicídios é de 34 por 100 mil habitantes. A cada 23 minutos, um jovem negro é vítima de homicídio no país.

O programa Sala de Convidados (Canal Saúde) discute o tema Violência contra a Juventude Negra com: a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que atua no Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Ensp/Fiocruz), Mayalu Matos; a educadora social, coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e fundadora do Movimento Moleque, Monica Cunha; e o mestrando em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), Bruno Duarte. Assista!

*Com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

Autoria: 
Texto: Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)*
Vídeo: Canal Saúde (programa Sala de Convidados)

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