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Um pedido de socorro: OMS alerta sobre o risco dos baixos investimentos em saúde mental

10/10/2020

Pesquisa com 130 países mostra subfinanciamento de recursos para a área durante a pandemia. Acesse também 10 artigos sobre o tema, selecionados pelos editores da revista Trabalho, Educação e Saúde

Por Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)* | Imagem: Unsplash

 

Cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo têm um transtorno mental, e qualquer um de nós pode ser afetado. Portanto, combater o sofrimento psíquico é urgente — em especial no contexto da pandemia de Covid-19. Mas enquanto a demanda por cuidados aumenta, 93% dos países interromperam serviços essenciais, neste contexto. É o que mostra uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), realizada de junho a agosto de 2020 em 130 países de seis regiões. Esses são os primeiros dados globais sobre o impacto devastador da pandemia no acesso a serviços dessa área, o que aponta para a importância de garantir mais financiamento. Por isso, este ano, no Dia Mundial da Saúde Mental (10/10), a OMS, a United for Global Mental Health e a Federação Mundial de Saúde Mental promovem a campanha “Ação pela saúde mental, vamos investir”.

Dados mostram o quanto os recursos geram resultados

Os organizadores da campanha, informam que, a perda de produtividade resultante da depressão e da ansiedade — dois dos transtornos mentais mais comuns — custa à economia mundial US$ 1 trilhão por ano. No entanto, essas condições podem ser tratadas com psicoterapia, medicação ou uma combinação de ambos. E, para cada US$ 1 investido na melhoria do tratamento da depressão e ansiedade, há um retorno de US$ 5.

Ainda assim, antes da pandemia, os países alocavam menos de 2% de seus orçamentos nacionais de saúde em saúde mental. Embora os recursos tenham aumentado nos últimos anos, é preciso fazer muito mais, pois os gastos ainda representam menos de 1% do financiamento internacional destinado à saúde.

Considerando a importância de investimentos na estrutura e organização destes serviços e da atenção psicossocial, o Portal de Periódicos Fiocruz traz 10 artigos sobre saúde mental, selecionados pelos editores da revista Trabalho, Educação e Saúde (organizados a partir do mais recente). Aproveite essa curadoria de conteúdo para ampliar seus conhecimentos e também colabore para promover o debate sobre o tema nas redes. Acesse e compartilhe!

1. Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019 (vol. 18, n. 3, jul/2020)

O artigo analisa os retrocessos na Política Nacional de Saúde Mental no período de 2016-2019, com base em estudo das normativas emanadas pelo governo federal e documentos de caráter público, e no estudo dos dados do Ministério da Saúde relativos à rede de saúde mental do Sistema Único de Saúde. A análise dos dados de gestão permite afirmar que há tendência de estagnação do ritmo de implantação de serviços de base comunitária. Este estudo pretende contribuir para uma melhor compreensão sobre os fundamentos e a direção estratégica das mudanças, que implicam retrocesso nas diretrizes da reforma psiquiátrica, pretendendo ampliar o debate sobre as formas de resistência ao desmonte da Política Nacional de Saúde Mental.

2. Prevalência de sintomas de depressão em agentes comunitários de saúde (vol. 18, n. 2, jun/2020)

Este estudo avalia a prevalência de sintomas de depressão relacionada aos fatores ocupacionais, sociodemográficos e de estilo de vida de 400 agentes comunitários de saúde. A variável dependente foi a prevalência de sintomas de depressão (Patient Health Questionnaire), e as variáveis independentes foram estresse psicossocial no trabalho (modelo demanda-controle); apoio social; perfil socioeconômico e demográfico; autopercepção de saúde; atividade física; características e condições de trabalho; capacidade para o trabalho e qualidade de vida. A prevalência de sintomas depressivos entre os agentes foi de 20,6%. Na análise multivariada, a prevalência de depressão se associou à baixa ou moderada capacidade para o trabalho, ao baixo apoio social, às classes econômicas C, D e E e aos domínios físico e psicológico da qualidade de vida. Sugere-se a criação de espaços para discussão sobre saúde mental relacionada com o trabalho.

3. Apoio matricial como estratégia de ordenação do cuidado em saúde mental (vol. 18, n. 1, nov/2019)

O estudo analisa a perspectiva dos profissionais dos centros de atenção psicossocial acerca do apoio matricial como estratégia de cuidado psicossocial em saúde mental. Os profissionais compreendem o apoio matricial como ferramenta indispensável para a organização do cuidado psicossocial, mas este ainda é utilizado de modo incipiente no seu cotidiano de trabalho ante os desafios relativos à: coexistência do modelo psicossocial com o biomédico; falta de condições de trabalho; falta de educação continuada e permanente da rede de atenção; burocratização e verticalização das ações da gestão; e motivação para o trabalho entre as equipes. Algumas vivências exitosas de apoio matricial para esses trabalhadores resultaram da cogestão dos processos de trabalho entre profissionais e usuários. Recomenda-se que haja um claro direcionamento do trabalho por parte da gestão, com a definição de uma equipe de matriciadores e um planejamento para sua realização, construindo processos de trabalho que favoreçam tal prática.

4. Produção do cuidado em saúde mental: práticas territoriais na rede psicossocial (vol. 18, n. 1, nov/2019)

Trata-se de um estudo qualitativo com 60 participantes que analisou práticas de cuidado territoriais em saúde mental realizadas por enfermeiros, agentes comunitários de saúde e usuários dos centros de atenção psicossocial e da atenção básica. Os resultados evidenciaram que o processo de territorialização é realizado pela equipe multidisciplinar da Estratégia Saúde da Família, sem a participação dos profissionais do centro de atenção psicossocial. Embora estes, por vezes, realizem práticas comunitárias, persiste a valorização de ações dentro do próprio serviço e na medicalização do sofrimento psíquico, sem considerar as singularidades dos sujeitos e sem articulação com os serviços da atenção básica. Os agentes comunitários de saúde, se treinados, são atores potencialmente estratégicos para atuar na interface da saúde mental com a atenção básica. Com efeito, o panorama da saúde mental urge pela transformação de um modelo que privilegie a reflexão de novas ações em múltiplas dimensões, com ênfase na articulação dos serviços e na capacitação dos trabalhadores que atuam nesse âmbito.

5. Residências integradas em saúde mental: para além do tecnicismo (vol. 17, n. 2, maio/2019)

O estudo analisa, à luz das discussões sobre educação interprofissional e práticas colaborativas no contexto da reforma psiquiátrica, o projeto político-pedagógico de um programa de residências integradas em saúde mental. Mediante abordagem qualitativa, foi realizada análise de conteúdo temática do projeto político-pedagógico do programa, que resultou em três temas amplos: perspectiva teórico-pedagógica; diversificação das estratégias de cuidado; trabalho multiprofissional na lógica interdisciplinar. As informações que emergiram foram complementadas e aprofundadas com a realização de entrevistas semiestruturadas com atores envolvidos na preceptoria e na coordenação do programa. Entre os achados, destaca-se a potencialidade do programa para o fortalecimento do processo de desinstitucionalização e de qualificação da política pública de saúde mental, ao possibilitar uma aprendizagem conjunta entre residentes de diferentes áreas e trabalhadores dos serviços envolvidos. Por meio do desenvolvimento de competências necessárias para a realização de um trabalho coletivo e comprometido com a integralidade da assistência em saúde, o programa reforça a necessidade da interprofissionalidade e das práticas colaborativas, indo além do tecnicismo. A aposta na rede de atenção psicossocial como local privilegiado para processos de ensino-aprendizagem, sem a utilização do hospital psiquiátrico, questiona práticas de formação estagnadas e possibilita a ampliação das formas de cuidado.

6. Atendimento integral e comunitário em saúde mental: avanços e desafios da reforma psiquiátrica (vol. 17, n. 1, fev/2019)

O estudo caracteriza e analisa a organização dos processos de trabalho em serviços de saúde mental. Coletaram-se os dados a partir de formulário baseado em instrumento validado para o estudo, considerando uma amostra de 402 prontuários. Observou-se um perfil de usuários predominantemente composto por mulheres na faixa etária adulta, com diagnóstico clínico de esquizofrenia, associado a outros diagnósticos clínicos. Quanto às internações em hospitais psiquiátricos antes e após o ingresso no serviço, notou-se redução estatisticamente significante. Como importante avanço, evidenciaram-se os elevados registros de oficinas realizadas. Como principal limitação do estudo, apontam-se falhas nos registros dos prontuários, mas que não os tornam menores ou irrelevantes. Reforça-se que o atendimento integral e de base comunitária ao usuário com transtorno mental e sua família, condizente com os preceitos reformistas, requer, entre outros, maiores investimentos na infraestrutura dos serviços, equipamentos e tecnologias, apoio institucional, capacitação e comprometimento da gestão nos processos de educação permanente

7. Avaliação da organização do cuidado em saúde mental na atenção básica à saúde do Brasil (vol. 16, n. 3, ago/2018)

Este artigo resultou de um estudo transversal sobre o cuidado em saúde mental com 29.778 equipes da Estratégia Saúde da Família de todo o Brasil (87,1% do total), incluindo avaliação normativa dos dados do segundo ciclo do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (2013-2014) nas dimensões perfil dos profissionais, promoção da saúde mental, gestão e oferta do cuidado. Os resultados mostraram que 33,8% dos entrevistados tinham vínculo trabalhista precário e 60,3% deles se sentiam despreparados para atuar em saúde mental. A oferta do conjunto de ações avaliadas só ocorreu em 9,5% das equipes em todo o Brasil (2,2% na região Norte). Cerca de metade não desenvolvia estratégias de promoção da saúde e apenas 9,8% efetivavam a gestão do cuidado. Concluiu-se que os baixos percentuais de implantação em nível nacional coexistem com expressivas desigualdades regionais, com piores resultados no Norte. Fazem-se necessários o fortalecimento de ações de promoção da saúde, a qualificação das equipes, a desprecarização de vínculos e o reordenamento da gestão do cuidado.

8. Situações de desequilíbrio entre esforço-recompensa e transtornos mentais comuns em trabalhadores da atenção básica de saúde (vol. 16, n. 1, jan-abr/2018)

Estudo da associação entre transtornos mentais comuns e situações de desequilíbrio entre esforços e recompensas em trabalhadores da atenção básica de saúde. O estudo transversal foi realizado com 400 trabalhadores. A prevalência de transtornos mentais comuns foi de 21%; 46,2% dos trabalhadores vivenciavam situações de desequilíbrio esforço-recompensa no trabalho. A prevalência de transtornos mentais comuns foi mais elevada na situação de desequilíbrio esforço-recompensa (26,9%) e no grupo dos trabalhadores operacionais (33,8%). A análise de correspondência indicou relação entre desequilíbrio esforço-recompensa e transtornos mentais comuns na primeira dimensão. O modelo de regressão logística log-binomial evidenciou associação positiva entre desequilíbrio esforço-recompensa e transtornos mentais comuns (razão de prevalência ajustada=1,91). Trabalhadores expostos a situações de desequilíbrio esforço-recompensa no trabalho apresentaram maior frequência de adoecimento mental. Os resultados reforçam a necessidade de intervir na gestão e organização do trabalho quanto às demandas dos serviços, condições precárias do trabalho e formas de recompensa ou reconhecimento.

9. A produção do conhecimento em saúde mental e o processo de trabalho no Centro de Atenção Psicossocial (vol. 15, n. 1, dez/2016)

A premência das mudanças no campo da saúde mental provenientes do redirecionamento do modelo assistencial trouxe à cena o tema da formação como elemento decisivo para a sustentação do processo de reforma psiquiátrica brasileira. Este artigo apresenta resultados da pesquisa “Política de saúde mental no município do Rio de Janeiro: um estudo sobre as metodologias de formação e qualificação das equipes de saúde mental”, que teve como objetivo estudar o modo como as equipes dos centros de atenção psicossocial do município produzem sua agenda de formação permanente em saúde mental e como os profissionais reconhecem as formas de produzir conhecimento, pensar e agir no encontro com o trabalho e a produção do cuidado. Empregou-se a observação simples e o grupo focal para coleta de dados. Com a análise, procurou-se identificar a associação das práticas discursivas, que desenham territórios existenciais, com a prática pedagógica no processo de trabalho, articulada ao conceito de analisador. Nesse processo de investigação, foi possível identificar a produção de novas referências de saber, produzidas no ato do trabalho, capazes de transformar o mundo do trabalho e de ativar um cuidado ético, responsável e centrado nos interesses dos usuários.

10. Saúde mental e atenção básica: território, violência e o desafio das abordagens psicossociais (vol. 15, n. 1, jan/2017)

O artigo discute os desafios para a implementação das ações de saúde mental na Estratégia Saúde da Família na perspectiva da desinstitucionalização e territorialização do cuidado. São descritos, na visão de gestores e equipes de saúde da família: o contexto territorial, formas de identificação das demandas e práticas de acolhimento e cuidado em saúde mental. São avaliados também os desafios para a construção de abordagens psicossociais potentes e o cuidado em rede. O campo da pesquisa constituiu-se de dois territórios da cidade (Manguinhos e Complexo do Alemão) com características emblemáticas do contexto urbano do Rio de Janeiro no período estudado (2009 a 2013). Os pesquisadores trabalharam com estratégias de metodologias qualitativas e colaborativas. Os dados coletados apontaram tendências específicas como expansão acelerada da Estratégia Saúde da Família com impactos no processo de trabalho; discurso dos gestores com evidência de abertura para inclusão da saúde mental na Estratégia; narrativas dos trabalhadores explicitando sensação de despreparo e baixa percepção do potencial terapêutico da atenção básica; violência nos territórios causando tensões e ambivalências em relação aos poderes locais; associação direta entre saúde mental e cotidiano violento.
 

*Com informações da Organização Mundial da Saúde

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