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Sempre alerta: prevenindo e acompanhando as readmissões por tentativa de suicídio

30/09/2020

Profissionais de emergência hospitalar compreendem que se trata de um problema pluridisciplinar, complexo e que demanda acompanhamento, mostra estudo publicado na TES

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)* | Imagem: Rawpixel


Setembro, mês dedicado a promoção de campanhas para a prevenção ao suicídio, chega ao fim. Porém, os profissionais de saúde devem continuar em “alerta amarelo”. Isso porque o sofrimento psíquico e emocional tem se agravado nas Américas devido à emergência sanitária. A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Carissa F. Etienne, declarou que a pandemia de Covid-19 causou uma crise de saúde mental nessa região em uma escala nunca vista. “É a ‘tempestade perfeita’ em todos os países, pois vemos necessidades crescentes e recursos reduzidos para atendê-las. É urgente que o apoio à saúde mental seja considerado um componente crítico da resposta à pandemia”, disse, em agosto deste ano.

Antes da Covid-19, uma epidemia de doenças mentais nas Américas

Contudo, Etienne pontuou que as doenças mentais são uma epidemia silenciosa que vêm afetando o continente muito antes da Covid-19. “Depressão e ansiedade são listadas como duas das principais causas de incapacidade. A região também possui o segundo maior consumo de álcool do mundo. Emergências podem piorar nessas condições”.

Segundo a Opas, estima-se que cerca de 100 mil pessoas cometam suicídio todo ano, nas Américas (de acordo com o último dado disponível, de 2016). A maioria dos casos ocorre em pessoas entre 25 e 44 anos (36%) e entre 45 e 59 anos (26%), sendo a maioria entre homens (78% do total registrado).

Profissionais compreendem que o fenômeno é pluridisciplinar e complexo, mostra estudo

Milhares de vidas que podem ser poupadas com acompanhamento psicológico dos pacientes, segundo pesquisa realizada com um grupo de 30 profissionais emergencistas sobre como evitar reincidências. O grupo foi composto por 42% de enfermeiros, 27% de médicos, 17% de técnicos de enfermagem, 7% de assistentes sociais e 7% de psicólogos.

O artigo Representações sociais de profissionais de emergência sobre prevenção de readmissões hospitalares por tentativa de suicídio, publicado pelo periódico Trabalho, Educação e Saúde (vol. 18, n. 3, jul/2020), resulta de um estudo qualitativo com base no modelo de análise cognitiva de redes.

Os autores lembram que “o registro e o seguimento cuidadoso de casos de tentativas de suicídio podem diminuir o número de atos consumados. Entretanto, os desafios para prevenção são enormes, a exemplo do tabu em torno do tema, das subnotificações e da predominância das estratégias intervencionistas em detrimento do acolhimento integral ao paciente e à família”.

No que se refere à frequência e intervalo entre as tentativas de suicídio, os pesquisadores citam Citam Bertolote e colaboradores (2005). “Dentre os pacientes atendidos em setores de emergência por tentativa de autoextermínio, os autores estimaram que de 30% a 60% realizaram tentativas prévias e que de 10% a 25% tentarão novamente no prazo de um ano, descrevendo uma taxa de prevalência para as tentativas de suicídio ao longo da vida variando de 0,4% a 4,2%”.

Neste sentido, o estudo identificou junto ao grupo social analisado os principais termos que irradiaram sentido para o discurso, revelando os termos ‘acompanhamento’, ‘psicólogo’ e ‘paciente’. Para os autores do artigo, o resultado demonstra que os profissionais compreendem que a prevenção de reincidências demanda uma abordagem pluridisciplinar e complexa.

Muito além do Setembro Amarelo: acompanhamento psicológico para o cuidado ampliado

Os pesquisadores afirmam que "o sentido do ‘acompanhamento’ sugere a presença do conceito de cuidado ampliado que, segundo Simões e Sapeta (2019), requer mais que a atenção aos sinais, sintomas e prescrição de tratamentos. Nessa perspectiva, os profissionais da atenção psicossocial (psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, assistentes sociais, médicos) também precisam compreender no sujeito os aspectos do cotidiano, do tempo, do espaço, do trabalho, do lazer, do prazer e da organização de atividades coletivas, enfatizando as potencialidades do indivíduo. Essa forma de perceber o outro pode representar uma importante conquista dos esforços da reforma psiquiátrica que busca superar a herança asilar do antigo modelo que, segundo Vasconcelos e Mendonça Filho (2013), é iatrogênica, carcerária e separatista”.

O artigo mostra que os participantes compreendem as particularidades do fenômeno, que exigem transformações intra-hospitalares (estímulo à desmistificação e combate ao preconceito do paciente com risco de morrer por suicídio, reestruturação do manejo, triagem e monitoramento durante a permanência da internação), assim como extra-hospitalares (trabalho entre os diferentes níveis de atenção e as redes de apoio, além de dinamismo e integralidade da assistência como recurso para prevenir reincidências desses pacientes).

Saiba mais

O tema deve merecer cada vez mais atenção, considerando as consequências e os aprendizados relacionados e derivados da atual emergência sanitária. Neste sentido, o Portal de Periódicos Fiocruz também recomenda a leitura complementar de uma Comunicação Breve, publicada nos Cadernos de Saúde Pública (vol. 36, n. 9, set/2020), relatando a experiência do trabalho voluntário e colaborativo em saúde mental e atenção psicossocial para oferecer respostas rápidas aos serviços de saúde no contexto da pandemia. 

Para saber mais, acesse também a aba "Outros conteúdos" (abaixo).

* Com informações da Organização Pan-Americana da Saúde.

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