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Arboviroses: estudo identifica circulação de nova linhagem da zika no Brasil

23/06/2020
Publicada no periódico International Journal of Infectious Diseases, a descoberta chama atenção para reemergência da epidemia
Por Raiza Tourinho (Fiocruz Bahia)


Mesmo em meio a uma pandemia que tem afetado o cotidiano de todos, a população brasileira ainda convive com as consequências da última emergência nacional de saúde pública: a da zika, que desde 2015 levou ao nascimento de 3.534 bebês com Síndrome Congênita da Zika (SCZ). Uma nova linhagem do Zika vírus foi descoberta circulando recentemente no Brasil por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) da Fiocruz Bahia e a possibilidade de reemergência da epidemia dessa arbovirose ganhou mais força. O achado foi publicado em junho no periódico International Journal of Infectious Diseases, e serve como alerta para a vigilância da doença.

De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, das principais arboviroses que circulam no Brasil, a zika tem sido a com menor número de casos em 2020: foram notificados 3.692 casos prováveis (taxa de incidência 1,8 casos por 100 mil habitantes), em detrimento de 47.105 casos prováveis de chikungunya (taxa de incidência de 22,4 casos por 100 mil habitantes) e 823.738 casos prováveis (taxa de incidência de 392,0 casos por 100 mil habitantes) de dengue. Mas essa situação pode mudar caso uma nova linhagem genética comece circular na população.

Ferramenta de monitoramento genético

A introdução de uma nova linhagem no país foi identificada por uma ferramenta de monitoramento genético desenvolvida por pesquisadores vinculados ao Cidacs e ao Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia); Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC); Universidade Salvador (Unifacs) e a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP).

O pesquisador da Plataforma de Bioinformática do Cidacs, Artur Queiroz, um dos líderes do estudo, explica que a ferramenta desenvolvida pelo grupo analisa sequências disponíveis em banco de dados públicos e permite identificar as linhagens de Zika presentes em bases de dados do National Center for Biotechnology Information (NCBI – Centro Nacional de Informação Biotecnológica, em tradução livre). “Pegamos esses dados e analisamos, selecionamos as sequências do brasil e mostramos a frequência desses tipos virais ano a ano. O principal achado é que vemos uma variação de subtipos e linhagens durante os anos, sendo que em 2019 há o aparecimento, mesmo que pequeno, de uma linhagem que até então não era descrita circulando no país”.

Identificação

São conhecidas duas linhagens do vírus zika: a asiática e a africana (sendo que essa é subdividida em oriental e ocidental). A ferramenta analisou 248 sequências brasileiras submetidas a base de dados desde 2015. Até 2018, os dados genéticos encontrados eram majoritariamente cambojanos (mais de 90%), proporção que mudou radicalmente em 2019, quando o subtipo oriundo da micronésia passou a ser responsável por 89,2% das sequências submetidas ao banco genético. Mas o que surpreendeu os pesquisadores foi a identificação da emergência do tipo africano, até então inexistente no Brasil. “A linhagem africana foi isolada em duas regiões diferentes do Brasil: no Sul, vindo do Rio Grande do Sul, e no Sudeste, do Rio de Janeiro”, informa o estudo.

+ Leia em Memórias: artigo compara linhagens africana e asiática

A distância geográfica e a diferença de hospedeiros (uma foi encontrada em um mosquito “primo” do Aedes aegypti, o Aedes albopictus, e outro em uma espécie de macaco) sugerem que essa linhagem já está circulando no país há algum tempo e pode ter potencial epidêmico, uma vez que a maior parte da população não tem anticorpos para essa nova linhagem do vírus. Para Queiroz, o achado demonstra a utilidade da ferramenta como “um bom mecanismo de vigilância e alerta para a possibilidade de uma nova epidemia do vírus zika”.

Uma das autoras do estudo, Larissa Catharina Costa, diz que o estudo serve de alerta para que outras doenças não sejam esquecidas. "A circulação do Zika vírus no país, bem como a realização de estudos genéticos devem continuar sendo realizados a fim de evitar um novo surto da doença com o novo genótipo circulante”, reforça. 

A ferramenta desenvolvida pelos pesquisadores pode ser encontrada aqui. E o estudo está disponível aqui.

Saiba mais: para entender a expansão do Zika vírus, pesquisadores compararam linhagens africana e asiática

Associado ao escopo desse novo estudo, o Portal de Periódicos Fiocruz recomenda a leitura do artigo NS1 codon usage adaptation to humans in pandemic Zika virus, publicado na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (vol. 113, n. 5, 2018). O objetivo da pesquisa foi entender a expansão do Zika vírus e de complicações, comparando a linhagem silvática africana e a linhagem epidêmica asiática.

Os autores concluíram que as linhagens epidêmicas têm uma adaptação significativa do códon no gene NS1, para traduzir essas proteínas em células humanas e de mosquitos Aedes aegypti em comparação à linhagem zoonótica africana. “Consequentemente, um isolado epidêmico brasileiro (ZBR) produziu mais proteína NS1 do que a linhagem africana MR766 (ZAF), conforme indicado por dados proteômicos de infecções de neuroesferas derivadas de células progenitoras de neurônios. Embora o ZBR tenha se replicado com mais eficiência nessas células, as diferenças observadas na estequiometria das proteínas do ZIKV não foram explicadas exclusivamente pelas diferenças na replicação viral entre as linhagens”.

Sendo assim, as descobertas indicaram que “a seleção translacional natural e silenciosa na segunda metade do século 20 poderia ter melhorado a adequação da linhagem asiática do ZIKV em células humanas e de mosquitos”. Para saber mais, acesse o artigo aqui.