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Alba Zaluar deixa obra importante no campo da antropologia e dos estudos sobre violência

20/12/2019

Artigos, debates, pesquisas: Portal de Periódicos Fiocruz destaca conteúdos que revelam pensamento crítico da autora

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Wikipedia

 

No dia 19 de dezembro, faleceu a pesquisadora e professora Alba Maria Zaluar, aos 77 anos, em decorrência de câncer no pâncreas. Formada em Ciências Sociais, ela se tornou uma referência nas áreas de antropologia, sociologia urbana e história social, atuando no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj). Ela publicou dezenas de artigos, capítulos de livros e livros como A máquina e a revolta, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti (1999) — um dos mais importantes da literatura brasileira.

A presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima lamentou o falecimento da antropóloga, comentando a importância de seu trabalho: “Triste pela partida de Alba. Seu livro A máquina e a revolta é uma referência preciosa para o estudo das desigualdades urbanas, suas representações e manifestações políticas. E o texto mais denso e belo que li sobre a crítica à chamada cultura da pobreza. Recomendo sempre a meus alunos. Alba participou de minha banca de mestrado e fez críticas importantes e generosas a meu trabalho. Sempre aguerrida, deixa uma obra importante é um exemplo de paixão pela pesquisa antropológica”, escreveu Nísia — doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - Iuperj/Uerj — em seu perfil numa rede social.

Alba Zaluar atuou junto à Fiocruz em diversas oportunidades, publicando artigos, participando de debates e coordenando estudos sobre violência e saúde. Por sua importância, o Portal de Periódicos Fiocruz destaca, hoje, conteúdos que revelam o pensamento crítico da autora.

Retomar o debate logo (Reciis, 2018)

A antropóloga apresenta um histórico do debate público sobre violência e criminalidade nesta nota de conjuntura, publicada na Revista Eletrônica de Comunicação, Informaçãoe e Inovação em Saúde (v. 12, n. 4, 2018). Como indica o título da nota, Alba considera importante retomar o debate, tratando o tema não só como uma questão de segurança pública, mas também de saúde. A pesquisadora afirma que é preciso enfrentar o contexto social de desumanização, em que jovens se matam mutuamente, refletindo o ambiente de polarização no país.

“Deve-se, sim, enfrentar o contexto social em que jovens se matam mutuamente por participarem de bocas de fumo, galeras ou facções que criam um inimigo odiado e desumanizado na figura do ‘alemão’, que mora na área dominada pela outra facção. A tese do genocídio negro, embora se baseie em dados estatísticos que mostram maior concentração de homicídios entre os negros no Brasil, não considera as diferenças de local de moradia, escolaridade, renda familiar e outras variáveis. Mas pode estar estimulando o ódio aos brancos, especialmente os mais próximos e acessíveis, os de classe média espalhados por todas as áreas de planejamento da cidade do Rio de Janeiro, inclusive nos subúrbios cariocas onde estão 50% das favelas e onde a incidência de roubos e homicídios é maior do que nas demais áreas. Ou seja, as maiores vítimas dos crimes violentos estão nessa área que concentram os pobres e grande parte da classe média baixa”, escreveu na nota publicada pelo periódico.

Para enfrentar o problema e suas diversas variáveis, a pesquisadora sugere políticas de segurança pública que tenham como base ações que fortaleçam a cidadania, tais como: controle e investigação sobre a circulação das armas de fogo no país; ações culturais e educativas contínuas; mudanças na política de drogas no país (que demoniza algumas substâncias, permitindo que outras sejam legalmente comercializadas); e uma investigação criteriosa de crimes violentos em regiões e bairros pobres do Estado e da cidade do Rio de Janeiro — em que se acumulam cadáveres, desaparecidos, mortes mal definidas ou mortes por causa desconhecida, onde “guerreiam milícias e comandos de traficantes e onde agem os policiais corruptos”. Acesse o texto na íntegra.

UPPs: uma década depois (Canal Saúde, 2017)

Alba Zaluar é uma das convidadas desta edição do programa Unidiversidade (Canal Saúde), que trata das mudanças ocorridas após dez anos da implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em comunidades do Rio de Janeiro, no Brasil. O programa foi exibido em 14 de agosto de 2017. Assista ao debate aqui: Parte 1 e Parte 2.

Um outro olhar para a violência urbana (Revista Inova Icict, 2015)

Ao fim desta matéria da revista Inova Icict, há uma breve entrevista com Alba Zaluar sobre a parceria entre o Iesp/Uerj e equipe do Laboratório de Informação em Saúde (Lis-Icict/Fiocruz). Juntas, as instituições realizaram o estudo Homicídios no entorno de favelas no Rio, que mostra a ampliação das áreas de influência das milícias nestas áreas. Foram mapeadas 1.001 favelas, sendo 45% delas dominadas por grupos armados, formados por membros das forças de segurança, civis ou militares, da ativa ou aposentados, que atuam na ilegalidade.

A pesquisa contou com um diferencial: para analisar as áreas foi utilizado o georreferenciamento. Com isso, confirmou-se a hipótese de que grande parte dos homicídios se deu pelo estado de conflagração ou guerra entre facções, milícias e policiais. “Descobrimos também que o registro do local do evento mostra que a maior parte deles está no entorno das favelas e não dentro delas, o que também aponta para essa guerra”, explicou Alba na ocasião. Leia mais.
 

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