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Unesco reconhece Cais do Valongo como Patrimônio Mundial

09/07/2017

Portal destaca suplementos temáticos sobre raça, escravidão, discriminação e saúde, e também um artigo especial sobre a pesquisa para localizar o sítio arqueológico

 
Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)* | Foto: Iphan

Cais do Valongo: símbolo da história do tráfico negreiro no continente americano


O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, recebeu o título de Patrimônio Mundial da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] no dia 9 de julho. Localizado na Gamboa, Zona Portuária do Rio, o Cais preserva materialmente a história do tráfico negreiro no continente americano. 

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, em sua declaração em comemoração ao título, lembrou que o Cais do Valongo se torna, agora, mais um dos poucos sítios do Patrimônio Mundial a lembrar a história da escravidão. "Esse sítio arqueológico é único, pois representa os milhões de africanos que foram escravizados e que trabalharam para construir o Brasil como uma nação, gerando a maior população de negros fora da África no mundo. Estamos celebrando a Década Internacional de Afrodescendentes da ONU [Organização das Nações Unidas] e a inscrição desse sítio na lista reafirma o papel do Brasil como um lugar de diversidade e não somente um local de memórias dolorosas", disse a presidente.

O reconhecimento da Unesco toca em questões importantes como escravidão e discriminação. Ampliando o tema e trazendo-o para o campo da ciência e da saúde, o Portal de Periódicos Fiocruz destaca dois suplementos temáticos publicados por revistas editadas na instituição, além de um artigo especial sobre a pesquisa para localizar o sítio arqueológico.


RAÇA, SAÚDE E DISCRIMINAÇÃO

O suplemento Raça, saúde e discriminação: perspectivas históricas e contemporâneas no Brasil e Estados Unidos da revista Cadernos de Saúde Pública (vol. 33, supl. 1, mai/2017) resulta de uma conferência internacional e interdisciplinar realizada no Rio de Janeiro, Brasil, em agosto de 2015. A Fiocruz e a Universidade de Michigan trabalharam em parceria para reunir cerca de 40 pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos para investigar o “estado da arte” da pesquisa e do conhecimento sobre raça, saúde e discriminação. A conferência foi um dos eventos de um projeto colaborativo entre as duas instituições que abrange áreas de pesquisa em Saúde, Direitos Humanos, Cuidado Materno-Infantil, Epidemiologia e História da Medicina e da Saúde Pública.

Os pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Dóra Chor e Ricardo Ventura Santos; e Alexandra Minna Stern, da Universidade de Michigan (EUA), organizadores do evento, reconhecem a importância da raça/cor – como um sistema de classificação e experiência vivida – em estudos de saúde e na sociedade, ao redor do mundo e cada vez mais no Brasil. “A despeito dessa fluidez, desigualdades étnico-raciais em saúde vêm sendo evidenciadas e revelam que pretos, indígenas e pardos encontram-se em inquestionável situação de desvantagem no âmbito da saúde”, dizem eles. Os artigos que integram esse suplemento mostram não apenas o quanto os estudos de raça, saúde e discriminação avançaram, como também sugerem novos horizontes para investigações futuras. Os colaboradores desse número especial cobrem uma diversidade de temas inovadores.

Um dos destaques é o artigo Relatos diferenciados de experiências com discriminação no Brasil e Estados Unidos, que investiga se o grau de escolaridade explica as diferenças entre grupos ou se as diferenças dentro do mesmo grupo variam de acordo com a escolaridade. Os resultados revelam semelhanças gerais entre os dois países, apesar de importantes diferenças históricas. A abordagem interseccional contribuiu para a identificação dessas semelhanças e de algumas diferenças nas experiências com a discriminação. Os achados do estudo têm implicações importantes para a vigilância social e sanitária, assim como para intervenções voltadas ao enfrentamento das consequências danosas da discriminação.


SAÚDE E ESCRAVIDÃO

Treze artigos inéditos publicados na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (vol. 19, supl. 1, dez/2012) revelam como viviam, adoeciam, eram curados ou morriam os escravos e os libertos africanos e crioulos no Brasil. Os autores realizam seus estudos em universidades e centros de pesquisa espalhados por países como França, EUA, Benin, Trinidad-Tobago e Brasil. Este suplemento da revista, intitulado Saúde e escravidão, contou com a organização das pesquisadoras da Casa de Oswaldo Cruz, Kaori Kodama e Tânia Salgado Pimenta, e do professor e pesquisador da UFRJ, Flávio Gomes.

Na carta aos leitores, eles afirmam que, a despeito da realização de “estudos variados e metodologias originais, ainda sabemos pouco sobre como os escravos viviam, quais eram as condições de vestuário e alimentação, doenças, práticas terapêuticas e sistemas de assistência”. A ideia dos três pesquisadores foi reunir trabalhos finalizados e em andamento, “colocando em evidência doenças, epidemias, mortes, artes de curar, médicos, cirurgiões, feiticeiros, parteiras, ervas, mezinhas e unguentos”.

Além dos artigos, há um documento publicado na seção “Fontes”, em que, em 1801, um cirurgião em Vila Boa de Goiás aborda problemas éticos que enfrenta ao cobrar por seus honorários à proprietária de um ex-escravo. Uma “Nota de pesquisa” apresenta os levantamentos feitos em sítios arqueológicos em uma antiga fazenda de jesuítas, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. A edição traz, também, duas resenhas de livros que discutem questões raciais.


EM BUSCA DO CAIS DO VALONGO

No artigo Em busca do Cais do Valongo, Rio de Janeiro, século XIX, publicado nos Anais do Museu Paulista (vol. 24, n. 1, jan-abr/2016), as autores Tania Andrade Lima, Glaucia Malerba Sene e Marcos André Torres de Souza relatam os resultados da pesquisa arqueológica desenvolvida na zona portuária do Rio de Janeiro, no âmbito das obras de infraestrutura e revitalização urbana realizadas na região pela Prefeitura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016. Seu objetivo fundamental foi localizar os remanescentes do Cais do Valongo e do Cais da Imperatriz.

São apresentados a metodologia utilizada – um desafio na circunstância de ter que conciliar uma pesquisa científica com o apertado cronograma da obra -, o surgimento paulatino das estruturas edificadas, os contextos estratigráficos, a interpretação feita para o que foi encontrado, e as transformações urbanas decorrentes dos achados. Tendo em vista a alta relevância histórica, social e política do Cais do Valongo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encaminhou à Unesco, em setembro de 2015, um dossiê para a inscrição do Sítio Arqueológico Cais do Valongo na lista do Patrimônio Mundial.


* Com informações do jornal O Globo, da Unesco e do blog de HCS-Manguinhos

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