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Tempo de transformar: contribuições do movimento de mulheres camponesas para a formação em saúde

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Movimento de Mulheres Camponesas
06/03/2018

Revista Trabalho, Educação e Saúde traz artigo sobre ativismo rural e rede social de saúde popular, tema destacado pela ONU Mulheres em 2018


“O tempo é agora: ativistas rurais e urbanas transformam a vida das mulheres”. Este é o tema escolhido pela ONU Mulheres para pautar o debate em torno do Dia Internacional da Mulher (8/3) em 2018. O secretariado que integra a Organização das Nações Unidas (ONU), destaca a necessidade de atentar para os direitos e o ativismo das mulheres rurais, “que constituem mais de 25% da população mundial e a maioria de 43% das mulheres da força de trabalho agrícola mundial”.

A Organização alerta que as mulheres rurais estão atrasadas tanto em relação aos homens rurais quanto às mulheres urbanas. “Por exemplo, menos de 20% das pessoas em todo mundo que possuem terras são mulheres, e que se pese a diferença mundial de salário de entre mulheres e homens se situa em 23%, nas áreas rurais pode chegar até 40%. Por outro lado, elas carecem de infraestrutura e serviços, trabalho decente e proteção social e se encontram em uma situação mais vulnerável em face dos efeitos das mudanças climáticas”.

Diante deste cenário e na perspectiva de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a ONU Mulheres convoca a sociedade a se mobilizar na garantia de direitos das mulheres do campo, como: acesso à terra e aos bens produtivos, a segurança alimentar e nutrição, ao trabalho decente, à educação e à saúde, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.


Muito a aprender com as camponesas

O ativismo em favor das mulheres rurais, requer também que se aprenda com elas e suas experiências. É o que propõe o artigo Contribuições do movimento de mulheres camponesas para a formação em saúde, publicado na Revista Trabalho, Educação e Saúde – e que destacamos hoje na série do Portal de Periódicos Fiocruz, que esta semana traz um conteúdo especial sobre mulher e saúde.

O artigo apresenta reflexões com base na experiência e na pesquisa desenvolvida com camponesas vinculadas ao Movimento de Mulheres Camponesas, entre outros agentes de educação popular em saúde que atuam em todas as regiões do Brasil. A autora Vanderléia Laodete Pulga mostra as interfaces destas mulheres com os processos de saúde-adoecimento, assim como suas contribuições político-pedagógicas que emergem nas práticas de cuidado, promoção e educação popular em saúde, próprias desses atores sociais.

A discussão parte do predomínio do modelo capitalista de produção no campo, com base no agronegócio, no uso de agrotóxicos e seus efeitos nocivos para os trabalhadores rurais, que geram pobreza e exclusão. “O acesso dessas pessoas aos serviços de saúde e educação e às condições básicas, inclusive a alimentação, fica muitas vezes situado no embate entre os interesses do lucro, de um lado, e a necessidade de garantia desses direitos preconizados na Constituição, de outro”.

A partir daí, Vanderléia reflete sobre experiências desenvolvidas pelos movimentos sociais populares, em especial o MMC, mostrando práticas que se assentam numa dinâmica educativa. “Esses coletivos populares desenvolvem o processo formativo, articulado ao político-organizativo e à construção das experiências de promoção à saúde que se constituem em formas de resistência popular nos territórios do campo e das periferias urbanas”, escreve. A autora destaca aspectos como: a centralidade das pessoas e seu papel de sujeitos no processo, o compartilhamento de conhecimentos que supera formas autoritárias; a intencionalidade estratégica nos processos educativos, que busca transformar a realidade cotidiana e da sociedade; os processos emancipatórios contra opressão; e os valores éticos, como coletividade e solidariedade.

Como as mulheres cuidam da saúde

Vanderléia se dedica a analisar como “as mulheres desenvolvem o processo de cuidado com a saúde da mulher e da família rural, como experiência de resistência popular, articulada pela luta para a garantia de um sistema público e universal de saúde”. Segundo a autora, trata-se de um processo educativo-terapêutico. Neste sentido, ela identifica elementos como: acolhida, escuta, diálogo e a construção de um modo de vida saudável e equilibrado, que perpassa o conjunto das ações desenvolvidas pelo movimento. “O vínculo ou a conexão entre o grupo de mulheres, a comunidade e as pessoas que precisam de atenção é um aspecto forte, que gera confiança, companheirismo e responsabilidade para com o outro, o qual, em sua alteridade, se revela como um ser humano capaz e finito”.

Para saber mais sobre esta experiência, que pode ser chamada de uma “rede social de saúde popular”, acesse o artigo completo aqui.

* Com informações da ONU.

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