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Surto de febre amarela é tragédia anunciada, diz historiador

Doença que volta a assombrar o Brasil chegou a ser erradicada pelo sanitarista Oswaldo Cruz

30/01/2017
Por Deutsche Welle* e Blog de HCS-Manguinhos

Coleção de Febre Amarela/Instituto Oswaldo Cruz:
cerca de 500 mil fragmentos de fígado retirados de
pacientes que  foram a óbito entre 1930 e 1970


Há mais de cem anos, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu, numa campanha até então inédita, acabar com focos do mosquito Aedes aegypti e erradicar as recorrentes epidemias de febre amarela nas grandes cidades do Brasil – isso numa época em que não havia vacina contra a doença.

Agora, no entanto, a enfermidade ameaça voltar aos centros urbanos, com a confirmação de 47 casos entre os 272 suspeitos, e 25 mortes em Minas Gerais; e a luta contra o mosquito – que também transmite os vírus da dengue, da chicungunya e do zika – parece perdida.

Por que um problema resolvido há mais de um século volta a assombrar a população? Para o historiador Marcos Cueto, editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, trata-se de um retrocesso e também de uma tragédia anunciada. "Na história das epidemias do século 21, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela. Mas aqui as lições da História não são levadas em conta", afirma o especialista. 

Na virada do século 19 para o 20, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do país eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e responsável, diretamente, pelas recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros evitavam aportar por aqui em determinadas épocas do ano – o que trazia consequências econômicas.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a dar um basta àquela situação. Logo no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado a assumir a diretoria-geral de Saúde Pública – um cargo similar ao de ministro da Saúde – com a espinhosa missão de acabar com a febre amarela.

O médico criou o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, que logo colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos – grupos de agentes sanitários cujo objetivo era eliminar os focos de mosquito a qualquer custo. O modelo de ação era truculento, com os agentes de saúde percorrendo todas as casas e destruindo todos os locais de desova do mosquito transmissor. Mas surtiu efeito: em 1907, a epidemia foi considerada erradicada. E desde 1942 não há registros de transmissão de febre amarela nos centros urbanos.

"No Brasil e em muitos países da América do Sul este era um problema considerado controlado; restrito a regiões amazônicas", afirma Cueto. "Desde o fim dos anos 20, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 existe uma vacina".

Para Cueto, no entanto, de lá para cá, predominou no país uma atitude passiva e tolerante com o mosquito transmissor da febre. "Os controles foram ficando cada vez mais relaxados [e por essa mesma razão houve um aumento da dengue e do zika]. Não houve uma política de vacinação entre a população urbana e o número de moradores das cidades só aumentou", explica o especialista.

As cidades cresceram de forma desordenada, e as áreas mais pobres e sem saneamento são os maiores focos de proliferação do mosquito. No caso de novos surtos da doença, são justamente as parcelas menos favorecidas da população que mais sofrerão com o problema.

Para Cueto, medidas individuais para controle de larvas – como apregoa hoje o governo – não são suficientes. "Temos que resolver os problemas de água, moradia e pobreza que fazem com que existam muitos reservatórios nas favelas", diz o especialista. "E além disso, temos que resolver o problema da criminalidade nas favelas, que impede o trabalho de sanitaristas no controle dos reservatórios e na educação higiênica."

Para o historiador, Oswaldo Cruz é um exemplo de liderança a ser seguido, embora não represente mais um modelo. "Agora existem novos desafios, temos problemas novos, precisamos de respostas mais complexas", afirma. "Precisamos resolver a questão da pobreza urbana e fazer com que a vacina seja acessível para todos."


Leia mais em História, Ciências, Saúde – Manguinhos:

Teorias sobre a propagação da febre amarela: um debate científico na imprensa paulista, 1895-1903, artigo de Soraya Lódola e Edivaldo Góis Junior (vol. 22, n.3, jul-set/2015)

Cidade-laboratório: Campinas e a febre amarela na aurora republicana, artigo de Valter Martins (vol.22, n.2, jan-abr/2015)

Antiescravismo e epidemia: “O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela”, de Mathieu François Maxime Audouard, e o Rio de Janeiro em 1850. Artigo de Kaori Kodama (vol. 16, n.2, jun/2009)

A cidade e a morte: a febre amarela e seu impacto sobre os costumes fúnebres no Rio de Janeiro (1849-50). Artigo de Cláudia Rodrigues (vol. 6, n.1, jun/1999)

Combates sanitários e embates científicos: Emílio Ribas e a febre amarela em São Paulo. Artigo de Marta de Almeida (vol. 6, n.3, fev/2000)

Produzindo um imunizante: imagens da produção da vacina contra a febre amarela. Artigo de Aline Lopes Lacerda e Maria Teresa Villela Bandeira de Mello (vol. 10, supl. 2, 2003)

Da ‘abominável profissão de vampiros’: Emílio Goeldi e Os mosquitos no Pará (1905)Artigo de Nelson Sanjad (vol. 10, n.1, abr/2003)

Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil. Artigo de Ilana Löwy (vol. 5, n.3, fev/1999)

Dengue no Brasil. Marzochi, Keyla et al. (vol. 5, n. 1, jun/1998)


Leia no Blog de HCS-Manguinhos:

Artigo discute o debate científico sobre a propagação da febre amarela na imprensa paulista de 1895 a 1903
Soraya Lódola e Edivaldo Góis Junior, da Unicamp, demonstram as disputas por poder na medicina

Campinas: laboratório da febre amarela
Em artigo publicado em HCS-ManguinhosValter Martins discute o trabalho da Comissão Sanitária do Estado de São Paulo para conter a doença no fim do século XIX

O papel de Havana na busca pelo germe causador da febre amarela no século 19
Steven Palmer, da Universidade de Windsor, Canadá, abordou o tema em workshop sobre doenças tropicais na Fiocruz.

Ideias de raça influenciaram diagnóstico da febre amarela no Caribe no início do séc. 20
Tara Innis, da Universidade de West Indies, em Trinidad e Tobago, participou de mesa no workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz de 1º a 3 de julho

 

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