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Sarampo, o movimento antivacinas e suas ameaças

22/07/2019

Diante de 484 casos de sarampo confirmados no Estado de São Paulo, em 2019 — sendo 75% na capital —, os governos locais estão enfrentam uma verdadeira cruzada contra a doença. Entre os fatores que preocupam as autoridades sanitárias está a disseminação de notícias falsas. Em entrevista nesta segunda-feira (22/7), o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, declarou: “Temos 363 casos de sarampo [na cidade]. E esse recrudescimento da doença vem em decorrência especialmente do fato de as pessoas terem decidido não tomar vacina e isso se deve em grande parte às fake news, que vêm se espalhando pela internet”. 

As notícias falsas são, em grande parte, difundidas por movimentos antivacinas, que ameaçam conquistas coletivas importantes, como a eliminação de diversas doenças. O tema, que preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), é debatido no programa Sala de Convidados, que o Portal de Periódicos Fiocruz destaca hoje. Assista! E, claro, para ampliar ainda mais os conhecimentos, trazemos uma seleção de artigos publicados nas revistas científicas editadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Acesse.


Um problema que atinge todo o mundo

Segundo as autoridades de saúde de São Paulo, é preciso vacinar todas as pessoas com idade entre 15 e 29 anos para barrar com eficiência o avanço da doença. Trata-se de uma população estimada em 2,9 milhões. Em sua mensagem, o secretário de Saúde, Edson Aparecido, alertou: “Para imunizar esta multidão de jovens, não basta o empenho dos profissionais da área. Toda a sociedade precisa se mobilizar contra a doença, que pode ter serias complicações respiratórias e neurológicas e até mesmo levar à morte. 

Saiba mais: leia o artigo sobre a imunogenicidade e segurança da vacina combinada para sarampo, caxumba e rubéola (tríplice viral), produzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou surtos de sarampo em 170 países desde 2017, mostrando que o avanço da doença é um fenômeno global. Este ano, houve um aumento de 300% no número de casos, no mundo todo, em comparação com 2018. Além disso, em 2019 o movimento antivacina passou a figurar na lista das dez maiores ameaças à saúde global, de acordo com a OMS, junto com ebola, HIV, dengue e influenza e outras doenças. Para a Organização, os movimentos antivacina são tão perigosos quanto os vírus que aparecem na lista porque ameaçam reverter o progresso alcançado no combate a enfermidades que podem ser evitadas pela vacinação, tais como o sarampo e a poliomielite.

Ainda de acordo com a instituição, a vacinação é uma das intervenções de saúde pública mais eficientes que existem, sendo responsável por salvar de 2 a 3 milhões de vidas a cada ano. No caso do sarampo, a OMS registrou a redução de 74% da mortalidade mundial por sarampo no período de 2000 a 2010.

O programa Sala de Convidados, do Canal Saúde, que destacamos hoje debate o assunto. Os participantes abordam a importância da vacinação, buscando desfazer mitos e boatos e alertando para questões relacionadas à saúde coletiva, desde a volta de doenças imunopreveníveis à sobrecarga do sistema de saúde. Nesta edição, o programa recebe: a coordenadora da Assessoria Clínica do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos - Fiocruz), Maria de Lourdes de Sousa Maia; a médica pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), Isabella Ballalai; e o Infectologista pediátrico do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Marcio Nehab.


ACESSE ARTIGOS PUBLICADOS NOS PERIÓDICOS FIOCRUZ

A (não) vacinação infantil entre a cultura e a lei: os significados atribuídos por casais de camadas médias de São Paulo, Brasil

O objetivo deste estudo foi compreender como pais de camadas médias de São Paulo, Brasil, significam as normatizações da vacinação no país, a partir de suas vivências de vacinar, selecionar ou não vacinar os filhos. Foi realizada abordagem qualitativa por meio de entrevista em profundidade. O processo analítico guiou-se pela análise de conteúdo e pelo referencial teórico da antropologia do direito e da moral. Para os pais vacinadores, a cultura de vacinação se sobressaiu à percepção de cumprimento da lei; para os seletivos, a seleção de vacinas não foi percebida como ação desviante da lei. Em ambos, o ato de vacinar os filhos assumiu um status moral. Já os não vacinadores, em contraponto à perspectiva legal, atribuem essa escolha a um cuidado ao filho respaldado pela ilegitimidade que a vacinação assume para o modo de vida deles e vivenciam um cenário de coerção social e medo de imposições legais. A vacinação é uma prática importante no campo da Saúde Pública, porém, pode revelar tensões e conflitos oriundos de sistemas normativos, sejam eles de ordem moral, cultural ou legal.

Immunogenicity and safety of the combined vaccine for measles, mumps, and rubella isolated or combined with the varicella component administered at 3-month intervals: randomised study
O teste de campo necessário para licenciar a vacina combinada contra o sarampo, a caxumba e a rubéola (MMR) deve levar em conta a recomendação atual da vacina no Brasil: primeira dose aos 12 meses e segunda dose aos 15 meses em combinação com uma vacina contra varicela. O estudo teve como objetivo avaliar a consistência clínica, imunogenicidade e reatogenicidade de três lotes de vacina MMR preparada com insumos farmacêuticos ativos (API) da Bio-Manguinhos, Fiocruz (MMR-Bio), e compará-la a uma vacina (MMR produzida pela GlaxoSmithKline ) com API diferente. Trata-se de um estudo de fase III, randomizado, duplo-cego, não inferioridade da MMR-Bio administrado em lactentes imunizados em unidades de saúde no Pará, Brasil, de fevereiro de 2015 a janeiro de 2016. Os níveis de anticorpos foram titulados por ensaios imunoenzimáticos. Eventos adversos foram registrados em diários. A demonstração da consistência do lote e da não-inferioridade da vacina Bio-MMR completou a transferência de tecnologia. Esta é uma conquista tecnológica significativa com implicações para programas de imunização.

Incompletude vacinal infantil de vacinas novas e antigas e fatores associados: coorte de nascimento Brisa, São Luís, Maranhão, Nordeste do Brasil
Neste estudo, foram estimados percentuais de incompletude vacinal e fatores associados ao esquema vacinal para novas vacinas (EVNV) e esquema vacinal para antigas vacinas (EVAV) em crianças de 13 a 35 meses de idade de uma coorte de nascimento em São Luís, Maranhão, Brasil. A amostra foi probabilística, com 3.076 crianças nascidas em 2010. Informações sobre vacinação foram obtidas da Caderneta de Saúde da Criança. As vacinas consideradas para o EVNV foram meningocócica C e pneumocócica 10 valente, e para EVAV, vacinas BCG, hepatite B, rotavírus humano, poliomielite, tetravalente (vacina difteria, tétano, coqueluche e Haemophilus influenzae b), febre amarela, tríplice viral (vacina sarampo, caxumba, rubéola). É importante considerar, nas estratégias de vacinação, a vulnerabilidade de crianças com mais idade e pertencentes às classes D e E, especialmente quando novas vacinas são introduzidas, e ainda de filhos de mães que possuem baixa escolaridade. Assim como, quando há menor disponibilidade de serviços de saúde para a criança e de vacina.

Investigação de surto de sarampo no estado do Pará na era da eliminação da doença no Brasil
Em 27 de julho de 2010, houve a notificação tardia de um resultado de IgM reagente para sarampo em Belém, Pará, Brasil, que gerou uma investigação epidemiológica e medidas de controle e prevenção. Foram encontrados mais dois casos confirmados, irmãos do primeiro caso, com clínica e período de incubação compatível com sarampo. Foi realizada busca retrospectiva em hospitais e laboratórios, cujo caso suspeito fora o residente ou visitante do Pará, que entre 1º de maio de 2010 e 4 de agosto de 2010, tenha apresentado febre e exantema acompanhado de tosse e/ou coriza e/ou conjuntivite. Todos os casos identificados foram investigados via contato telefônico e/ou visitas domiciliares. Foram revisadas 183.854 fichas de atendimento, sendo identificados 56 (0,03%) casos suspeitos. Aplicamos 2.535 doses de vacina tríplice viral distribuídas entre bloqueios e intensificações vacinais. Ocorreu um surto intradomiciliar de sarampo em Belém com detecção e isolamento de genótipo viral importado da Europa. Recomenda-se vigilância epidemiológica oportuna e sensível à detecção de casos suspeitos de sarampo e manutenção de coberturas vacinais altas.

Molecular characterisation of the emerging measles virus from Roraima state, Brazil, 2018
A revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (v.114, fev/2019) publicou um artigo com a primeira sequência completa do genoma de um vírus do sarampo, do tipo selvagem, relatado na América Latina. Assinado por pesquisadores da Fiocruz Amazônia, em parceria com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde de Roraima, o sequenciamento completo do genoma foi isolado de um vírus do sarampo, genótipo D8, obtido diretamente de uma amostra de urina na cidade de Boa Vista, em Roraima. Os pesquisadores fizeram a reconstrução filogenética e agruparam o genoma, descrito no estudo, com o de amostras da Austrália, Coréia do Sul e Itália. De acordo com os autores, os dados presentes no artigo fortalecem o conhecimento atual sobre a epidemiologia molecular do sarampo em todo o mundo.


SAIBA MAIS

Sarampo é grave e pode matar
O sarampo é uma doença infecciosa aguda, de natureza viral, grave, transmitida pela fala, tosse e espirro, e extremamente contagiosa, mas que pode ser prevenida pela vacina. Pode ser contraída por pessoas de qualquer idade. As complicações infecciosas contribuem para a gravidade da doença, particularmente em crianças desnutridas e menores de um ano de idade. Em algumas partes do mundo, a doença é uma das principais causas de morbimortalidade entre crianças menores de 5 anos de idade. O comportamento endêmico do sarampo varia, de um local para outro, e depende basicamente da relação entre o grau de imunidade e a suscetibilidade da população, além da circulação do vírus na área. O agente envolvido na causa da doença é o vírus do Sarampo, que pertence ao gênero Morbillivirus, da família Paramyxoviridae.

Ministério da Saúde: informações confiáveis para combater fakenews
Para combater fake news sobre saúde, o Ministério da Saúde disponibiliza um número de WhatsApp para envio de mensagens da população. O canal não é um SAC nem tira dúvidas dos usuários. É um espaço exclusivo para receber informações que circulam de forma viral, que serão apuradas pelas áreas técnicas e respondidas oficialmente, sendo classificadas como verdadeiras ou falsas. Qualquer cidadão pode enviar gratuitamente mensagens com imagens ou textos que tenha recebido nas redes sociais, para confirmar se a informação procede, antes de continuar compartilhando. O número é (61) 99289-4640. Na página do Ministério da Saúde é possível acessar o que já foi apurado através deste link: https://www.saude.gov.br/fakenews

Guia para profissionais de saúde
Já está disponível a nova versão do Guia de Vigilância em Saúde (GVS). A 3ª edição da publicação se alinha aos novos desafios e estratégias de vigilância, prevenção e controle das doenças e agravos de importância de saúde pública e atualiza as recomendações relacionadas às ações de vigilância em saúde presentes na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de saúde Pública. O Guia é editado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS). Nesta 3ª edição, passaram por atualizações substanciais os capítulos sobre febre amarela; dengue, chikungunya e Zika; sarampo; sífilis congênita; sífilis adquirida e em gestante; rubéola; síndrome da rubéola congênita; hepatites virais; infecção pelo HIV e aids. Houve pequenas atualizações em capítulos sobre outras doenças. O objetivo é disseminar informações que contribuam para aprimorar práticas da vigilância em saúde, de forma integrada aos serviços de saúde, em todos os municípios do país.

*Com informações da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e do Ministério da Saúde.

Instituição: 
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Autoria: 
Vídeo: Canal Saúde
Texto: Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)*

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