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Roda de conversa na Fiocruz: Ciência e mídias alternativas e sociais

13/09/2018

Confira os melhores momentos do debate sobre Ciência e mídias alternativas e sociais, promovido pela Fiocruz como parte do Workshop Divulgação das CT&I nas mídias

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Peter Ilicciev (CCS/Fiocruz)

Da esq. para a dir.: Rehen, Parise, Raquel e Márcia conversam sobre
Ciência e mídias alternativas e sociais no workshop promovido pela Fiocruz
 

Que espaços alternativos a sociedade tem para debater ciência? Quem está abrindo novos caminhos nas redes sociais? E que experiências podem compartilhar com quem produz e divulga ciência? Se você está interessado nestas questões, confira como foi a roda de conversa Ciência e mídias alternativas e sociais — segundo episódio do Workshop Divulgação das CT&I nas mídias. O encontro, que aconteceu na tarde de 9 de agosto, reuniu Luiz Parise, diretor de Jornalismo na TVT; Raquel Torres, jornalista do site Outra Saúde; e o neurocientista Stevens Rehen, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e Instituto de Ciências Biomédicas/UFRJ. A roda foi mediada pela coordenadora-geral do Canal Saúde, Márcia Corrêa e Castro.
 

Alternativas à grande mídia

A luta para conseguir a concessão de uma emissora educativa aberta foi a experiência que o diretor de Jornalismo na TVT, Luiz Parise, compartilhou com o público do evento. A TVT é vinculada à Fundação Sociedade Comunicação Cultura e Trabalho, uma entidade cultural sem fins lucrativos, mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pelo Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região. Parise contou como nasceu o projeto, há oito anos, destacando algumas coberturas e números da TVT, cujo objetivo é ser um canal para ampliar a voz dos movimentos sociais. “A TV nasceu da visão do contraditório. Era preciso combater a visão de que o trabalhador que luta pelos seus direitos é ‘do contra’. Nosso enfoque foi mostrar de que causas eles são ‘a favor’”, comentou. Ainda na perspectiva da inversão, contou: “Costumamos dizer que não somos uma mídia alternativa, mas uma alternativa à grande mídia”.



Com financiamento restrito, é fundamental ser assertivo na escolha das
pautas, comenta Parise, diretor de jornalismo na
TVT


Em sua fala, ele destacou que "fazer TV é caro”, comparando dados da operação e de equipes da TVT com de grandes emissoras comerciais como a Rede Globo. “A falta de financiamento nos obriga a ser muito criativos e também muito assertivos na escolha das pautas”. Neste sentido, o diretor de jornalismo, citou as principais estratégias adotadas pela TVT, como: compartilhamento de sinal para a transmissão ao vivo, uso de múltiplas plataformas e de redes sociais – com o YouTube tendo bastante importância –, parcerias para veicular conteúdos de outras emissoras públicas, como o Canal Saúde/Fiocruz, e também com profissionais de diferentes regiões do país.


Um cientista só pode causar boa repercussão

Neurocientista, diretor de pesquisa do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), professor, consultor, apresentador e colunista de programas de comunicação. Tudo isso e muito mais pode ser dito sobre Stevens Rehens. Ou, em resumo, nas palavras dele: “Um cientista que usa as redes sociais para se tornar um cientista melhor e contar histórias”. Na roda de conversa na Fiocruz, Stevens falou sobre diversas formas de utilizar mídias alternativas para melhor se comunicar com a sociedade – seja para promover o próprio trabalho científico, prestar contas à sociedade sobre o uso do dinheiro público ou para ampliar oportunidades de colaboração.

Entre os assuntos de que tratou, mencionou a velocidade da ciência e a necessidade de se comunicar rapidamente, avaliando prós e contras. O pesquisador deu exemplos de como o Twitter vem sendo utilizado não só para dialogar com o público, mas para confrontar ideias. “As redes, muitas vezes, servem para a correção da ciência. Por isso, temos que utilizá-las a nosso favor”, disse, citando um post sobre um estudo fraudulento. “Vários cientistas tentaram reproduzir o experimento sem sucesso, e a pesquisa foi retirada do periódico científico", contou.



Para Rehens, cientistas devem explorar potencial das redes sociais como 
vantagem competitiva e espaço de colaboração com outros agentes do campo



Por outro lado, Rehens pontuou que — para além das controvérsias científicas — há um movimento interessante e positivo para disseminar conhecimento confiável mais facilmente. E citou como exemplo tweets sobre preprints, cuja vantagem é agilizar a discussão, a cooperação e, consequentemente a pesquisa. “Existem estudos que mostram que as mudanças de artigos após os preprints são mínimas, porque o cientista se expõe bastante ao lançar sua pesquisa abertamente”, lembrou. “As pessoas e a comunidade científica começam a perceber o trabalho de curadoria e há uma espécie de seleção natural e um amadurecimento do que ainda não está bem estabelecido”, afirmou. Para ele, a presença das revistas científicas em redes como o Twitter é fundamental.


Duas jornalistas e uma missão: lançar novos olhares para a saúde

Em seguida, foi a vez de outra entusiasta das redes sociais ter a palavra. Bem mais tímida (mas não menos ativa do que seus colegas da roda), a jornalista Raquel Torres, falou sobre o site Outra Saúde. Lançada em fevereiro deste ano, a iniciativa visa ampliar a produção e a circulação das informações sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o direito à saúde. O site é vinculada ao Outras Palavras – que existe desde 2010, tem textos lidos 15 mil vezes por dia e conta com quase 300 mil seguidores no Facebook atualmente

No Outra saúde são publicadas reportagens, entrevistas em vídeo e resenhas, além de matérias elaboradas por veículos parceiros. Para isso, o trabalho da equipe – de duas aguerridas jornalistas, e que também se dividem com trabalhos paralelos – é o de curadoria. Ou seja: consiste tanto em produzir conteúdos próprios quanto reunir outros conteúdos. “Queremos dar mais visibilidade às pautas da saúde, que muitas vezes aparecem dispersas em várias ditorias”, disse Raquel. Segundo ela, a militância nas redes sociais também se dá em duas dimensões: "Além de tentar 'furar a bolha', a gente pensa em 'informar a bolha'".



A jornalista Raquel Torres (à dir.), do site Outra saúde, compartilha com os
colegas e o público os desafios e as alternativas para ampliar a produção e
circulação das informações sobre o SUS e o direito à saúde


Entre as principais estratégias de disseminação de conteúdo, está uma newsletter diária e gratuita. Produzida durante a madrugada, a news chega aos assinantes pela manhã com as principais notícias nacionais e internacionais sobre saúde.


E o público, curtiu? A seguir, confira algumas impressões dos participantes do evento:

"Percebi, pela fala dos convidados, que a área está em construção. Por isso, a importância de os profissionais compartilharem experiências e trabalharmos juntos para construirmos novos e bons caminhos de disseminação da ciência." Gabriel Fonseca (Canal Saúde)
 

"É preciso levar o que os periódicos fazem até o público, abrir o diálogo. Hoje lembramos, por exemplo, de como é importante que os produtores da ciência estejam presentes em diferentes espaços, como as mídias sociais. Por mais que isso demande esforço e empenho, é fundamental que esses espaços sejam ocupados." Angélica Fonseca (Revista Trabalho, Educação e Saúde)


"Sou estagiária e achei que estar no workshop agregaria muito mais valor ao meu trabalho do que passar o dia produzindo na redação. O que mais gostei foi aprender como o público pode ajudar na construção das pautas jornalísticas em ciência, se soubermos chegar até eles. Além disso, ficou claro que a nova geração é digital e que precisamos nos manter sempre atualizados." Tassiana Chagas (Radis)


“Acho que é uma oportunidade muito legal poder falar de ciência dentro de um fórum que não tem só cientistas. Temos divulgadores, editores e pessoas interessadas em ter um cuidado com a mensagem científica. A gente tem que se adaptar aos novos universos, que são baseados em interações totalmente diferentes do que estávamos acostumados. E isso ótimo! Stevens Rehen (Instituto D'Or/UFRJ)

 

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