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Qualis Único é retrocesso, avalia o editor Kenneth Camargo, da Abrasco

09/09/2019
Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)*

"A ideia de uma ciência unificada remonta à filosofia dos positivistas lógicos do início do século 20”, critica coordenador do Fórum dos Editores de Saúde Coletiva da Abrasco

Como avaliar a pesquisa e a contribuição da ciência para a sociedade? A pergunta não é nova e, por isso mesmo, talvez aí resida o problema. Ainda que os critérios de avaliação da produção de conhecimento devam ser permanentemente debatidos, há que se considerar também as contínuas críticas que vêm sendo feitas aos modelos que privilegiam os indicadores bibliométricos e a avaliação quantitativa. Contudo, na prática, o que se vê é que as medidas de citação ainda imperam. Como bem sintetizou o editor Kenneth Camargo, ainda em 2010, em artigo sobre o tema: O rei está nu, mas segue impávido: os abusos da bibliometria na avaliação da ciência.

Partindo deste ponto, Kenneth (que compõe a coordenação do Fórum de Editores da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco) e Angélica Ferreira Fonseca (membro do Fórum dos Editores Científicos da Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz) conversam sobre a proposta do Qualis Único para a classificação dos periódicos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A entrevista em vídeo foi produzida pelo Portal de Periódicos Fiocruz. Assista!

Nova metodologia com base em filosofia ultrapassada

A proposta de adotar apenas uma classificação de referência para cada periódico, apresentada pela Capes, é uma volta ao passado, critica Kenneth. “Essa ideia do Qualis Único, de uma ciência unificada, é uma concepção retrógrada de uma filosofia da ciência dos positivistas lógicos do início do século 20”. O editor da Abrasco explica que a nova metodologia utiliza apenas e exclusivamente uma cesta de medidas de citação, e afirma que esse padrão é bastante problemático para uma área tão heterogênea como é a saúde coletiva. Isso resulta também numa comparação extremamente desfavorável entre revistas brasileiras e internacionais.

Kenneth aponta, ainda, para a desvalorização de publicações em acesso aberto. “É um retrocesso enorme ao que vinha sendo feito em relação à nossa área, desconsiderando a importância do portal SciELO, em que não há cobrança ou é cobrado um valor irrisório em relação a periódicos do exterior”.

Neste sentido, são levantadas questões relacionadas ao papel das publicações científicas para a avaliação dos programas de pós-graduação. Como a classificação no Qualis Periódicos é considerada, isso acaba influenciando o financiamento dos periódicos junto às agências de fomento. Com a adoção dessa metodologia durante a avaliação de meio termo, a maioria das revistas já foi rebaixada em relação ao patamar original. “Nós estamos muito preocupados com a fuga de recursos e a fuga de autores”, comenta Kenneth.

Isso poderia, inclusive, gerar distorções e se refletir já no processo de seleção dos artigos, pontua Angélica. Ou seja: os editores das revistas científicas poderiam acabar induzindo temáticas e objetos dos artigos, a fim de aumentar o número de citações e a projeção no ambiente acadêmico.

Outra questão levantada por ela, que é editora da Revista Trabalho, Educação e Saúde, diz respeito à importância do acesso ao conhecimento científico atualizado como elemento fundamental para a formação profissional. Ao responder, Kenneth atenta para a relação entre as pesquisas e o Sistema Único de Saúde (SUS). "O SUS sempre foi relevante para a saúde coletiva no Brasil. A gente pesquisa no SUS, com o SUS, pelo SUS. Não dá para imaginar que vamos virar as costas para tudo isso, porque temos que marcar determinados pontinhos numa escala duvidosa”.

Quanto às resistências a uma análise qualitativa da produção científica, ele acredita que o debate só pode avançar se os processos forem cada vez mais transparentes e democráticos. “Não é pegar ‘meia dúzia de sábios’ para decidir tudo. Precisamos ter coletivos de avaliação que possam mostrar os caminhos para a área, deixando claros seus objetivos. Toda avaliação precisa ser permanentemente repensada e aperfeiçoada. Mas isso significa andar pra frente, não pra trás como dessa vez”, conclui.

Carta aberta dos editores da Fiocruz

O Fórum de Editores Científicos da Fiocruz publicou, recentemente, uma carta aberta sobre a proposta da Capes para a classificação das revistas científicas no Qualis Periódicos. No documento, os membros do Fórum elencam uma série de fatores que podem comprometer uma análise qualitativa das publicações editadas pela Fundação, tendo em vista as diferentes áreas em que atua no campo da saúde. Leia a carta na íntegra, aqui no Portal.

Saiba mais sobre avaliação da produção científica


*Créditos: o vídeo foi produzido pela equipe do Portal de Periódicos Fiocruz/Campus Virtual Fiocruz, com apoio da Casa de Oswaldo Cruz.

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