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"Publicar artigos científicos é prestar contas à sociedade"

12/05/2016

Editor associado do American Journal of Public Health, Kenneth Camargo critica pressão pela publicação e sistema concentrado, alertando: "incentivos ameaçam a integridade da pesquisa e a qualidade da produção”

Por Alexandre Matos (Instituto de Tecnologia em Fármacos/Fiocruz)

 

O Brasil é um dos países que mais produz artigos científicos - uma produtividade que nem sempre significa qualidade. Quem alerta é o editor associado do American Journal of Public Health, Kenneth Rochel de Camargo Jr. Ele ministrou a palestra Produção científica: qualidade x produtividade no Centro de Estudos do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), no último dia 5.

Para ele, a excessiva publicação de artigos científicos tem se tornado contraproducente para a ciência. De 2001 a 2011, o Brasil passou de 17º para o 13º lugar na classificação mundial. Mas quanto à qualidade, medida pelo número de citações em outros trabalhos (impacto), o país caiu da 31ª para a 40ª posição no mesmo período. Diante deste cenário, Kenneth ressaltou que citação não é sinônimo de qualidade, apresentou dados confirmando que as citações são subjetivas e sugeriu uma mudança dos indicadores para avaliação de qualidade.

Segundo o palestrante, cerca de 90% das pesquisas brasileiras são financiadas com recursos públicos. “Portanto, publicar artigos científicos é uma forma de prestar contas à sociedade do que está sendo estudado”, disse. Ele ressaltou que a publicação de um estudo pode representar um legado social. Com vasta experiência como editor científico na área da saúde, Kenneth lembrou que a probabilidade de citação de certas áreas aumenta devido a fatores que nada têm a ver com qualidade, como: reimpressões, língua, múltipla autoria e posição geográfica, por exemplo. Além disso, dependendo da área que a pessoa está trabalhando, o padrão de citação é muito diferente. Então, a primeira questão é abandonar esses indicadores”, sugeriu.

Questionado pelo público sobre opções de modelos de avaliação, o palestrante apresentou soluções sugeridas por outros especialistas, como um método americano no qual os avaliadores solicitam ao pesquisador os cinco trabalhos mais importantes que produziu. “Os processos de avaliação de pesquisadores e programas, pelo seu efeito indutor, têm estimulado um incremento exponencial na publicação científica. Contudo este sistema se tornou contraproducente para a própria ciência, ao concentrar a publicação em alguns veículos e criar incentivos que ameaçam a integridade da pesquisa e a própria qualidade do que é produzido”, frisou Kenneth. Para ele, em alguns aspectos, o modelo “injusto, criando tensões entre as sub-áreas da saúde coletiva. Por isso, análise quantitativa não deve ser o principal fator de avaliação, mas apenas um suporte para a qualitativa especializada". Outro problema que ele destacou foi o fator econômico e o oligopólio de três empresas que representam mais de 40% do total de periódicos existentes.

Modelos falhos

Ele também apresentou dados de uma pesquisa que denunciam que “a autoria de um número inexequivelmente grande de publicações pode indicar a autoria honorária, plágio ou fabricação”. A pesquisa mostrou, ainda, que 99% dos autores foram listados em aproximadamente 20 publicações em cinco anos (média de quatro ao ano). Os números são alarmantes: alguns autores têm emplacado uma publicação por semana. O palestrante destacou que, tão importante quanto a falta de produção acadêmica é o excesso de produtividade, advertindo que as instituições financiadoras deveriam estar mais alertas. “Para algumas publicações, a pessoa estará publicando um artigo a cada dez dias. Não importa o quão produtivo ela seja, é humanamente impossível que a pessoa dê uma contribuição efetiva e reflexiva ao fazer uma pesquisa, escrever um artigo, revisar o que escreveu, discutir com o colega, para que a gente saiba o que ela descobriu. Não é possível!”, enfatizou.

Milagre da multiplicação

Ele criticou alguns mecanismos, como a autoria múltipla, no qual são incluídos nomes de participantes de bancas na condição de coautoria. Lembrou também o recurso da divisão de artigos, a fim de ampliar o número de publicações. “O que deveria ser apenas um artigo, a pessoa divide em três, quatro e até cinco. Como, por exemplo, um determinado estudo que resulta num artigo relatando o que foi observado em crianças; outro sobre o adolescente, mais um sobre jovem, adulto, idoso, e um outro reunindo todos. A pessoa faz o milagre da multiplicação espontânea dos artigos”, ironizou. “Infelizmente, de alguma forma as revistas incentivam isto. O limite de 3.500 palavras para escrever sobre determinado assunto faz com que a pessoa fique sem possiblidades de se aprofundar”, completou, advertindo que o cenário é alarmante. Essa falta de profundidade dos temas chamou a atenção da plateia, que questionou a cobrança por publicação pelas instituições financiadoras. O palestrante concordou que é necessário publicar, mas admitiu que existe uma pressão excessiva, que pode culminar com a baixa qualidade dos trabalhos.

Sobre o palestrante

Kenneth Rochel de Carmargo Jr concluiu doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em 1993, e pós-doutorado na McGill University em 2001. Atualmente, é professor associado da Uerj, editor associado do American Journal of Public Health e editor da revista Physis. Foi vice-presidente da Abrasco (2008-2010); vice-presidente honorário para América Latina e Caribe da American Public Health Association (2014-2015). É diretor do Departamento de Apoio à Produção Científica e Tecnológica da Uerj.

 

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