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Preprints e comunicação científica são discutidos durante Conferência da SciELO

28/09/2018

Uma das participantes do painel foi Claude Pirmez, editora das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. O mesmo tema também foi abordado, recentemente, em editorial da revista

Por Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz)

 

Abertura da ciência, comunicação eficiente e novas formas de publicar. Estas são algumas expressões que podem ser facilmente ouvidas nos corredores durante os dias da Conferência SciELO 20 anos. Na primeira tarde do evento (26/9), um dos painéis que ganhou destaque foi o Comunicação rápida: preprints, peer-review, publicação contínua, que contou com a participação de quatro pesquisadores, de diferentes partes do mundo. A editora das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Claude Pirmez, foi uma das convidadas para abordar o tema.

Em sua apresentação, a editora trouxe a experiência das Memórias com o Fast Track. De acordo com ela, o intuito da revista, ao adotar os sistema, foi de publicar mais rapidamente em situações de emergência. "É uma forma de deixar a informação mais acessível, online, além de fazer a pesquisa e o pesquisador mais visíveis", enfatizou.

Segundo ela, o atual modelo de ciência foca no quantitativo e não no qualitativo. "O fator de impacto infelizmente tem sido o drive principal para medir o que há de bom cientificamente, o que leva a consequências como má conduta, crise da reprodutibilidade e outras". Claude afirmou que os cientistas, editores e todos os agentes da ciência precisam adaptar-se ao novo mundo. E completou: "Acredito numa mudança de cultura no ecossistema em que vivemos, para só assim nos adaptarmos às novas demandas".

Foi nesta linha de pensamento que seguiu Jessica Polka, bióloga e diretora executiva da ASAPbio. Ela baseou sua fala na necessidade de uma transformação profunda, que deve ser cultural. Para ela, os hábitos devem se transformar, pouco a pouco, dentro das práticas da ciência, para que a escolha pelos preprints seja, de fato, inovadora. “Deve haver um ciclo de mudança na cultura e para isso é preciso estimular as pessoas a falarem sobre isso localmente”, opinou.

Já Thaiane Oliveira, coordenadora do Fórum de Periódicos e Comunicação Científica da Pró-reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação da UFF (Universidade Federal Fluminense), afirmou que é preciso entender a ideia dos preprints, e não apenas comprá-la. “Democracia é um conceito caro, por isso devemos dar conta das múltiplas perspectivas que envolvem os preprints: saber o que querem os pesquisadores, os editores, as agências”, pontuou. Ela fez parte de um estudo que avaliou a visão desses diferentes agentes. Alguns resultados apontaram para a baixa qualidade como uma das maiores preocupações dos autores.

“Há uma noção positiva sobre a ciência aberta entre os cientistas, mas ainda há muita desconfiança quando falamos de preprints”, disse Thaiane. De acordo com ela, o caminho para este tipo de avaliação dos periódicos já está aberto. “É um processo irreversível, desde que seja feito democraticamente, com toda a comunidade”.

Quem também lembrou do papel da comunidade científica foi Jan Velterop, da BioMed Central (BMC), que procurou explicar, mais profundamente, o significado dos preprints. Ele chamou a atenção para o cuidado que os cientistas devem ter para desvendar o que, de fato, este processo de avaliação significa. “Após décadas lidando com a publicação tradicional em ciência, hoje digo que os preprints são uma política de segurança – eles asseguram que o seu trabalho vai estar, sim, em acesso aberto para todos, como deve ser”, afirmou.

Preprints: uma possível solução?

Durante o painel, Claude Pirmez lembrou que as Memórias já adotaram o sistema de avaliação por preprints. "Como o conhecimento é um bem público, a ciência obviamente não pertence à academia, ela pertence à sociedade. Por isso, estamos abertos para submeter, publicar e ler". 

Nesse sentido, em editorial intitulado Possible future for editors and scientific journals in an environment of decentralized and instantaneous dissemination of science, Claude Pirmez e Adeilton Brandão apontam para os preprints como um modelo a ser seguido pelos cientistas.

O texto destaca que os preprints são seguros, possibilitando troca de dados científicos de maneira rápida e aberta a todos, sem a necessidade de um intermediário: os resultados da pesquisa vai direto para seus pares. Em um possível futuro, eles visualizam todos os pesquisadores, assim como as agências de fomento à pesquisa, aderindo a esta prática de publicação.

"As consequências podem ser que os pesquisadores pensem 'Por que eu preciso de intermediários para disseminar um trabalho que já está disponível para meus colegas que podem, por exemplo, comentar, criticar, compartilhar e replicar?'", afirmam em trecho. "Os editores perderiam o poder de decidir o que é ou não é lido pela comunidade científica". 

Para saber mais sobre preprints e sua importância, acesse o infográfico desenvolvido pelo Portal de Periódicos Fiocruz, com consultoria de Adeilton Brandão.

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