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Por que (não) publicar nas revistas científicas nacionais?

Para editores da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz é preciso reverter este paradigma para ampliar o prestígio dos periódicos brasileiros

30/07/2017
Por Adeilton Brandão, Elisa Cupolillo e Claude Pirmez* (Memórias do IOC) | Foto: Peter Ilicciev


Editores da revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz trazem à tona, em comentário publicado na edição de agosto, uma discussão antiga, mas que costuma ficar restrita aos bastidores da ciência: por que pesquisadores brasileiros não publicam seus resultados em revistas científicas nacionais? Por que não há incentivo para uma reversão desse paradigma? Que medidas poderiam contribuir para uma mudança de cultura e, consequentemente, ampliar o prestígio dos periódicos nacionais? Editada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desde 1909, a revista ocupa posição de destaque na América Latina e garante a dupla gratuidade para acesso e para publicação. Entenda a questão.
 

Revistas científicas brasileiras: expectativas, (des)incentivos e uma questão fundamental

No Brasil, existem nada menos que mil revistas dedicadas à divulgação dos resultados de pesquisas científicas, recobrindo todas as áreas do conhecimento. Isso está relacionado a um processo mais amplo: ao longo do enorme crescimento que a ciência brasileira tem vivido a partir do final do século 20, os cientistas no Brasil foram integrados a um sistema de incentivos e de avaliação que pressiona pela publicação em revistas consideradas de maior visibilidade e influência – sem exceção, controladas por grandes editorias científicas concentradas nos Estados Unidos e Europa. Assim, o crescimento da produção da ciência brasileira nos últimos 50 anos foi acompanhado pela simultânea perda de influência das revistas editadas no país. Alguns pontos a serem considerados:

1) Por que tantas revistas são editadas no Brasil e, mesmo assim, o nosso ambiente científico institucional não oferece incentivos para que os pesquisadores destinem a estas publicações seus melhores trabalhos? 

2) Considerando os critérios internacionais de editoração científica, as revistas científicas editadas no país podem ser consideradas bons veículos de disseminação de conhecimento? 

3) Deveria ser estabelecido um conjunto de revistas científicas brasileiras a serem apoiadas e classificadas como adequadas para a divulgação de pesquisas em escala internacional?

4) Qual influência órgãos como a Capes e o CNPq deveriam assumir no processo de editoração científica no Brasil?

5) Qual deve ser o papel da pós-graduação, das universidades, das sociedades científicas e das Academias no processo de editoração?


Uma resposta a estes pontos exige um rigoroso olhar sobre o universo editorial e científico brasileiros. O atual sistema nacional de ciência e tecnologia apresenta alguns obstáculos para que as revistas dedicadas aos temas das ciências naturais (biologia, física e química) recebam os manuscritos mais impactantes relacionados ao trabalho dos pesquisadores brasileiros. Em síntese, os incentivos oferecidos aos cientistas não favorecem as revistas editadas no país, posicionando-as como última escolha para submissão dos melhores resultados de pesquisa. Estes estímulos se apoiam em dois fatores:

a) a ênfase exagerada no fator de impacto, resultando em índices nos quais a maioria das revistas brasileiras ocupa as últimas posições; 

b) a percepção de que a aprovação de manuscritos exclusivamente por editores estrangeiros representaria maior prestígio, facilitaria a aprovação de pedidos de financiamento e, no caso dos jovens pesquisadores, aceleraria a progressão na carreira. 


O ambiente de publicação científica no Brasil necessita de um ciclo editorial virtuoso: uma revista publica trabalhos de alta qualidade e estimula outros pesquisadores a submeterem trabalhos com qualidade equivalente. Como resultado, esse ciclo conduz ao aumento do prestígio e da classificação da revista, que continua a receber novos manuscritos de valor singular. No entanto, em nosso país vigora o ciclo vicioso: uma revista publica resultados de pesquisa com pouca novidade e não estimula a submissão de novos e bons trabalhos em suas edições. Com isso, o periódico continua a receber e publicar artigos sem muita novidade, o que resulta na diminuição de seu prestígio e classificação. 

Romper este ciclo vicioso é o desafio principal das revistas brasileiras que atuam na área das ciências naturais. Se, a este desafio, somarmos as características do atual sistema de avaliação da pós-graduação brasileira, a missão assume elevado grau de dificuldade – ainda mais quando consideramos as limitações orçamentárias e tecnológicas do segmento editorial científico nacional. Uma estratégia para este problema seria promover a cultura da inovação, simultaneamente à revisão do conceito de produção científica: deslocar-se do ‘onde’ o artigo foi publicado para ‘o que’ foi publicado. Outra via a ser considerada seria a integração das revistas aos esforços de internacionalização da ciência no Brasil. Esta via, porém, traz mais um questionamento: o que significa internacionalização? Se perguntarmos diretamente às pesquisadoras e aos pesquisadores, poderemos ouvir duas respostas:

1) contar com a colaboração de pesquisadores de outros países e publicar exclusivamente em revistas editadas FORA do Brasil;

2) contando ou não com a colaboração de pesquisadores estrangeiros, publicar em revistas editadas NO Brasil que preencham os requisitos de veículos de disseminação científica em escala internacional.


Do ponto de vista dos editores, tornar-se internacional deve, obrigatoriamente, compreender os seguintes atributos: inglês como idioma, profissionalismo, editores em tempo integral, capacidade inovadora, competitividade, sustentabilidade, credibilidade, adesão às boas práticas de publicação, infraestrutura tecnológica apropriada, acesso aberto e transparência editorial.

Qualquer que seja a opção que melhor se alinhe à nossa cultura acadêmica e aos circuitos de regulação nacional, para abordar os desafios da editoração científica no Brasil, é preciso antes responder a algo muito mais fundamental: os pesquisadores e as agências de financiamento devem apoiar a editoração no Brasil de revistas científicas com alcance e influência internacionais? Em outras palavras, desejamos ter editadas no Brasil revistas cujos artigos transfiram prestígio acadêmico aos seus autores?

Respostas que cabem aos nossos pesquisadores e formuladores da estratégia nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação."


* Adeilton Brandão, Elisa Cupolillo e Claude Pirmez são editores da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

Acesse aqui a versão original do comentário, em inglês. O texto traduzido foi originalmente publicado no site do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

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