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Periódicos Fiocruz assinam editorial conjunto para debater mudanças na avaliação da produção científica

11/10/2019

O texto, que será publicado por todas as revistas científicas editadas na instituição, já está disponível nos Cadernos de Saúde Pública

Por Portal de Periódicos Fiocruz, com informações do Informe Ensp


As sete revistas científicas editadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) elaboraram, em conjunto, o editorial Contribuições ao debate sobre a avaliação da produção científica no Brasil. Disponível, primeiramente, na nova edição da revista Cadernos de Saúde Pública (vol. 35, n. 10, out/2019), o texto resulta de discussões realizadas pelo Fórum de Editores Científicos da Fiocruz. Desde o anúncio dos novos critérios para classificação das revistas científicas no Qualis Periódicos pela Capes, em julho de 2019, o Fórum tem fundamentado sua crítica à proposta de mudanças na avaliação da produção científica no país, apresentada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Qualis Único: "resultados desastrosos para periódicos consolidados em suas áreas de atuação"

Para os editores das revistas, a premissa da adoção de um único critério para avaliação de periódicos científicos da Capes é questionável, considerando as profundas diferenças entre as áreas acadêmicas na produção e divulgação do conhecimento. Segundo o editorial, no âmbito da revisão do processo de avaliação dos programas de pós-graduação no Brasil, a metodologia propõe uma única classificação de referência para os periódicos (“Qualis Único”) a partir do uso combinado dos indicadores bibliométricos CiteScore (Scopus), Fator de Impacto (Web of Science) e h5 (Google Scholar). No caso de revistas científicas não indexadas nas bases Scopus e Web of Science, foi feito um modelo de regressão para estabelecer a relação do índice h5 com o CiteScore. “A classificação se baseia no percentil em que o periódico está situado em cada base, segundo categoria temática. Esse percentil está dividido em oito grupos (a cada 12,5% do total), sendo possível alterar a classificação de até 30% dos periódicos”.

Isso gera resultados desastrosos a periódicos já consolidados em suas áreas de atuação. Além do mais, o processo careceu de maior transparência e participação da comunidade acadêmica envolvida. Cabe também situar o contexto no qual essa proposta é formulada. Conforme o editorial, a avaliação da pesquisa, certamente essencial, é permeada por interesses de diferentes atores: grandes grupos empresariais, pequenas editoras, grupos e centros de pesquisa, organizações reguladoras e financiadores. “Ressalta-se que o mercado da publicação científica está entre os mais lucrativos do mundo, por exemplo, a editora Elsevier teve margem de lucro de 36% em 2010, maior do que as empresas Apple, Google e Amazon. O pagamento de taxas de publicação e assinaturas de revistas científicas representa 45% das fontes de financiamento, cabendo, ao setor público, 31%".

Ainda segundo o documento, no Brasil, a Capes possui papel fundamental na avaliação dos periódicos — que, por sua vez, serve à avaliação dos programas de pós-graduação, repercutindo no financiamento e na disponibilidade de bolsas para discentes. “Essa função tem sido pautada pelo uso de indicadores bibliométricos, construídos para finalidades não relacionadas à avaliação da qualidade da produção científica”.

Editores expõem os prejuízos para a ciência brasileira

Para os editores, a incorporação desses indicadores favorece a priorização de temas de interesse da política científica de países do Hemisfério Norte (Estados Unidos e Reino Unido, principalmente) e o ajuste do conteúdo publicado por revistas científicas de países não hegemônicos, o que gera citações em bases bibliográficas internacionais. “A publicação em inglês, necessária para esse objetivo, afasta a ciência produzida no Brasil dos leitores não especializados. Também dificulta o importante papel dos periódicos na disponibilização de conhecimentos científicos atualizados para apoiar a formação nos diversos níveis da pós-graduação, inclusive nos mestrados profissionais, cujo impacto social, indispensável em determinadas áreas, não é passível de reconhecimento e avaliação por essas métricas”.

O editorial também considera que o modelo de avaliação impulsionado por esses indicadores se baseia em um fetichismo da excelência ancorado na narrativa de escassez, que não se sustenta frente aos recursos da publicação eletrônica como os preprints, que inflaciona os preços das revistas científicas ditas de alto impacto (tal como a Lancet Infectious Diseases, cuja publicação de um artigo custava US$ 5.000 em agosto de 2019. “Assim, estimula-se a competição predatória entre cientistas, entre programas de pós-graduação e entre periódicos”.

Alguns problemas imediatos na aplicação da proposta da Capes já foram identificados, como a definição da área-mãe — área da pós-graduação com maior número de artigos publicados na revista — que é fortemente influenciada, no caso de campos do conhecimento de natureza interdisciplinar, pela área com maior número de programas de pós-graduação e alunos. Outra questão: na área da saúde coletiva, 11 periódicos foram imediatamente realocados, e mais alguns estão em processo, indicando a fragilidade do critério “objetivo” adotado. Em outras áreas do conhecimento, marcadamente interdisciplinares, as revistas científicas têm sido classificadas em áreas-mãe impróprias, resultado de uma contabilidade automática, que não considera sua identidade e público-alvo.

Por fim, os editores que assinam o texto alertam que é possível antecipar consequências da proposta: drenagem de artigos para áreas com periódicos nas classes A1 e A2 (cujas taxas de publicação são razoáveis); diminuição da submissão de artigos oriundos de programas de pós-graduação bem avaliados, com mais recursos, para pagar publicação nas revistas científicas das grandes editoras internacionais; restrição do financiamento das revistas científicas, num processo de “mais para quem tem mais”. Estimula-se a competição em vez da solidariedade entre pares, bem como o esvaziamento de revistas científicas recentes.

Acesse já o editorial: Contribuições ao debate sobre a avaliação da produção científica no Brasil.

Saiba mais

Leia a carta aberta dos editores e assista à entrevista com Kenneth Camargo, coordenador do Fórum dos Editores de Saúde Coletiva da Abrasco.

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