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Os intoleráveis

12/06/2016

Atentado nos EUA, motivado por homofobia, provoca reflexão sobre as relações entre orientação sexual, violência e saúde. Confira a seleção de artigos do Portal

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Unsplash (Anthony Delanoix)

O atentado aconteceu numa boate gay em Orlando, nos Estados Unidos


O dia 12 de junho de 2016 ficará marcada por um dos ataques mais violentos da história dos Estados Unidos – entre tantos registrados naquele país. Desta vez, um homem abriu fogo na boate Pulse, em Orlando, matando 50 pessoas e deixando 53 feridas. A arma do crime: homofobia, a intolerância a uma orientação sexual diversa, um comportamento que tem sido cada vez mais observado na sociedade contemporânea. Por que homossexuais, lésbicas, bissexuais e transgênero ainda são vistos como "intoleráveis", e como esta discriminação afeta seu convívio social, suas relações e sua saúde? Para debater o tema, o Portal de Periódicos Fiocruz traz uma seleção de artigos, traçando um panorama da situação em vários países da América Latina. Confira:

Violência e sofrimento social no itinerário de travestis de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil (2015)

No ano de 2012, realizamos pesquisa etnográfica com travestis de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil, por meio de observação participante, entrevistas e acompanhamento de suas vidas cotidianas. Durante esse período, percebemos que as violências física e simbólica e o sofrimento delas decorrentes eram invariantes, condição com a qual tinham que lidar em seus itinerários, em suas práticas e afazeres diários. Este artigo discute as violências vivenciadas nas trajetórias percorridas pelas travestis (família, escola, delegacias, serviços de saúde), procurando, sobretudo, compreender como tais violências estão relacionadas às experiências nos serviços de saúde e como os serviços de saúde por elas acessados reagiram às violências.

Desigualdades em saúde mental associada com a orientação sexual em adolescentes mexicanos (2015)

O objetivo deste estudo foi avaliar disparidades em saúde mental relacionadas com a discriminação baseada na orientação sexual em adolescentes do México. Estudou-se uma amostra nacional e representativa dos alunos do ensino médio. Foram utilizados dois indicadores de orientação homossexual: ter um namorado do mesmo sexo e tendo relações sexuais com alguém do mesmo sexo. Os eventos foram: depressão, autoestima, ideação suicida, e tentativa de suicídio e consumo de cigarros, álcool e outras drogas. Adolescentes que tinham compromissos ou relações sexuais com pessoas do mesmo sexo tiveram risco aumentado de sintomas depressivos, ideação suicida, tentativa de suicídio e consumo problemático de álcool. Essas diferenças foram relacionadas com a experiência da violência na família e na escola. Apesar dos desenvolvimentos institucionais e legais para o reconhecimento dos direitos da população lésbica, bissexual e homossexual, persistem desigualdades na saúde relacionadas com a discriminação por orientação sexual.

Características sociodemográficas, bem-estar subjetivo e homofobia em uma mostra de homens gay em três cidades chilenas (2014)

Este artigo descreve e caracteriza sociodemograficamente uma amostra de homens gay em três cidades do Chile, abordando também seus níveis de homofobia e bem-estar subjetivo. Por meio de uma amostra em série do tipo bola de neve foram entrevistados 325 homens autoidentificados como gay. Entre os principais achados evidenciaram-se altos níveis de discriminação e vitimização percebida, em comparação com estudos similares realizados no país. Os entrevistados apresentaram níveis maiores de bem-estar social. A idade dos entrevistados aporta diferenças para os níveis de bem-estar social e não para as outras medidas. As pessoas com estudos superiores reportam também maiores níveis de vitimização e um maior impacto vital das situações de discriminação. Adicionalmente, embora as pessoas que residem em Santiago reportem um maior impacto de agressões, eles apresentam melhores níveis de bem-estar social e felicidade em comparação com pessoas que moram em outras regiões.

Acesso a cuidados relativos à saúde sexual entre mulheres que fazem sexo com mulheres em São Paulo, Brasil (2009)

O objetivo deste trabalho é investigar a relação entre adoção de cuidados à saúde entre mulheres que fazem sexo com mulheres e as representações relativas a gênero, sexualidade e ao corpo. O estudo utilizou observação etnográfica e entrevistas em profundidade, realizadas entre 2003 e 2006, com trinta mulheres entre 18 e 45 anos, de diferentes segmentos sociais, trajetórias e identidades sexuais, residentes na grande São Paulo, Brasil. A análise do material aponta maior dificuldade em acessar cuidados ginecológicos entre mulheres das camadas populares; que nunca tiveram sexo com homens ou que possuem uma gramática corporal masculinizada. Não só as representações e as experiências negativas em relação aos serviços de saúde, mas também as construções identitárias relativas a gênero e sexualidade estão relacionadas às dificuldades em acessar cuidados à saúde. Embora boa parte da bibliografia internacional a respeito enfatize a relação entre homofobia e menor acesso a serviços, os resultados sugerem que apesar de as situações envolvendo discriminação constituírem realidade, elas não foram consideradas impedimentos para a busca de cuidado, estando muito mais associadas ao relato das práticas e preferências eróticas nos serviços.

Identidade e riscos para a saúde mental de jovens gays no México: recriando a experiência homossexual (2008)

No México, os transtornos mentais estão mostrando uma tendência de aumento, sendo o comportamento suicida um dos problemas de saúde mental mais importantes na população jovem, tendo como uma das causas a orientação sexual como fator de risco, já que os homossexuais se mostram mais propensos ao suicídio que os heterossexuais. O comportamento suicida se associa a problemas de saúde anteriores, como depressão, ansiedade e baixa autoestima, que se relacionam com fatores de predisposição, como as experiências de formação da personalidade. Este artigo explora, com uma abordagem qualitativa, o risco que os homossexuais apresentam a problemas de saúde mental relacionados a comportamento suicida com base a experiência de homofobia em áreas primárias e secundárias de socialização. Com a análise do discurso é possível identificar a relação que os entrevistados atribuem à rejeição social de sua sexualidade e os principais sintomas de depressão (tristeza), ansiedade (medo) e comportamento suicida (ideação e tentativa).

Influência do contexto sociocultural na percepção de risco e a negociação de proteção em homens homossexuais pobres da Costa Peruana (2006)

Este artigo utiliza um enfoque de risco concebido não como uma ação individual, mas tomando sua dimensão social. Busca analisar as diferentes maneiras em que contexto sociocultural, relacionado à homofobia internalizada e às normas de gênero hegemônicas, permite a construção de barreiras na percepção de risco. Tais obstáculos impedem a negociação de proteção entre os homens homossexuais que assumiram uma identidade de gênero feminina e vivem em bairros pobres de Lima e Trujillo, Peru. A análise da percepção de risco em relação ao nível sociocultural vai permitir explicar as razões pelas quais a capacidade de negociação nesta população é limitada, no entanto, tem, mais do que outras, uma maior consciência sobre HIV/Aids e suas consequências.

Modos de conceitualizar e medir homossexualidade em pesquisas sobre sexualidade: uma revisão crítica

O artigo traz uma revisão das principais pesquisas nacionais sobre sexualidade que apresentam perguntas sobre homossexualidade, com foco nas questões conceituais e metodológicas sobre as definições de sexo, os aspectos de medição da homossexualidade, as técnicas de amostragem e de entrevistas e o formato do questionário. As taxas de declaração sobre atração pelo mesmo sexo, comportamento, parceiros e identidade também são apresentadas e comparadas. O estudo da homossexualidade em inquéritos populacionais foi moldado com base em tradições de investigação e questões provenientes desde a sexologia até a epidemiologia do HIV/Aids. O comportamento sexual é assunto central nas pesquisas sobre sexualidade desde Kinsey. Os temas sobre atração sexual, identidade e/ou orientação sexual surgem mais recentemente. São abordadas e discutidas as diferenças no tratamento de homens e mulheres na formulação e análise das pesquisas, assim como as taxas de respostas em diferentes pesquisas, em distintos países e momentos históricos. Ressaltamos a relevância de que sejam consideradas tanto mudanças metodológicas quanto sociais para interpretar as diferenças constatadas.

Efeitos da violência e da discriminação na saúde mental de bissexuais, lésbicas e homossexuais da Cidade do México (2005)

Os objetivos do estudo foram estimar a frequência dos danos à saúde mental (estado de saúde percebido, ideação suicida, tentativas de suicídio, transtornos mentais comuns e alcoolismo) em bissexuais, lésbicas e gays na Cidade do México e analisar a possível relação violência e discriminação na saúde mental desta população. Foi aplicado um questionário para 506 bissexuais, gays e lésbicas Cidade do México para investigar se eles tinham sofrido por causa de sua orientação sexual, discriminação e violência. As prevalências foram 39,0% ideação suicida, tentativa de suicídio de 15%, 27% transtornos mentais comuns e alcoolismo 18%. Nas mulheres lésbicas e bissexuais observou-se uma prevalência de alcoolismo sete vezes maior do que a observada em outras mulheres. A discriminação se relacionou a tentativa de suicídio e transtornos mentais comuns, enquanto a violência era um fator de risco para ideação suicida, tentativas de suicídio, transtornos mentais comuns e alcoolismo; por isso é necessário para implementar políticas e programas para reverter esta situação.

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