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O inimigo ao lado

04/06/2016

Diante de um crime que chocou o Brasil, o Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma série para debater e combater a cultura do estupro, trazendo conhecimentos que contribuam para enfrentar o problema

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Unsplash


No final de maio, vídeos e fotos do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos por mais de 30 homens, numa favela do Rio de Janeiro, circulavam pela internet. Não tardou para que a rede fosse usada para uma mobilização para denunciar o crime e a circulação das imagens, que chocaram o país e o mundo. Na mesma época, a situação se repetia no Piauí: pela segunda vez, o Estado registrava um estupro coletivo, no intervalo de um ano. A repercussão destes episódios ganhou não só as redes, mas as ruas, o noticiário e manifestações de repúdio de diversas instituições, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entre outras.

A cultura do estupro, a violação dos direitos da mulher, de crianças e adolescentes, a educação sexual, o papel dos profissionais de saúde e dos gestores de políticas públicas diante deste problema - que também aponta para determinantes sociais da saúde - são apenas algumas das vertentes de um cenário complexo e desafiador. Uma realidade que deve ser tão combatida quanto debatida. Apoiando iniciativas neste sentido, o Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma série com pequenas coletâneas de artigos separados por temas, além de alguns vídeos. Assim, contribui para trazer conhecimento da causa, visando uma efetiva intervenção nestas graves situações.

Confira a seguir os primeiros artigos, que tratam da violência doméstica e perpetrada por parceiros íntimos, sob o título "O inimigo ao lado: parceiros ou algozes?".


O INIMIGO AO LADO: PARCEIROS OU ALGOZES?
 

Violência doméstica e familiar contra a mulher: estudo de casos e controles com vítimas atendidas em serviços de urgência e emergência (2016)

O objetivo deste estudo foi identificar fatores associados ao atendimento por violência doméstica e familiar entre vítimas atendidas em serviços de urgência e emergência no Brasil. Realizou-se estudo de casos e controles baseado no Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), 2011. Foram selecionadas mulheres com 18 anos ou mais de idade, vítimas de violência doméstica e familiar (casos) em comparação com aquelas vítimas de acidentes (controles). As razões de chances ajustadas foram estimadas por regressão logística não condicional. Foram incluídos 623 casos e 10.120 controles. Na análise ajustada, foram fatores de risco: idade mais jovem (18-29 anos), baixa escolaridade, não exercer atividade remunerada, consumo de bebida alcoólica, procura de atendimento em outro serviço, ocorrência em final de semana e durante a noite ou madrugada. A violência doméstica e familiar teve o consumo de bebida alcoólica como fator fortemente associado. Os dias e horas de maior ocorrência evidenciam a necessidade de adequação dos serviços de atendimento às vítimas.


Prevalência de violência física por parceiro íntimo em homens e mulheres de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil: estudo de base populacional (2015)

Investigou-se a associação entre sexo e violência física entre parceiros íntimos. Encontrou-se prevalência de sofrer qualquer violência física (17%), violência física moderada (16,6%) e violência física grave (7,3%). Não houve diferença significativa para violência física moderada em homens e mulheres, porém, quanto mais grave o ato maior a ocorrência deste nas mulheres. Por meio de regressão logística testou-se a associação da violência com o sexo, ajustando-se às variáveis exploratórias. Mulheres de maior idade, viúvas/separadas, pobres, menos escolarizadas e pretas registram maior probabilidade de sofrer violência. Nos homens, a prevalência de violência física grave apresentou alteração significativa apenas para estado civil. Uso abusivo de álcool por mulheres representou maior chance de sofrer violência física.


Efeito da violência física entre parceiros íntimos no índice de massa corporal em mulheres adultas de uma população de baixa renda (2015)

O objetivo do artigo foi avaliar se a violência física entre parceiros íntimos interfere no estado nutricional de mulheres adultas com diferentes níveis de índice de massa corporal (IMC). Trata-se de um estudo transversal de base populacional com 625 mulheres selecionadas por uma amostragem complexa por conglomerados em múltiplos estágios. As informações sobre a violência física entre parceiros íntimos foram obtidas por meio do Revised Conflict Tatics Scales. O estado nutricional foi avaliado pelo IMC em kg/m2. Para avaliar o efeito independente da violência física entre parceiros íntimos em diferentes percentis da distribuição do IMC, utilizou-se o modelo de regressão quantílica multivariado. A violência física entre parceiros íntimos ocorreu em 27,6% (IC95%: 20,0; 35,2%) das mulheres e a média do IMC foi de 27,9kg/m2 (IC95%: 27,1; 28,7%). Os resultados indicam que a presença da violência física entre parceiros íntimos associou-se negativamente ao IMC em mulheres com valores entre os percentis 25 e 85 de sua distribuição, que correspondem aos valores 22,9 e 31,2kg/m2. Os resultados corroboram estudos anteriores que indicam que a violência física entre parceiros íntimos pode reduzir o IMC em mulheres de baixa renda.


A violência nas relações de conjugalidade: invisibilidade e banalização da violência sexual? (2005)

A partir de uma abordagem relacional-estrutural de gênero e sexualidade, este artigo apresenta resultados parciais de um estudo qualitativo com mulheres que denunciaram violência conjugal. Focaliza a ocorrência e os sentidos atribuídos ao fenômeno da coerção sexual marital, apontando para a possibilidade da violência sexual conjugal estar relacionada aos efeitos perversos de transformações na divisão sexual do trabalho e do aprofundamento da dupla jornada feminina quando relacionado ao desmonte da figura de homem provedor em situações de pobreza. Neste contexto, a recusa feminina ao sexo - contrapoder que expressa o desejo de ser sujeito sexual e comunica protestos contra as desilusões relacionadas aos parceiros - pode colaborar para a exacerbação dos atos violentos masculinos. Na posição parcial de "sujeitos do não", as mulheres revelam ainda uma situação de opressão quase nunca por elas diretamente nomeada como violência: no nojo e repulsa que manifestam contra o sexo cedido como débito conjugal, se assemelham aos sentimentos de vítimas de estupros por desconhecidos - estes sim, de modo geral, mais reconhecidos socialmente como "violência sexual".

 

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