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O homossexual esquadrinhado

Artigo investiga discurso, métodos e estratégias utilizados por diversos campos do saber para analisar e classificar sujeitos como homossexuais

28/06/2015
Por Blog HCS-Manguinhos | Foto: Pixabay

 

A homossexualidade foi retirada da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde na década de 1990 e não pode mais ser tratada como algo a ser curado ou tratado em qualquer esfera social. Contudo, alguns fatos históricos e contemporâneos mostram a homossexualidade e os corpos dos sujeitos homossexuais  sendo “descobertos”, investigados, tratados, classificados e produzidos por meio de discursos das várias ordens – biológica, psicológica, médica, religiosa, social.

O projeto de “cura gay” aprovado em 2013 pela Comissão de Direitos Humanos presidida pelo deputado e pastor Marco Feliciano é um exemplo de como até hoje a homossexualidade é nomeada como uma doença e os homossexuais apontados como portadores de alguma patologia ou disfunção.

O discurso biológico sobre a homossexualidade é o foco da pesquisa de Joanalira Corpes Magalhães e Paula Regina Costa Ribeiro, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Elas investigam os métodos e estratégias utilizadas por diversos campos de saber, como psicologia, medicina, neurociência e psiquiatria, para analisar os sujeitos e classificá-los como homossexuais e discutem como alguns mecanismos possibilitaram, pelo olhar, construir verdades sobre tais sujeitos.

De acordo com as autoras do artigo Para além de um corpo transparente: investigando métodos e estratégias de esquadrinhar o sujeito homossexual, publicado em HCS-Manguinhos (vol.22, n.2, jan./abr. 2015), através de técnicas de visualização médica dos corpos e exame indivíduos são transformados em peças de um dispositivo estratégico que permite a sua classificação e a produção de arquivos e dados. “A pesquisa nos possibilita fazer emergir algumas relações entre homossexualidade, produção de saberes científicos, preconceito, políticas e saúde”, explicam.

No artigo, as autoras discutem as formas de produção de ensinamentos, valores e representações sobre essa identidade sexual e os sujeitos homossexuais no interior de uma cultura, em um determinado tempo histórico. “Ora um crime, ora uma patologia ou um desvio na curva de normalidade da população, a homossexualidade é alvo de uma tecnologia política de poder normatizadora que está centrada na vida. Os saberes científicos construídos sobre a sexualidade dos sujeitos homossexuais passam a constituir o discurso biológico acerca da homossexualidade, como uma estratégia de controle da população”, afirmam.

“Esperamos que os resultados e as discussões tecidas nessa pesquisa apresentem dados à comunidade científica, acadêmica e aos movimentos homossexuais sobre as questões relacionadas aos saberes científicos, às políticas e construções sociais relativas à homossexualidade e ao preconceito contra esse sujeitos. A análise e as considerações dos dados obtidos possibilitam formular propostas que visem contribuir para uma sociedade não homofóbica e menos sexista”, sugerem.

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