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Mulheres em revista: uma homenagem do Portal de Periódicos Fiocruz

08/03/2017

Celebrando o Dia Internacional da Mulher (8/3), o Portal de Periódicos Fiocruz apresenta a série “Mulheres em revista”. A cada dia da semana, destacamos uma das nossas publicações e seus conteúdos sobre o universo feminino.

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)


Elas são a nossa razão de ser: as revistas científicas editadas pela Fiocruz retratam a produção científica do Brasil e de outros países, espelhando a diversidade da instituição e também da área de saúde pública. Celebrando o Dia Internacional da Mulher (8/3), o Portal de Periódicos Fiocruz traz, esta semana, a série “Mulheres em revista”. A cada dia, daremos visibilidade a uma das nossas sete publicações, destacando, ao mesmo tempo, conteúdos recentes sobre o universo feminino. Uma dupla e justa homenagem a “elas”.

Abrindo a série, apresentamos uma seleção especial de conteúdos variados publicados na revista Cadernos de Saúde Pública. Acesse, compartilhe, acompanhe!


MULHERES EM REVISTA: CADERNOS DE SAÚDE PÚBLICA

Abuso de drogas e transtornos alimentares entre mulheres: sintomas de um mal-estar de gênero? (2017)
O artigo discute o abuso de drogas e os transtornos alimentares sob as perspectivas críticas de gênero e do cuidado em saúde. Postula-se que o sofrimento subjetivo pode se expressar no corpo por meio das doenças psicossomáticas. Nessa perspectiva, a insaciável fome consumista das drogas ou de bens supérfluos, bem como o adoecimento pela fome voluntária em busca de um ideal de esbeltez, como na anorexia e bulimia, podem ser sintomas que denunciam o sofrimento feminino. Uma revisão nos campos da saúde coletiva e das teorias feministas destaca a magnitude dos fenômenos da medicalização e mercantilização da saúde presentes na psiquiatrização do mal-estar feminino. Na transição de gênero das sociedades capitalistas, as cobranças sociais pelo desempenho dos velhos e novos papéis femininos acentuam sentimentos de inadequação, traduzidos no mal-estar de gênero que circunda o abuso de drogas e os transtornos alimentares, analisados como patologias de protesto. Propõe-se o resgate do ideário do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, orientado pela integralidade, para enfrentar tais desafios.

Análise dos determinantes que influenciam o tempo para o início do tratamento de mulheres com câncer de mama no Brasil (2015)
Este estudo teve como objetivo analisar o intervalo de tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento do câncer de mama em mulheres e seus determinantes. Foi realizado um estudo de coorte retrospectiva com 137.593 mulheres diagnosticadas em 239 unidades hospitalares do Brasil entre 2000 a 2011. Em 63,1% dos casos, o intervalo entre o diagnóstico e o tratamento foi de até 60 dias. No país, as mulheres mais suscetíveis ao atraso foram não brancas (OR = 1,18; IC95%: 1,13-1,23), sem companheiro (OR = 1,05; IC95%: 1,01-1,09), com menos de oito anos de estudo (OR = 1,13; IC95%: 1,08-1,18), com doença em estadiamento inicial (OR = 1,27; IC95%: 1,22-1,32), tratadas de 2006 a 2011 (OR = 1,54; IC95%: 1,47-1,60) e provenientes do sistema público de saúde (OR = 1,19; IC95%: 1,13-1,25). Na análise estratificada foi observada a variabilidade dos fatores entre as regiões do Brasil. A identificação de fatores associados à demora no início do tratamento poderá possibilitar a elaboração de propostas de intervenções destinadas a grupos populacionais específicos.

Avaliação da cascata de cuidado na prevenção da transmissão vertical do HIV no Brasil (2016)
Este estudo teve por objetivo avaliar a cascata de cuidado da redução da transmissão vertical do HIV nos estados do Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, usando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Entre os anos de 2007 e 2012, cresceu a taxa de detecção de HIV na gestação em 5 estados, variando de 7,3% no Distrito Federal a 46,1% no Amazonas, com redução de 18,6% no Rio de Janeiro. Menos de 90% das mulheres usaram antirretroviral durante o pré-natal, incluídas as que já se sabiam portadoras do HIV. A realização de cesárea eletiva foi baixa. A taxa de detecção de AIDS em crianças menores de 5 anos como proxy da transmissão vertical do HIV apresentou uma redução de 6,3% entre 2007 e 2012, sendo a maior no Rio Grande do Sul (50%), que apresentou as maiores taxas do período, enquanto no Espírito Santo ocorreu o maior aumento (50%). A avaliação da cascata do cuidado do HIV na gestante apontou falhas em todos os pontos. É necessária uma conexão entre a atenção básica e os centros de referência para HIV/AIDS, ordenando o cuidado da família e o melhor desfecho para a criança.

Concepções sobre o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual: um estudo com representantes institucionais no Brasil e em Portugal (2016)
Este artigo investiga as concepções sobre o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual, na ótica de representantes de instituições governamentais e não governamentais que atuam na construção de políticas de enfrentamento, na prevenção e no acolhimento das vítimas, no Brasil e em Portugal. Foi efetuado um estudo exploratório de natureza qualitativa, com o objetivo de identificar os discursos institucionais referentes às concepções sobre o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual usando-se uma análise temática. Observou-se imprecisão conceitual nas concepções dos entrevistados sobre tráfico de mulheres para fins de exploração sexual, ignorando por vezes os direitos das trabalhadoras do sexo em migrar para trabalhar em outros países. Não há consenso entre as instituições sobre o perfil de vítima de tráfico, marcado por estereótipos; sua delimitação é influenciada pela legislação e pelo controle de fronteiras. Maior precisão conceitual minimizaria o papel de valores morais, nortearia políticas públicas mais adequadas e eficientes, bem como facilitaria a atuação dos técnicos no atendimento às vítimas.

Desigualdades sociais e satisfação das mulheres com o atendimento ao parto no Brasil: estudo nacional de base hospitalar (2014)
O objetivo foi identificar fatores associados à avaliação das mulheres quanto à relação profissionais de saúde/parturiente e como esses fatores influenciam a satisfação com o atendimento ao parto. Estudo de coorte de base hospitalar, realizado com base na pesquisa Nascer no Brasil. Foram incluídas 15.688 mulheres entrevistadas no pós-parto, por telefone, de março de 2011 a fevereiro de 2013. Todas as variáveis componentes da relação profissional/parturiente (tempo de espera, respeito, privacidade, clareza nas explicações, possibilidade de fazer perguntas e participação nas decisões) e escolaridade mantiveram-se associadas de forma independente à satisfação geral com o atendimento ao parto, no modelo ajustado. As mulheres atendidas na Região Sudeste e na Sul, no setor privado e com acompanhante avaliaram melhor a relação com os profissionais de saúde, o oposto ocorreu com as pardas e que tiveram trabalho de parto. As mulheres valorizam a forma como são atendidas pelos profissionais e existem desigualdades de cor, região geográfica e fonte de pagamento do parto nessas relações.

Documento faz diferença: o caso das trabalhadoras domésticas brasileiras em Massachusetts, Estados Unidos (2016)
Imigrantes brasileiros vivenciam diversos desafios nos âmbitos social, trabalhista e de saúde nos Estados Unidos. O objetivo deste estudo é analisar o perfil das trabalhadoras domésticas brasileiras em Massachusetts, Estados Unidos, valendo-se da descrição de suas condições de trabalho e percepções a respeito do seu estado de saúde. Trata-se de estudo transversal com 198 domésticas de Massachusetts, recrutadas por amostragem do tipo "bola-de-neve". O instrumento utilizado abordou características demográficas, condições de trabalho e percepção do estado de saúde dos participantes. Os dados foram analisados por meio do software SPSS 21.0. Dentre os entrevistados, 95,5% eram mulheres, 62,1% com idade entre 30-49 anos e 55,6% não legalizados. Foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre participantes legalizadas e não legalizadas em variáveis sociodemográficas, de condições de trabalho e de saúde. O status imigratório irregular parece afetar negativamente as condições de vida e saúde das trabalhadoras domésticas.

Estudo compreensivo sobre suicídio de mulheres idosas de sete cidades brasileiras (2013)
Parte-se de uma pesquisa multicêntrica realizada no Brasil, em que se analisam 51 casos de suicídio de idosos (de 40 homens e 11 mulheres) mediante autópsias psicossociais. Aprofunda-se o estudo dos 11 casos relativos às mulheres. A interpretação dos dados empíricos se fundamenta em autores clássicos e em recente literatura nacional e internacional sobre o fenômeno. Motivos que levam as mulheres ao suicídio são, em parte, diferentes dos homens. Como eles, as mulheres morrem preferencialmente por enforcamento e frequentemente seu suicídio associa-se a doenças degenerativas e comorbidades. As diferenças principais se devem a questões culturais de gênero. Os resultados convergem em grande parte com a literatura e revelam que, no Brasil, os fatores principais associados ao suicídio feminino são: violência de gênero e intrafamiliar, sofrimento por perdas de pessoas referenciais e da função tradicional como esposa e mãe, e depressão. Recomenda-se maior atenção ao efeito cumulativo de agravos no envelhecimento das mulheres, sobretudo os vinculados às especificidades de gênero.

Experiências de abortos provocados em clínicas privadas no Nordeste brasileiro (2016)
Baseado numa investigação qualitativa desenvolvida em 2012, o artigo analisa experiências de abortos provocados de pessoas de estratos sociais médios realizados em clínicas privadas. Foram narradas 34 histórias de gravidezes interrompidas em clínicas por 19 mulheres e cinco homens, residentes em duas capitais do Nordeste brasileiro. Uma análise temática revela que existem diferentes tipos de clínicas e de atendimento prestados pelos médicos. O artigo mostra que a realização de um aborto em uma clínica privada não é garantia de um atendimento humanizado e seguro. As narrativas fornecem descrições de diversas situações e práticas, desde aquelas com algumas falhas, como a falta de informações sobre os medicamentos, até outras com abusos graves, como procedimentos realizados sem anestesia. Assim, conclui-se que a ilegalidade da prática do aborto, no Brasil, permite que as clínicas funcionem sem qualquer tipo de regulação do Estado, não impedindo que as mulheres realizem abortos, mas as expondo a situações de total vulnerabilidade e de violação dos direitos humanos.

Garantindo uma resposta do setor de saúde com foco nos direitos das mulheres afetadas pelo vírus Zika (2016)
Em março de 2016, o Ministério da Saúde do Brasil publicou suas diretrizes mais recentes relacionadas ao Zika através do Protocolo de Atenção a Saúde e Resposta a Ocorrência de Microcefalia (o "Protocolo") 1. O Protocolo fornece recomendações para a prestação de cuidados nos contextos de planejamento reprodutivo por meio do acompanhamento pré-natal e do recém-nascido. Infelizmente, embora o Protocolo destaque a importância do acesso à informação e aos métodos contraceptivos, ele falha em atender de maneira adequada os desafios que as mulheres pobres, negras e pardas, jovens, que vivem nas areas mais afetadas pela epidemia, enfrentam para obter e usar métodos contraceptivos. Ele também ignora completamente o fato de que o aborto inseguro é uma realidade da saúde pública no Brasil e que esta provavelmente se agravará tendo em vista da epidemia de Zika. Conforme discutimos abaixo, para que o Brasil cumpra suas obrigações constitucionais e compromissos internacionais a fim de proteger os direitos e a saúde das mulheres, o Protocolo deve reconhecer as restrições legais e socioeconômicas que afetam a saúde das mulheres e orientar os profissionais quanto à melhor maneira de auxiliá-las em um contexto de escolhas difíceis.

Memórias coletivas de mulheres que vivenciaram o near miss materno: necessidades de saúde e direitos humanos (2016)
Mulheres que vivenciaram o near miss materno podem, por meio de suas memórias coletivas, ajudar na compreensão dos eventos obstétricos graves, como a morte materna. A experiência das pessoas é autêntica e representativa do todo com a construção de uma identidade comum. É a identidade que dá qualidade à memória de um grupo. Assim, cada memória é um fenômeno social. Analisou-se a experiência de 12 mulheres que quase morreram em função do estado gravídico-puerperal. O método da história oral temática foi utilizado, na perspectiva das necessidades de saúde e direitos humanos. Seis memórias coletivas compuseram os discursos: necessidades de saúde não atendidas; deficiências assistenciais; privação do contato com o filho; violação de direitos; ausência de reivindicação dos direitos; e compensações dos direitos e necessidades não atendidos. Compreender as necessidades de saúde dessas mulheres é reconhecê-las como sujeitos de direitos; é individualizar a assistência, respeitando sua autonomia, garantindo o acesso às tecnologias e estabelecendo vínculo (a)efetivo com o profissional de saúde.

Ser trabalhadora remunerada ou dona de casa associa-se à qualidade de vida relacionada à saúde? (2016)
Considerando que não há estudos brasileiros que avaliem a relação entre a inserção no mercado de trabalho e a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) de mulheres, objetivou-se com a presente pesquisa verificar se existe associação entre ter ou não trabalho remunerado e a QVRS das mulheres, e, se o estrato socioeconômico modifica esta associação. Trata-se de estudo transversal de base populacional com amostra de 668 mulheres de 18 a 64 anos do Inquérito de Saúde de Campinas (ISACamp 2008/2009), utilizando-se o SF-36 para avaliar a QVRS. Ser dona de casa esteve associado à pior QVRS, sobretudo nos aspectos mentais, mas esta associação é modificada pelo nível socioeconômico. Nos segmentos de intermediária e baixa escolaridade e renda familiar, as donas de casa apresentaram pior QVRS que as trabalhadoras remuneradas, mas não houve diferença entre os dois segmentos nos estratos de alta escolaridade e renda. A pior QVRS das donas de casa enfatiza a importância de políticas públicas que visem a ampliar as oportunidades de inserção da mulher no mercado de trabalho e de acesso à educação.

Modelo etiológico dos comportamentos de risco para os transtornos alimentares em adolescentes brasileiros do sexo feminino (2016)
O objetivo foi construir um modelo etiológico dos comportamentos de risco para os transtornos alimentares em adolescentes brasileiros do sexo feminino. Participaram 1.358 adolescentes de quatro cidades. Foram avaliados os comportamentos de risco para os transtornos alimentares, insatisfação corporal, pressões midiáticas, autoestima, estado de humor, sintomas depressivos e perfeccionismo por intermédio de escalas psicométricas. Peso, estatura e dobras cutâneas foram aferidos para calcular o índice de massa corporal (IMC) e o percentual de gordura (%G). O modelo de equação estrutural explanou 76% da variância dos comportamento de risco (F(9, 1.351) = 74,50; p = 0,001). Os achados indicaram que a insatisfação corporal mediou a relação entre as pressões midiáticas, autoestima, estado de humor, IMC, %G e os comportamentos de risco (F(9, 1.351) = 59,89; p = 0,001). Vale destacar que embora os sintomas depressivos não tenham se relacionado com a insatisfação corporal, o modelo indicou relação direta com os comportamentos de risco para os transtornos alimentares (F(2, 1.356) = 23,98; p = 0,001). Concluiu-se que somente o perfeccionismo não aderiu ao modelo etiológico dos comportamentos de risco para os transtornos alimentares em adolescentes brasileiras.

Cigarro "companheiro": o tabagismo feminino em uma abordagem crítica de gênero (2008)
O artigo apresenta os principais resultados de uma pesquisa que investigou, sob a ótica crítica e de gênero e da abordagem qualitativa, os significados simbólicos e concretos do fumar feminino. Foram realizadas 14 entrevistas semi-estruturadas com mulheres tabagistas em diversas etapas do processo de cessação. O lócus da pesquisa foi um programa de tratamento do tabagismo em um hospital público do Rio de Janeiro, Brasil. Os resultados evidenciaram o quanto o cigarro esteve imbricado em suas trajetórias sociais e de gênero, desempenhando importante papel de apoio no enfrentamento das inúmeras dificuldades de sobrevivência. Emergiu, como categoria empírica central, o "cigarro companheiro", sempre disponível para aplacar a ansiedade e a solidão, além de também ser fonte de prazer e relaxamento. O enfoque crítico de gênero evidenciou o quanto a sobrecarga de trabalho, reprodutivo e produtivo, potencializa o fumar feminino. Na assistência à saúde, para se conquistar a adesão das mulheres tabagistas ao difícil percurso da cessação, deve-se levar em conta os complexos entrelaçamentos entre as dimensões sociais e de gênero no estabelecimento da associação do cigarro a um "companheiro".

Resenha de Claudia Bonan, do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) sobre o livro Visões do Feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX E XX, de Ana Paula Vosne Martins (Ed. Fiocruz, 2004) (2005)
“Visões do Feminino: A Medicina da Mulher nos Séculos XIX e XX soma-se aos programas de pesquisa que se dedicam à questão de como o corpo, a sexualidade e a reprodução tornaram-se objetos privilegiados para forças sociais que emergiram com a modernidade, como pensadores sociais dos séculos XVIII e XIX, estrategistas do Estado nacional e representantes das ciências biomédicas. Seus pontos de partida são o estudo da formação de um discurso científico sobre a diferença sexual e da constituição da ginecologia e da obstetrícia como especialidades médicas na Europa e no Brasil, e busca compreender como a "ciência sexual" e a "medicina da mulher" foram forças centrais na construção e legitimação do imaginário moderno da diferença radical entre homens e mulheres, ou mais exatamente, da alteridade feminina radicada inexoravelmente em seu corpo.”

 

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