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Mulheres em revista: História, Ciências, Saúde - Manguinhos

09/03/2017

Pioneiras, cientistas, mães, trabalhadoras, donas ou reféns de seus corpos, loucas, singulares. Mulheres que fizeram história e suas lutas ao longo do tempo estão nas páginas de HCS-Manguinhos. Leia artigos selecionados para a série "Mulheres em revista".

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Arquivo/ONU
Bertha Lutz participa de discussões durante a
Conferência de San Francisco, em 26/6/1945
 

Maria Bandeira: uma botânica pioneira no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2016)
Busca-se trazer à luz a trajetória de Maria Bandeira, primeira botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que atuou na década de 1920, desconhecida na historiografia e pouco citada na literatura científica. O significativo número de espécimes de plantas, fungos e líquens por ela coletados, a expertise em alcançar locais de difícil acesso, a extensa correspondência com especialistas estrangeiros e sua ida para estudar na Sorbonne permitem analisar o “fazer botânica” e as redes de sociabilidades nas ciências à época. A interrupção da sua trajetória científica para ingresso na ordem das Carmelitas Descalças com clausura total possibilita interpretações diversas e explica, em parte, a causa do esquecimento de sua passagem pela botânica brasileira.

Entre saúde e aprimoramento: a engenharia do corpo por meio de cirurgias plásticas e terapias hormonais no Brasil (2016)
Este estudo explora as margens da medicina, em que práticas de saúde e aprimoramento se confundem. Ele é baseado no trabalho de campo desenvolvido no contexto de dois projetos de pesquisa distintos no Brasil sobre cirurgia plástica e terapias de hormônio sexual. Há uma significativa sobreposição clínica dessas duas terapias. Ambas estão disponíveis nos sistemas de saúde público e privado de tal forma que revelam a dinâmica de classes subjacente à medicina brasileira. Essas terapias também têm uma dimensão experimental enraizada no contexto normativo do Brasil e nas expectativas da sociedade em relação à medicina como forma de controlar a saúde reprodutiva e sexual da mulher. O uso medicinal experimental desses tratamentos está associado a um uso experimental “social”: as mulheres os adotam em resposta a pressões, ansiedades e aspirações no âmbito profissional e na vida pessoal. Argumenta-se aqui que essas técnicas experimentais estão se tornando moralmente autorizadas como um controle rotineiro da saúde da mulher, integradas aos tratamentos predominantes de obstetrícia e ginecologia, e sutilmente confundidas com práticas de cuidados pessoais que são vistas no Brasil como essenciais para atingir uma forma de feminilidade moderna.

“Eu não sou presa de juízo, não”: Zefinha, a louca perigosa mais antiga do Brasil (2016)
Abandonada há 38 anos no manicômio judiciário de Alagoas, Josefa da Silva é a mulher mais antiga sobrevivente do regime penal-psiquiátrico no Brasil. Dossiê, processo judicial, entrevistas e fotografias compõem o corpus de análise deste ensaio. O laudo psiquiátrico é a peça-chave para o dobramento médico-penal na loucura criminosa. Doze laudos psiquiátricos ilustram as três metamorfoses do arquivo judiciário: anormalidade, perigo e abandono. A autoridade psiquiátrica sobre a clausura movimentou-se da disciplina para a segurança, e da segurança disciplinar para a asilar-assistencial. No arranjo entre os poderes penal e psiquiátrico, o juiz reconhece a autoridade médica para a verdade da loucura. É a medicina das razões sobre a clausura de Zefinha que se altera nas décadas de produção do arquivo.

The biomedicalisation of illegal abortion: the double life of misoprostol in Brazil (2016)
O artigo examina a vida dupla do misoprostol no Brasil, onde ele é usado ilegalmente por mulheres como um facilitador do aborto, e legalmente, em alas de obstetrícia de hospitais. Utilizei minhas pesquisas antropológicas de doutorado e pós-doutorado sobre contracepção e aborto em Salvador, Bahia. Começo retratando a “conversão” do misoprostol, medicamento usado para tratar úlceras, em um facilitador do aborto autoadministrado na América Latina, e sua conversão em uma ferramenta de obstetrícia global. Apesar da redução da mortalidade materna, seu uso como um método abortivo ilegal reforçou a dupla cidadania reprodutiva em países com restrições abortivas e pouca assistência pós-aborto, onde mulheres pobres que usam o método ilegal são estigmatizadas, discriminadas e expostas a potenciais riscos à saúde.

Imprensa, gênero e cultura científica na década de 1960: entrevista com Eulina Cavalcante, do jornal News Seller (2015)
Entrevista realizada com a jornalista Eulina Cavalcante de Almeida, editora dos suplementos femininos do jornal News Seller (ABC Paulista) na década de 1960. Eulina foi responsável por introduzir questões femininas e científicas para as mulheres leitoras do jornal; tinha na ciência uma das bases para sua escrita e trazia informações científicas, principalmente na área da saúde, para as leitoras. Na década de 1960 houve um aumento no Brasil do letramento científico da população, e a atuação de Eulina ia ao encontro desse movimento. O suplemento feminino do News Seller foi de grande importância para a divulgação científica no ABC Paulista.

O arquivo fotográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o olhar de Tibor Jablonszky sobre o trabalho feminino (2013)
No intuito de dar visibilidade ao arquivo fotográfico das excursões geográficas promovidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para reconhecimento do território nacional, o artigo mostra suas condições de formação e seu uso como fonte histórica. Aborda a apresentação das imagens e o inventário de temas e lugares na produção de Tibor Jablonszky no que se refere às representações construídas sobre trabalho feminino no Brasil nas décadas de 1950 e 1960, segundo o ponto de vista do fotógrafo a serviço de uma instituição de governo.

Uma mulher negra, suas células e alguns desafios da ética em pesquisa (2013)
O século XX foi cenário de abusos cometidos no campo da pesquisa científica mundial. A utilização de cobaias humanas foi uma prática comum tanto entre pesquisadores presentes nos campos de concentração do regime nazista como entre pesquisadores de países que não estavam em guerra, como é o caso dos EUA. Os participantes dos controversos estudos, em geral, compartilhavam algum tipo de vulnerabilidade em razão de suas características físicas ou sociais. 1 A ciência avançou à custa desses participantes explorados em pesquisas sem compromissos com direitos humanos. Muitas das pessoas exploradas no passado ou seus familiares jamais foram recompensados ou ressarcidos pelos abusos sofridos. Uma dessas pessoas foi uma mulher negra chamada Henrietta Lacks, a proprietária das mundialmente conhecidas células HeLa. O livro A vida imortal de Henrietta Lacks conta a história de Henrietta e de como suas células contribuíram para estudos biomédicos, criação de tecnologias, surgimento de vacinas e medicamentos. A obra provoca uma interessante reflexão sobre o tema da ética em pesquisa e da proteção aos direitos das participantes de estudos científicos.

A promoção das mulheres no espaço social como efeito da normalização da maternidade e da infância (2011)
Ao contrário do que tantas vezes acontece, a obra Mulheres, mães e médicos: discurso maternalista no Brasil, de Maria Martha de Luna Freire, cumpre mais do que promete. Sua investigação, abrangente e rigorosa, proporciona contribuições importantes à história da puericultura, da infância e da família no Brasil, assim como aos estudos de gênero. Talvez a principal contribuição seja mostrar que a normalização da maternidade, por meio da difusão dos princípios da higiene infantil, não resultou apenas em maior submissão das mulheres ao poder masculino mas, ao contrário, teve como um de seus efeitos mais importantes o de alargar os horizontes da atuação feminina no espaço social. A pesquisa da autora revela que as mulheres das primeiras décadas do século XX não foram simplesmente coagidas a renunciar aos seus próprios saberes tradicionais para obedecer às orientações ditadas pelos médicos.

Gênero e assistência: considerações histórico-conceituais sobre práticas e políticas assistenciais (2011)
Propõe uma reflexão teórica e histórica a partir da conjunção do conceito de gênero e da noção de assistência. Analisa as dimensões políticas dos dois conceitos, problematizando a dicotomia entre político e pré-político, com suas marcas distintivas de gênero, de grande influência na teoria política e no pensamento moderno. Examina as práticas do cuidar pelo Estado moderno, bem como as transformações da assistência no interior das organizações caritativas e benemerentes que se constituem paralelamente e em consonância com as ações do Estado.

Mulheres e trajetórias na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp: vozes singulares e imagens coletivas (2010)
Apresenta resgate histórico e social da trajetória das professoras da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e suas escolhas pessoais e profissionais, articuladas às suas estratégias sociais. Abordam-se o papel e a posição dessas mulheres no campo acadêmico, como se conformaram seus habiti e como eles se relacionaram com a questão de gênero. A metodologia, qualitativa, baseia-se nos estudos de gênero e da sociologia da ciência e da saúde, com o uso de entrevistas focadas de Merton e da análise de conteúdo de Bardin. As professoras apontaram as representações sociais sobre família, casamento e filhos, a divisão social do tempo do trabalho e a estrutura patriarcal da ciência como elementos de gênero que influenciaram suas trajetórias.

Direitos femininos no brasil: um enfoque na saúde materna (2009)
Aborda a trajetória dos direitos femininos em saúde no Brasil, do período pós-guerra até os dias atuais com foco na saúde materna, por meio de levantamento histórico das iniciativas mais amplas do poder público no âmbito da saúde da mulher e da implantação de ações voltadas para assistência à gravidez, ao parto e puerpério, de estímulo à amamentação, e de medidas dirigidas às mulheres durante o período reprodutivo.

O império dos hormônios e a construção da diferença entre os sexos (2008)
A partir do debate teórico sobre gênero e ciência, discute os processos de redefinição das diferenças de gênero e sexo por meio de marcadores tidos como biológicos ou naturais. Identifica um percurso de naturalização das diferenças através de uma lógica de 'substancialização' ou 'materialização', a exemplo da percepção da medicina sobre a mulher, que promove modelos explicativos da economia corporal feminina centrados ora em órgãos como útero e ovários, ora na mecânica dos hormônios e, mais recentemente, também nas distinções genéticas e neurológicas. Aborda a trajetória da descoberta dos chamados hormônios sexuais e sua relação com a perspectiva dualista, no que se refere ao gênero. Demonstra como esses poderosos mensageiros químicos ajudaram a configurar a passagem entre uma lógica do excesso que envolvia o sexo até o final do século XIX, para o imperativo da falta, predominante desde meados do século XX.

Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro (2008)
Bertha Lutz foi uma das mulheres de sua geração que desfrutaram de incontestável autoridade política e científica. Escreveu muito, e mais ainda se escreveu sobre ela, especialmente em sua época. Notícias de jornais, crônicas de Lima Barreto, inúmeras cartas, artigos científicos e textos inéditos da própria Bertha, comentados neste artigo, nos permitem observar que seu feminismo emprestou-lhe notoriedade e visibilidade - cuidadosamente construídas -, que se articulariam com seu desempenho profissional, impulsionando-o. A ciência lhe conferia prestígio social e garantia legitimidade para suas causas. Nesse período em que a comunidade científica tomou para si a tarefa de tornar públicas as suas conquistas, a proeminência feminista de Bertha na mídia emprestou-lhe reputação em ciências.

"Brincos de ouro, saias de chita": mulher e civilização na Amazônia segundo Elizabeth Agassiz em viagem ao Brasil (1865-1866) (2005)
O artigo empreende uma análise sobre a imagem da mulher amazônica na representação que dela faz Elizabeth Agassiz em Viagem ao Brasil: 1865-1866, obra editada na Europa em 1867, com base no diário da expedição científica Thayer, dirigida pelo naturalista Louis Agassiz. O foco da análise são os registros da passagem pela Amazônia relatados entre os capítulos IV e XI da obra. Foram selecionados para análise alguns pontos fundamentais do confronto entre a lógica ocidental da cronista e o modo de vida da população local, tais como o choque entre as concepções de autonomia feminina, estética, temporalidades e, finalmente, as concepções deterministas dos Agassiz sobre a negatividade do cruzamento de raças e sobre a realidade amazônica, pautadas no poligenismo de fundo criacionista. O artigo também apresenta as perspectivas daquele período em relação ao papel da Amazônia no projeto de nação brasileira.

 

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