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A mulher bioquímica: invenções do feminino a partir de discursos sobre a pílula anticoncepcional

05/03/2018

Estudo publicado na Reciis trata do uso desse método contraceptivo, considerado motor de emancipação da mulher, por alguns, mas perda da liberdade do corpo, por outros

Por Flávia Lobato* (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Freepik


Em 2018, na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8/3), o Portal de Periódicos Fiocruz destaca uma série de artigos atuais sobre mulheres e saúde, publicados nas revistas científicas que a Fundação edita. O primeiro trata da pílula anticoncepcional: aliada da saúde da mulher ou vilã mascarada? O uso da pílula anticoncepcional feminina como método contraceptivo traz à tona discussões importantes no campo da saúde pública, incluindo os direitos da mulher (como liberdade ao corpo) e seu protagonismo político (ativismo e feminismo). Esse debate é objeto do artigo A mulher bioquímica: invenções do feminino a partir de discursos sobre a pílula anticoncepcional, publicado em 2017 na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde.

O artigo resulta do estudo das pesquisadoras Tatiane Leal e Bruna Bakker, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ). Segundo elas, como a pílula anticoncepcional é o contraceptivo reversível mais utilizado no Brasil, a mídia é motivada a produzir discursos sobre a mulher e o universo feminino associados à medicação. A metodologia utilizada pelas autoras foi a análise do discurso de reportagens da revista Veja e de postagens em grupos de contracepção não hormonal na rede social Facebook. "Se sua invenção (da pílula) facultou a dissociação entre a prática sexual e a maternidade, atualmente o medicamento é considerado nocivo em alguns contextos. A partir da perspectiva teórica da genealogia, o estudo analisa quais são as invenções possíveis do feminino a partir dos discursos sobre a pílula hoje (...). Os resultados mostram que, nas matérias, o medicamento aparece como motor de emancipação da mulher; enquanto nos grupos novos ativismos levantam a bandeira do corpo sem pílula como ação política pela conquista da liberdade".

A mulher bioquímica

Mas afinal, quem é a mulher bioquímica que dá título ao artigo? Leal e Bakker destacam em seu trabalho que os hormônios ainda são um elemento importante na construção discursiva sobre a mulher. As autoras lembram que há um longo histórico de medicalização do corpo feminino, e ressaltam "o quanto esse corpo feminino, percebido em seus fluxos de estrogênio, oxitocina, cortisol, adrenalina etc., torna-se um terreno de disputa para se pensar a liberdade feminina sob distintas perspectivas. Por um lado, a potencial liberdade em questão é a de uso desse corpo que, facultada pela intervenção química de fármacos como a pílula, libera a mulher do ônus da gravidez indesejada e permite que ela seja dona do próprio corpo. De outro, uma perspectiva mais contemporânea, que vê como risco essas mesmas intervenções químicas, requisitando para si mesma um corpo livre de substâncias que não lhe pertencem, livre no sentido de poder seguir um curso biologicamente natural".

Ativismo e politização

Já na última parte do artigo, chamada de O ativismo antipílula e a politização do corpo, as pesquisadoras mostram que muitas mulheres têm utilizado as redes sociais como uma plataforma para dar voz ao discurso antipílula. Neste sentido, apontam para uma reorientação do debate contemporâneo. Uma das dimensões de mudança diz respeito às fontes de saber: "Assim, campos que antes detinham o privilégio de falar sobre o corpo e regulamentá-lo, como a medicina, perdem espaço para esse novo regime de saber baseado na experiência individual autêntica e no relato de si". Outra, já indicando as considerações finais do estudo, reside na própria concepção sobre a pílula e numa quebra de paradigma em relação ao seu 'efeito libertador': "(...) no campo de batalha entre os poderes e as resistências em torno dos discursos sobre a pílula, podemos contemplar uma nova invenção do feminino: a mulher que recusa a bioquímica, ou a mulher natural".

Um debate muito estimulante, provocado por mulheres da ciência, que vale a sua leitura! Acesse aqui o artigo completo.

* Colaborou Valentina Leite

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