Brasil
Acesso à Informação

Memórias do Instituto Oswaldo Cruz: a trajetória e os desafios da revista que chega aos 110 anos

26/04/2019

Adeilton Brandão, que assume como editor-chefe do periódico mais antigo da Fiocruz, aborda cenário atual e futuro da publicação científica


São 110 anos em 2019... E sempre buscando estar à frente! Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, a mais antiga revista científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), celebra esta longa e reconhecida trajetória este ano, de olho nos avanços da ciência — em especial nos desafios e perspectivas para as publicações científicas. Além de ser tema do vídeo em destaque, o aniversário é abordado no editorial da revista, assinado por Adeilton Brandão, que assume como editor-chefe do periódico. Ele trata das origens do periódico, de sua missão ao longo dos anos, e de como continuar servindo à comunidade de pesquisa e à sociedade, num tempo em que a disseminação de informações acontece rapidamente e em escala global.

No editorial, Adeilton lembra a história desta 'senhora revista': "(...) oficialmente criada pelo decreto federal 1.802, de 12 de dezembro de 1907, Memórias começou efetivamente sua vida como publicação científica apenas dois anos depois. Esse início não poderia ter sido melhor: na segunda edição da revista (agosto de 1909), o Dr. Carlos Chagas relatou a descoberta de uma nova tripanossomíase humana, incluindo tanto seu agente infeccioso, o protozoário Trypanosoma cruzi".

Reverenciando a tradição e fazendo novas perguntas

O editor-chefe destaca a fase de transição por que passa a editoria científica. "A submissão, avaliação e publicação de artigos científicos ainda utilizam, a grosso modo, a mesma estrutura do século 20. No entanto, no século 21 a divulgação de informação acontece de uma nova forma. Nosso grande desafio é preparar a operação e as políticas editoriais das Memórias para uma completa imersão neste universo de fluxo contínuo e em tempo real da informação científica".

Ele cita medidas que foram adotadas e, hoje, fazem parte do modelo de publicação das Memórias: não há mais versão impressa, apenas online; a publicação dos artigos é em fluxo contínuo (isto é, assim que aprovado, o artigo é imediatamente publicado); a revista utiliza o sistema de publicação em Fast Track e a submissão de pré-prints. Adeilton também aponta para mudanças importantes, que devem ser introduzidas. "Ainda é necessário abrirmos completamente o processo de
revisão por pares (no momento, somente editor e revisores conhecem o teor das revisões), e a forma como recebemos e avaliamos os artigos submetidos".

De olho no futuro, Adeilton segue fazendo o que bons cientistas não se cansam de fazer: perguntas. "Uma pergunta importante cuja resposta não temos clareza é o papel do editor na aceitação ou não de artigos submetidos: se os repositórios pré-publicação (pre-print) já disponibilizam o conteúdo dos artigos antes do crivo do editor, que diferença faz se um editor diz sim ou não para este artigo em pre-print? Responder a esta questão significa definir a relevância das revistas científicas nos próximos anos".

110 anos depois: abertura de dados, integridade, reprodutibilidade e outros desafios contemporâneos para autores e revistas científicas

Em março deste ano, durante a Semana de Abertura do Ano Acadêmico do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Adeilton ministrou a palestra Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 110 anos depois: abertura de dados, integridade, reprodutibilidade e outros desafios contemporâneos para autores e revistas científicas. O encontro, integrado ao Centro de Estudos do IOC/Fiocruz, foi moderado pelo diretor do Programa SciELO/Fapesp, Abel Packer.

Durante a sessão especial do Centro de Estudos, ele comentou alguns momentos da trajetória do periódico ao longo dos 110 anos. “Nesse mais de um século passamos por contínuas transformações políticas que nos fizeram deixar de ser uma publicação meramente institucional para alçar voos internacionais”, disse, chamando a atenção para a década de 1980, período pós ditadura militar, em que a revista começou a dar os primeiros passos rumo à globalização. “Não teria como falar da trajetória das Memórias sem citar o professor José Rodrigues Coura, que se dedicou a revitalizar o periódico e o consolidou como uma referência na área da parasitologia”, destacou, pontuando também alguns feitos importantes dos editores que assumiram a revista após Coura. “O pesquisador Ricardo Lourenço [chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários] modernizou o periódico e teve o cuidado de combater o plágio na publicação de artigos. Já na gestão da pesquisadora Claude Pirmez [atualmente aposentada] podemos citar o enfoque na questão do acesso aberto”, citou, em tom de agradecimento.

Sobre a disponibilidade imediata de conteúdo, o compartilhamento aberto de dados e a revisão aberta por pares, o editor salientou que tais aspectos aceleram o avanço do conhecimento, facilitam a reprodução dos trabalhos científicos, melhoram a qualidade da publicação científica e ampliam o conceito de ciência aberta. “Ainda paira a questão da posse sobre o conhecimento e os dados. O desafio nesse cenário é, justamente, alterar o conceito de detenção individual das informações para uso responsável de um bem público. Mas, para isso, precisaremos mudar a cultura científica nacional”, comentou, sobretudo a respeito dos dados publicados em plataformas pré-print, uma tendência que vem ganhando cada vez mais espaço na editoração científica.

Instituição: 
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Autoria: 
Texto: Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz) e Kadu Cayres (IOC/Fiocruz)
Vídeo: Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)

Este portal é regido pela Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, que busca garantir à sociedade o acesso gratuito, público e aberto ao conteúdo integral de toda obra intelectual produzida pela Fiocruz.