Brasil
Acesso à Informação

Laboratórios da Fiocruz inscritos em projeto sobre reprodutibilidade científica

21/01/2019
Instituto Serrapilheira vai financiar a iniciativa, que visa garantir a qualidade da pesquisa científica
Por Clarice Cudischevitch (Serrapilheira)

 

A pesquisa biomédica é reprodutível? Por exemplo: um experimento utilizado em um estudo pode ser replicado por outros laboratórios? A pergunta orienta a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, um projeto inédito, que inicia as atividades este ano, com financiamento de R$ 1 milhão do Instituto Serrapilheira. Dentre os 71 laboratórios inscritos para participar do projeto, seis são da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fazendo com que a instituição figure entre aquelas com maior número de candidatos. 

A área que estuda a qualidade e a confiabilidade da pesquisa científica ainda tem lacunas no mundo todo. Formando uma rede nacional que vai replicar experimentos publicados em artigos na área biomédica, a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade busca suprir essa demanda no país.

O projeto, coordenado pelo médico e neurocientista da UFRJ Olavo Amaral, foi lançado em 2018 e recebeu inscrições de 71 laboratórios de 18 estados: dentre eles, 6 são da Fiocruz, 6 da USP e 12 da UFRJ. No ano passado, a Iniciativa já contou com um apoio de R$ 145.200 do Serrapilheira para seu planejamento. E agora, com o aporte de R$ 1 milhão, vai ser possível replicar de 50 a 100 experimentos, de modo que cada um deles será reproduzido por pelo menos três laboratórios distintos. Se o resultado original for verificado nas replicações, considera-se que ele é reprodutível. O investimento foi destaque no jornal Follha de S. Paulo.

A equipe de Amaral, que conta com os pesquisadores Kleber Neves, Clarissa Carneiro e Ana Paula Sampaio, está definindo quais laboratórios vão participar. Para replicar os experimentos, eles utilizarão quatro técnicas comuns na pesquisa biomédica, como a Western blot, que detecta e mede a quantidade de determinada proteína em uma amostra com o auxílio de anticorpos, e o labirinto em cruz elevado, teste comportamental em roedores. A ideia é aproveitar a estrutura dos laboratórios sem atrapalhar sua rotina de pesquisa. A expectativa é que o projeto chegue aos primeiros resultados no segundo semestre de 2019.

Ciência que investiga a Ciência

A Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade se enquadra em uma área conhecida como metaciência, pois seu objeto de estudo é a própria atividade científica.

Para Amaral, tornar a ciência mais confiável deveria ser prioridade dos pesquisadores. Ele afirma que não conseguir reproduzir um experimento pode ter significados diversos. “Muita gente pensa em fraude, mas é mais provável que haja vieses ao realizar ou analisar os experimentos, erros metodológicos ou falhas na descrição do procedimento”. Amaral também comenta sobre outras possibilidades: “Pode ser também que aquele ensaio só funcione em condições muito específicas ao laboratório de origem. E muita coisa não será replicável por conta do acaso – com os baixos níveis de rigor normalmente usados para dizer que um resultado é positivo na pesquisa biomédica, muita coisa publicada acaba sendo só ruído”.