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Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois

10/03/2016

Em editorial, CSP critica processos de avaliação que priorizam a publicação de grandes volumes de artigos em revistas de elevado fator de impacto

Por Informe Ensp

 

A revista Cadernos de Saúde Pública (vol. 32, n. 1, jan/2016) debate inovação, qualidade e quantidade na avaliação da produção científica de pesquisadores, grupos de pesquisa e programas de pós-graduação. Para as editoras da publicação, Cláudia Medina Coeli, Marilia Sá Carvalho e Luciana Dias de Lima, alcançar excelência simultaneamente nas três dimensões é impraticável. “Uma produção científica inovadora e de qualidade não será volumosa, uma vez que novas ideias demandam tempo para ser adequadamente testadas. Por outro lado, é possível manter uma produção volumosa e de qualidade por meio da aplicação repetida de protocolos padronizados, mas que não será inovadora, já que protocolos rígidos são adequados apenas a poucos tipos de perguntas de investigação”. Elas acrescentam que testar muitas hipóteses inovadoras em curto espaço de tempo inviabiliza a execução de pesquisas com o rigor metodológico necessário, e - em casos extremos - estimula a adoção de práticas indesejadas, como a fraude e a fabricação de dados.
 

Pesquisadores têm sido induzido a escolher alto volume-alta inovação-baixa qualidade e
alto volume-alta qualidade-baixa inovação


 
O editorial "Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois" critica os processos de avaliação que priorizam a publicação de grandes volumes de artigos em revistas de elevado fator de impacto, que têm induzido pesquisadores a escolher os trinômios alto volume-alta inovação-baixa qualidade, e alto volume-alta qualidade-baixa inovação. Segundo as editoras, a insatisfação com o sistema atual de avaliação da produção científica e suas consequências indesejadas têm sido explicitadas por meio de uma série de manifestos, como The San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA), The Leiden Manifesto for Research Metrics e The Lancet REWARD (Reduce research Waste And Reward Diligence. “Em todas as iniciativas apontadas, uma série de ações são propostas visando modificar a forma como a avaliação da produção científica deve ser conduzida. Na área de Saúde Coletiva no Brasil, o debate sobre a necessidade de se adotar novos modelos de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação vem ganhando destaque no contexto recente”.
 
O editorial informa que, numa série de artigos publicados no Lancet ligados à REWARD, estimou-se que 85% dos recursos aplicados em pesquisa podem ser considerados desperdício, em função de estudos mal desenvolvidos, desde a etapa de desenho até a análise dos dados. Outras preocupações apontadas são as revisões sistemáticas, que deveriam sintetizar as evidências, mas com frequência não cumprem esse papel adequadamente porque fazem a síntese de pesquisas de baixa qualidade, além da qualidade do texto submetido à publicação.
 

Estima-se que 85% dos recursos aplicados em pesquisa sejam desperdiçados, 
devido a estudos mal desenvolvidos, da etapa de desenho à análise dos dados


Em 2015, CSP alcançou a marca de mais de 2 mil artigos submetidos. Entretanto, dizem as editoras, preocupa o fato de recusar, sem encaminhar para revisão por pares, cerca de 70% dos artigos submetidos. “Baixa relevância, pouca originalidade e inadequação metodológica constituem os principais motivos dessa recusa inicial. Em parte dos casos, recursos aplicados com o financiamento de pesquisa podem estar sendo desperdiçados. Os custos envolvidos na publicação representam apenas uma fração dos recursos destinados ao financiamento de pesquisas.” A revista Cadernos de Saúde Pública preserva a gratuidade da publicação para autores, mas todo artigo processado, seja ele aceito ou recusado, tem um custo e um gasto público associados.

 

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