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Inimigo oculto: o risco dos efluentes hospitalares na proliferação de bactérias resistentes

20/07/2018

Artigo publicado na revista Visa em Debate mostra como resíduos descartados pelas unidades de saúde podem aumentar a resistência microbiana

Por Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Wikimedia Commons


Devido ao uso indiscriminado de fármacos em humanos e animais, a resistência bacteriana a antibióticos já é um grave problema da saúde pública em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 22 países, 500 mil pessoas com suspeita de infecção têm bactérias resistentes no organismo. Mas há "agentes secretos" nessa história: entre os grandes disseminadores de infecções bacterianas em humanos estão os efluentes hospitalares. É disso que trata uma pesquisa publicada, em maio, na revista Vigilância Sanitária em Debate: Sociedade, Ciência e Tecnologia (Visa em Debate).

A química Maysa Beatriz Mandetta Clementino, uma das autoras do estudo, explica que os efluentes hospitalares são líquidos provenientes de unidades de saúde: substâncias como antimicrobianos, desinfetantes, anestésicos e drogas não metabolizadas pelos pacientes. Ela lembra que os resíduos descartados pelos hospitais devem receber tratamento adequado antes de chegarem às estações de esgotos das cidades. "Os efluentes representam riscos à saúde devido à presença de microrganismos patogênicos em sua composição”. Quando lançados em ambientes aquáticos sem o cuidado adequado, além de disseminar a resistência de micróbios, têm efeitos tóxicos que podem prejudicar intensamente a saúde ambiental e a humana, podendo até mesmo se tornar agentes cancerígenos.

No artigo da Visa em Debate, os pesquisadores avaliam a resistência (ou “resistoma”) de uma bactéria específica, a Pseudomonas aeruginosa. Por ser um patógeno oportunista, a bactéria explora eventuais fraquezas do organismo para estabelecer um quadro de infecção, sendo muito comum encontrá-la no ambiente hospitalar. Os experimentos com as cepas foram feitos na estação de tratamento de esgoto hospitalar (ETEH) de um complexo na cidade do Rio de Janeiro.


Pseudomona aeruginosa: estudo comprova multirresistência e revela resultado inesperado 

Ao selecionar a P. aeruginosa como foco do estudo, os autores da pesquisa buscaram determinar o perfil de resistência do patógeno. O objetivo foi desvendar como a bactéria se comporta nas diferentes etapas do tratamento dos efluentes hospitalares. Como resultado, foi revelada alta frequência de cepas consideradas multidroga resistentes (MDR), ou seja, bactérias que resistem a mais de um medicamento.

Além disso, observou-se um isolado resistente a todos os antibióticos testados durante os experimentos. Isso ocorreu na etapa de cloração. Segundo Maysa, o resultado surpreendeu. “Foi interessante constatar que o patógeno resistiu, inclusive, à polimixina B, que é considerada uma alternativa eficaz no caso dessa bactéria potente”, conta.

Agora, os cientistas trabalham para estabelecer melhor os perfis e as relações genéticas de resistência, além da virulência, de amostras isoladas da bactéria. Maysa conta também que pretendem “determinar o resistoma microbiano nos efluentes hospitalares e avaliar sua disseminação nos corpos hídricos receptores, por meio do sequenciamento de uma nova geração”. Ela aponta a importância de seguir com a pesquisa, de forma a proteger, cada vez mais, a saúde humana e do meio ambiente. Ou seja: a caça aos inimigos continua.

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