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HCS-Manguinhos: violência e racismo em pauta

10/07/2015

Historiadora reflete sobre episódio que ocasionou a morte de Cleydison Pereira Silva, 29 anos, vítima de linchamento em São Luís do Maranhão

Por Blog da revista HCS-Manguinhos | Luciana Brito*

 

A capa do jornal Extra de 8 de julho de 2015 fez uma conexão precisa entre a obra de Debret que retrata um homem escravizado sendo castigado num tronco e o episódio que ocasionou a morte de Cleydison Pereira Silva, 29 anos, vítima de linchamento em São Luís do Maranhão. O desenho de Debret chamado “Aplicação do castigo do açoite/negros no tronco” data do século XIX e é um retrato de um Brasil perverso e escravista. O Código Criminal do Império do Brasil punia assim, com açoites, homens e mulheres negras escravizados que cometessem crimes. Os castigos eram aplicados em praça pública e tinham caráter pedagógico para os demais negros que assistissem ao “espetáculo”: a desobediência poderia fazer com que qualquer observador escravizado fosse o próximo a ser punido com o infame castigo.

A cena ocorrida esta semana, e que tem se repetido cada vez com mais frequência no Brasil, também deixa uma mensagem aos jovens negros, sobretudo aqueles que moram nas comunidades periféricas. Qualquer um deles pode ser o próximo a ser vítima da “moral da multidão”, a moral da covardia, a moral fora da lei.

O pior legado que a escravidão deixou para o Brasil foi o racismo e a consequente naturalização da violência sobre os negros. Sobram episódios de corpos brutalmente agredidos, arrastados pelas ruas, submetidos ao ritual de humilhação e selvageria dos executores do linchamento. O corpo nu de Cleydison, morto e amarrado a um poste, revela o requinte de crueldade que caracteriza a prática.

A multidão justifica suas ações sobretudo pela certeza da impunidade que favoreceria aquele que é seu alvo. Contudo, invertendo a lógica desse argumento, sabemos que os próprios “justiceiros” também confiam na impunidade para investir no papel de juízes e sentenciar à pena de morte aqueles e aquelas que são suas vítimas.

Até o primeiro semestre de 2014, o Brasil já acumulava o número de cinquenta linchamentos. Podemos colocar esses episódios ao lado de outros no contexto do genocídio da população negra brasileira, como chacinas, violência policial, corpos desaparecidos e muitos outros casos de nítida violação de direitos humanos e descumprimento da lei. Tudo isso agravado por uma escalada conservadora que está à beira de, de forma cruel, irresponsável e, de certa forma, ilegal, aprovar a redução da maioridade penal.

Durante muito tempo a sociedade brasileira negou que fosse racista; quando muito, reconhecia praticar uma versão mais branda, comparando nossa suposta “democracia racial” à violência racial praticada no sul dos EUA. Cenas de corpos negros pendurados em árvores, para muitos, era a prova de que tal violência não existia no nosso país tropical. Os argumentos dos racistas justiceiros de lá eram os mesmos dos daqui: estupro, roubo ou qualquer outra forma de violação da ordem que acabava provocando a morte de muitos homens negros, instalando o pavor nas cidades sulistas após a Guerra Civil Americana até o século XX.

As cenas vistas no Brasil revelam que não somos nada cordiais. Nossa selvageria seria revelada ainda que tardiamente, no contexto de importantes conquistas sociais que desencadearam uma onda de violência, intolerância, homofobia, ódios aos pobres, às mulheres e à população negra.

O espetáculo do corpo negro castigado, dilacerado e sangrento, assim como no Brasil escravista, também conta com a justificativa e o apoio de uma plateia enfurecida e covarde. Segundo o jornal Extra, mais de 70% dos comentários vinculados ao episódio apoiava a ação criminosa dos “justiceiros”.

Portanto, assim como os castigos ocorridos nas praças do Brasil até o século XIX, a incapacidade de ver o outro como humano justifica a ação de fazer o que os protagonistas da violência chamam de “justiça”. Contudo, o que nos distancia em 2015 das cenas do Brasil escravista são 127 anos de abolição; ou seja, o açoite público, que antes estava no Código Criminal, tornou-se ilegal a partir de 1888. Tribunal de rua, portanto, é crime.

Os recentes episódios de linchamento no Brasil nos aproximam da violência racial praticada no sul norte-americano no século passado. Por aqui também estamos colhendo strange fruits (frutos estranhos), como cantou Billie Holiday. Nossos frutos não estão pendurados em árvores, estão amarrados em postes.

A capa do jornal Extra não comete nenhum anacronismo, dada a similaridade dos atores e da cena. As ruas são as mesmas do Brasil escravista, assim como os corpos cujo sangue escorre pelo chão.

No Brasil, a vítima do linchamento em geral tem cor e pertence a uma determinada (e odiada) classe social.

 
*Luciana Brito é historiadora, especialista em escravidão e abolição nas Américas, com ênfase em Brasil e Estados Unidos. Faz parte da Rede de Mulheres Negras da Bahia. Seu livro “Temores da África” será lançado este ano pela Edufba.

 

Leia mais:

Um paraíso escravista na América do Sul: raça e escravidão sob o olhar de imigrantes confederados no Brasil oitocentista, artigo de Luciana Brito na Revista de História Comparada

Suplemento Saúde e Escravidão (vol.19  supl.1 dez. 2012): 13 artigos do suplemento temático revelam como viviam, adoeciam, eram curados ou morriam os escravos e libertos no Brasil

Sobre escravos e genes: “origens” e “processos” nos estudos da genética sobre a população brasileira, artigo de Elena Calvo-González (vol.21, no.4, dez 2014)

 

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