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Guerra aos envenenadores do povo!

Artigo publicado na revista HCS-Manguinhos debate como a crise de abastecimento gerada pela Primeira Guerra Mundial levou à institucionalização da regulação de alimentos no Brasil

04/08/2017
Por Blog de HCS-Manguinhos


De vinhos e conhaques a azeite de oliva, o Brasil viu aumentar massivamente os casos de fraudes e falsificações de alimentos em decorrência da crise de abastecimento gerada pela Primeira Guerra Mundial, o que gerou forte reação pública contra os chamados “envenenadores do povo”. Foi a partir desse momento que teve início a institucionalização da regulação de alimentos no país. Esse processo é tema do artigo “Guerra aos envenenadores do povo!” Os inícios da regulação de alimentos em São Paulo e no Rio de Janeiro, 1889-1930, que inspirou a capa da atual edição da revista História, Ciências, Saúde–Manguinhos (vol. 24, n.2, abr-jun/2017).

Assinado pelo professor do Instituto de Estudios Europeos da Universidad del Norte (Colombia), Sören Brinkmann, o artigo discute como a Primeira Guerra Mundial disparou uma dramática crise alimentar que trouxe consigo um aumento massivo de falsificações, gerando uma grande revolta. Neste período, casos de fraudes e escândalos relacionados ao comércio de alimentos, no Rio de Janeiro e em São Paulo, passaram a ser frequentemente noticiados pelos grandes jornais. Era a primeira vez que os consumidores das classes médias e altas eram atingidos pela “indústria da fraude”, da qual tomavam parte não apenas ambulantes, quitandeiras e outros pequenos vendedores e varejistas, mas também produtores de renome, cujo público-alvo eram pessoas de maior poder aquisitivo.

A cervejaria paulistana Antarctica, por exemplo, em 1916, por falta de cevada, antes importada do Império Austro-húngaro, passou a utilizar arroz para elaboração da cerveja. Já o famoso grupo industrial da família Matarazzo foi acusado, em 1918, de vender óleo de algodão, de qualidade inferior, como azeite de oliva italiano. No alvo das críticas estavam as autoridades sanitárias, evidentemente incapazes de reprimir a fraude.

O texto demostra que a regulação do comércio alimentar foi postergada várias vezes em razão da existência de outras prioridades. Isso mudou apenas com as reformas sanitárias dos anos 1920, o que permite identificar a crise alimentar da Primeira Guerra Mundial como ponto decisivo para a responsabilização do Estado brasileiro nesse âmbito.


Acesse o vol. 24, n.2, abr-jun/2017 de HCS-Manguinhos, aqui, no Portal de Periódicos Fiocruz.

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