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Experiência com fitomedicamentos contribui para a emancipação social das mulheres

04/06/2015

Revista Fitos analisa protagonismo de um grupo de assentadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na organização da saúde na comunidade

Por Fernanda Marques | Foto: Raul Santana (Fiocruz Imagens)

 

O trabalho com fitomedicamentos pode constituir uma ferramenta de empoderamento político e social da mulher. É o que demonstra uma experiência em Itapeva, no sul do Estado de São Paulo, onde, há mais de 20 anos, um grupo de assentadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reafirma o protagonismo feminino na organização da saúde dentro da comunidade. Uma análise dessa experiência, com recorte antropológico, é destaque na Revista Fitos. Os resultados revelam um trabalho que “assumiu, desde o princípio, uma dupla dimensão, de gênero e participativa”, escreve o pesquisador Giacomo Ferro, da Universidade Nova de Lisboa, autor do artigo.

A ocupação da Fazenda Pirituba teve início nos anos 1980 e, em pouco menos de 30 anos, havia no local mais de 200 famílias assentadas. Trigo, milho e soja – destinados à venda – são cultivados com utilização de agrotóxicos, que contaminam o solo e os aquíferos e também têm impacto sobre a saúde das famílias. No início dos anos 1990, era bastante grave a situação de vulnerabilidade social nos assentamentos. Devido à falta de água e comida e às precárias condições sanitárias, propagavam-se numerosas doenças infecciosas. Nesse contexto, criou-se uma comissão de saúde, composta inteiramente por mulheres da comunidade – “os homens continuavam a trabalhar nas fazendas circundantes para prover o sustento econômico das famílias”, escreve Ferro.

O cuidado com a saúde, associado ao conhecimento sobre plantas medicinais, já era, tradicionalmente, uma função feminina. Lá estavam, nas memórias dos assentados, “chás, xaropes ou infusões oferecidos em situações de doença pelas mães e avós”, assinala o autor. Porém, essa função, antes restrita ao âmbito familiar, vai se tornar um trabalho coletivo, a partir da experiência da comissão de saúde.

Os conhecimentos, experiências e memórias pessoais passaram a ser compartilhados, em um processo de “resgate de um patrimônio cultural local sobre os fitomedicamentos”. A rede de mulheres buscava discutir e aprender sobre as propriedades de diferentes plantas, com o objetivo de aplicá-las no enfrentamento dos problemas de saúde dos assentamentos. Uma multimistura vitamínica contra a desnutrição, uma geleia contra verminoses, xaropes expectorantes: “deu-se início a uma grande produção de remédios caseiros distribuída gratuitamente”, conta Ferro.

O trabalho coletivo das mulheres tornava-se cada vez mais essencial para os assentamentos. Apesar do surgimento de conflitos nas relações de gênero, nas esferas pública e privada, fortalecia-se a emancipação social das mulheres na comunidade. Tanto que foram elas as responsáveis pela criação de um Posto de Saúde da Família (PSF) no território da Fazenda para o atendimento aos assentados, após reivindicações junto a prefeitos e secretários de saúde.

Como desdobramento dessa história, em 2009, constituiu-se uma cooperativa de mulheres, a Cooplantas, que mantém uma colaboração com a Fiocruz no âmbito do projeto RedesFito, configurando-se como um sistema de Arranjo Produtivo Local (APL) em Itapeva. Entre os objetivos, destacam-se “um retorno econômico para as famílias, baseado em um tipo de produção biodinâmica e agroecológica”, e “a criação de uma farmácia nos assentamentos, para a manipulação e a produção de fitomedicamemtos e a sua distribuição no SUS, nos postos de saúde da região”.

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