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Estudo publicado em HCSM revela aspectos sociais e históricos da epidemia de Aids no Amazonas

01/12/2016

Com base em fontes documentais de instituições governamentais e não governamentais, pesquisadores traçaram um panorama desde a notificação do primeiro caso no estado

Por Mônica Mourão (Agência Fiocruz de Notícias)

 

Mais de 20 anos após ser identificado, o vírus HIV, causador da Aids, já matou cerca de 28 milhões de pessoas em todo o mundo e, no Brasil, a doença e o vírus ainda são considerados epidemias. Em busca de uma vacina ou da cura para a Aids, muitas pesquisas focam nos fatores biomédicos do agravo. Contudo, a análise de aspectos históricos e sociais do tema também são necessários para compreender o fenômeno e construir políticas públicas. Pensando nisso, os pesquisadores do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazonas), Michele Kadri e Júlio César Schweickardt, analisaram a emergência da Aids no Amazonas a partir da história do agravo e de seu contexto social e político.

Os pesquisadores debruçaram-se sobre fontes documentais de instituições governamentais e não governamentais do período de 1986, quando houve a notificação do primeiro caso no Amazonas, até 2010, ano do início da pesquisa, além de entrevistarem gestores e profissionais de saúde que lideraram a organização dos serviços de assistência aos primeiros casos no Amazonas e ativistas que atuam na área desde então. As conclusões, publicadas no artigo A emergência da Aids no Amazonas da revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), são de que a desarticulação entre as instituições de assistência e cuidado e a falta de priorização política do assunto na região têm dificultado o planejamento e execução de políticas públicas de combate à doença em toda a rede de assistência no estado. “É nesse cenário de reduzida importância do programa na hierarquia das políticas de saúde, crescimento populacional, aumento das atividades econômicas em todo o estado, principalmente na capital, que o vírus segue vitorioso no seu intento de continuar existindo nas fronteiras desse vasto território”, lamentam eles.

Segundo os autores, ao longo da pesquisa, ficou claro que a atual organização do Programa de Aids é produto da história e das decisões políticas e técnicas tomadas até aqui. “Embora o Amazonas tenha contado com dedicados profissionais de saúde comprometidos com o enfrentamento da epidemia ao longo da história, entre as fontes analisadas parece haver consenso acerca da priorização dada ao tema dentro da estratégia de saúde do estado. As intervenções foram e ainda são feitas de forma isolada, carecendo de articulação entre as instituições de assistência. O combate à epidemia poderia lograr importante avanço com a organização de uma liderança capaz de se articular tanto com as instituições de governo quanto com a sociedade civil envolvida no enfrentamento à Aids”, esclarecem.

Michele e Júlio César questionam ainda se no cenário de aumento de novos casos e da cronificação da doença, é adequado manter o modelo de gestão verticalizado adotado pela Secretaria de Saúde, que delega às suas autarquias a função de liderar a resposta dos diversos programas de saúde. “Considerando o histórico do programa de Aids aqui relatado e as taxas alarmantes de incidência que o estado apresentava até 2010, refletimos se essa forma de organização responde de forma satisfatória a necessidades impostas para controle da epidemia”, indagam.

Outro olhar sobre a Aids

A carência de dados históricos da doença despertou a atenção dos pesquisadores. “Uma pesquisa preliminar nas bases de dados bibliográficos Lilacs e Scielo apontou que as produções científicas sobre o tema no estado do Amazonas publicadas até o momento não têm abordado o problema de forma detalhada quanto aos aspectos sociais e históricos da epidemia em solo amazonense”, explicam eles.

O foco das pesquisas apenas nos padrões epidemiológicos causa uma lacuna na compreensão da dinâmica de disseminação de uma doença. “As epidemias evidenciam um comportamento coletivo, não acontecem aleatoriamente, sendo ainda produto da combinação de decisões políticas e do comportamento social de cada momento histórico em que surgem e se espalham. Entender o contexto social, político e ideológico no momento de surgimento e expansão da doença é uma questão central, uma vez que isso definirá alocação de recursos, qualidade da atenção e investimento em pesquisa sobre o tema, interferindo na vulnerabilidade das populações”, defendem.

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