Brasil
Acesso à Informação

Editora das memórias do Instituto Oswaldo Cruz discute desafios das publicações científicas no Brasil

19/04/2018

A pesquisadora Claude Pirmez fala da atual crise no periodismo científico e esclarece dúvidas sobre preprints

Por Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Memórias do Instituto Oswaldo Cruz


Será que o brasileiro reconhece e valoriza a ciência que é feita aqui? Foi com esta indagação que a editora das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Claude Pirmez, iniciou sua palestra sobre os atuais desafios de publicações científicas no Brasil. O evento aconteceu na última quinta-feira (12/4), no Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Claude comentou as dificuldades enfrentadas pelas cerca de 5 mil revistas científicas brasileiras publicadas no país, que fazem parte das mais de 30 mil existentes no mundo. “Hoje, nas Memórias, temos refletido muito a respeito da nossa responsabilidade com os desafios lançados a periódicos domésticos”, disse. Ela chamou atenção para a necessidade de aumentar o retorno dos investimentos em ciência, assim como de pensar novos modelos de publicação.

Ciclo vicioso

Segundo a editora, o atual indicador de sucesso na carreira de um pesquisador é a quantidade de trabalhos publicados. “A primeira coisa que te perguntam é: o que você já publicou?”, brincou. E é sempre preferível que venha acompanhado de revistas com um alto fator de impacto. Periódicos internacionais conceituados, como Nature e Science, costumam ser o alvo de cientistas brasileiros, que não priorizam as revistas daqui.

Para ela, se criou um ciclo vicioso. “Quanto mais artigos de alto valor eu tenho, mais fácil fica conseguir novos financiamentos”, explicou. “Assim, posso publicar mais e mais internacionalmente, o que me faz ser bem reconhecido pelos pares e subir na vida acadêmica... Mas e a qualidade desses trabalhos? Muitas vezes o meu artigo sai numa revista de altíssimo prestígio, mas não é citado nem sequer uma vez”, criticou a editora.

É aí que mora o problema. Esse processo gera excesso de reprodução pública, além de influenciar muitos casos de má conduta de revistas brasileiras (as chamadas revistas predatórias). Os resultados são desastrosos. Segundo dados apresentados na palestra, estima-se que 85% seja o índice total de não reprodutibilidade, confirmação ou validação em trabalhos científicos.

Preprints: uma nova proposta

“Temos que pensar fora da caixa”, propôs a editora das Memórias. Nesse sentido, ela apresentou um novo modelo, já utilizado pelo seu periódico, que promete facilitar a trajetória dos pesquisadores e editores na publicação de artigos: os chamados preprints. É uma pré-impressão ou pré-publicação, ou seja, uma versão prévia do artigo, que é publicada em um servidor público.

Como o acesso é livre, o modelo dá visibilidade imediata ao trabalho. Dentre outras vantagens, o autor pode receber comentários e sugestões de toda a comunidade (científica e não científica) à sua pesquisa, além de poder compartilhar novas versões do artigo. Claude afirmou: “O sistema peer view, que é o mais usado hoje, está muito sujeito ao viés e a diversos conflitos de interesses. Também é um sistema lento, pois leva pelo menos um ano até que o trabalho submetido seja publicado. Os preprints podem ser um caminho alternativo”.

Ainda há grande desconfiança dos cientistas com o modelo. No entanto, Claude finalizou lembrando que estamos vivendo uma crise de desconfiança que precisa ser, no geral, repensada. Afinal, pensar novos modos de fazer ciência é função de toda a comunidade.

Este portal é regido pela Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, que busca garantir à sociedade o acesso gratuito, público e aberto ao conteúdo integral de toda obra intelectual produzida pela Fiocruz.