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Dominique Pestre

26/12/2016
Por Mariza Romero* para HCS-Manguinhos | Foto: Reprodução/CDH/EPFL

Pestre é especializado em história da ciência e da técnica


Dominique Pestre é professor e diretor de pesquisa da École des Hautes Études en Sciences Sociales, exercendo suas atividades no Centre Alexandre Koyré – Histoire des Sciences et des Techniques. É físico de formação e historiador especializado em história da ciência e da técnica. Escreve sobre a história da física, sobre as relações entre as ciências, as tecnologias, a indústria e a respeito da relação entre cientistas e militares. Nos últimos 15 anos tem pesquisado as dinâmicas sociais, econômicas e políticas em torno das ciências e da inovação. Seus trabalhos mais recentes tratam de problemas ambientais e sociais causados pelo desenvolvimento tecnocientífico nos quais discute as soluções, modos de fazer e de regulação concretamente postos em prática, abordando, em um período compreendido sob a perspectiva da longa duração, as tensões que vêm se desenvolvendo há dois séculos nas sociedades democráticas e liberais contemporâneas.

Na presente entrevista, além de conceitos caros ao autor, serão abordados temas de suas mais recentes publicações, com destaque para o livro que dirigiu, Le gouvernement des tecnosciences: gouverner le progrès et ses dégats depuis 1945, obra em que aborda a tríplice tensão entre sociedade e indivíduo, entre economia e política, entre inovação e “precaução”, analisando também questões a partir de objetos e de escalas diferentes, sob uma perspectiva histórica. Também digna de nota é Histoire des sciences et des savoirs, obra em três volumes, publicada em outubro de 2015, da qual foi editor-chefe. O primeiro volume aborda do Renascimento às Luzes, propondo uma leitura alternativa da relação entre as ciências e a primeira modernidade, contribuindo para criticar as representações clássicas da “Revolução científica”. O segundo volume localiza a modernidade e a globalização entre 1770 e 1914, anos considerados tempos da industrialização e da expansão imperial e colonial. A ciência foi vitoriosa, a técnica reinou, a Terra foi esquadrinhada, as populações contadas, e as raças cartografadas. No terceiro volume, Le siècle des technosciences, o autor explora a fábrica de saberes, esclarecendo suas ligações com a economia, além de evidenciar a maneira pela qual as questões sanitárias e ecológicas são geradas, assim como analisa a diversidade dos conhecimentos produzidos pelo público em geral, pelas associações e por think tanks.

Pestre tem se destacado por estabelecer relações entre política, cientistas e cidadãos, inserindo a concepção de ciência do Centro Alexandre Koyré no campo multidisciplinar e da história social e cultural da ciência.

 

Mariza Romero/HCSM: O senhor é adepto da corrente historiográfica denominada sciences studies. Como esse posicionamento se traduz em suas reflexões sobre a ciência?

Dominique Pestre: Um ponto essencial dessa corrente é a afirmação de que a ciência que tem sido nossa por séculos não é apenas um “saber”. É também uma capacidade de ação, uma ferramenta de controle do mundo, um procedimento que tem rumos próprios, que tem uma “política” própria. Deixo mais precisa essa ideia reportando-me a uma banalidade. As ciências pertencem à ordem humana, elas são fabricadas por seres humanos de carne e osso, não pelos deuses. Assim, as provas produzidas pelas ciências não podem ser absolutas, elas repousam em simplificações, são necessariamente incompletas e tendenciosas, ainda que forneçam resultados úteis e interessantes.

A ciência raramente fala com uma só voz, e as opiniões dos especialistas geralmente são múltiplas. Esclareço que esse enunciado não deve ser entendido como uma proposta relativista, ele simplesmente afirma a natureza humana e social de toda produção de conhecimento. Nenhum conhecimento é “objetivo” e absolutamente verdadeiro, o que não implica que todos sejam equivalentes, longe disso. Entretanto, conforme os objetivos que se tenha, alguns saberes são mais interessantes que outros. E, certamente, existem muitos saberes fora da ciência, tais como, por exemplo, os saberes populares, amadores, indígenas e outras formas de conhecimento, como a arte ou a filosofia, que têm um valor próprio inegável.

Segundo ponto, as ciências não são impulsionadas apenas por suas próprias lógicas. As questões por elas tratadas, o que elas estudam ou ignoram, dependem de considerações que variam segundo os enquadramentos epistemológicos, uma vez que as diferentes ciências não utilizam os mesmos critérios de prova, e também segundo as situações institucionais, os locais onde esses saberes são produzidos, a situação do momento, a natureza dos financiadores e de suas exigências.

Um terceiro fato importante é que a ciência moderna não é apenas um modo de saber, mas é uma atividade de natureza prática. Por meio da experimentação controlada, da observação sistemática, das matemáticas, da utilização de correlações digitais e de modelizações, essa forma de conhecimento permite um certo controle sobre os fenômenos e sobre a natureza. É uma maneira de abordar questões que permite uma ação eficaz, podendo transformar-se facilmente em tecnologia.

Devido a essa capacidade “operacional”, a ciência moderna sempre esteve ligada a todo tipo de poder. Ela sempre foi cuidadosamente monitorada pelos poderes constituídos, e os cientistas têm oferecido seus serviços para príncipes, para Estados democráticos e autoritários, para empresas comerciais, para industriais e para os militares.

A ciência moderna é também uma maneira de governar, seja por meio da gestão científica, da pesquisa operacional ou da engenharia social.

A ciência moderna não é um veículo neutro do progresso. Como toda atividade humana, ela se fundamenta em valores e categorias que impregnam sua língua, seus instrumentos, seus resultados. Por sua ligação com o desenvolvimento técnico e econômico, a ciência moderna é frequentemente questionada. Ela produz resultados interessantes e úteis, sem dúvida, mas suas propostas são também fonte de alguns dos problemas que as sociedades devem enfrentar como, por exemplo, os danos do progresso técnico. Por fim, eu diria que a ciência moderna nunca foi muito atenta às consequências que poderiam surgir da caixa de Pandora que ela reabre constantemente. Os produtos e os conhecimentos científicos e técnicos penetram as sociedades e as transformam por meio dos mercados, do consumo ou pelo uso, mas sem levar em conta as implicações sociais, morais ou ambientais. Em outros termos, é preciso pensar que as ciências e técnicas favorecem certas formas de estar no mundo e de desenvolver-se em detrimento de outras. Portanto, não devemos ficar surpresos com as reações das populações quando a tecnociência age sem cautela.
 

Mariza Romero/HCSM: Como o senhor se posiciona com relação ao movimento dos science and technology studies, que interessa mais aos cientistas políticos e sociólogos do que aos historiadores?

Dominique Pestre: Os trabalhos sobre as relações entre ciência, sociedade e escolhas políticas são numerosos atualmente, tanto nesse movimento como na sociedade. Duas grandes teses os estruturam.

A primeira afirma que há cinco décadas a relação com a ciência inverteu-se e que a confiança que “a sociedade” tinha “na ciência” desapareceu. Esse tema deu origem a duas variações. Uma afirma que vivemos um declínio histórico da modernidade e das Luzes, que o mundo social torna-se irracional ao não mais confiar na ciência. Esse discurso é bastante comum nos meios científicos e industriais. A outra, ao contrário, afirma que é preciso pensar em outro sentido, que o debate público emancipou-se das tutelas científicas e, retomando Michel Callon (Callon, Rip, Law, 1986), que emergiu uma “democracia técnica”. As políticas que decorrem dessas duas leituras são, evidentemente, opostas: uma é top-down e privilegia a ciência como a única fonte legítima de saber; a outra é mais atenta ao que impulsiona um social em acentuada recomposição e deseja integrá-lo na decisão. Essa diferença política é central.

Um segundo tema em voga hoje em dia – pensem em Ulrich Beck ou Anthony Giddens (Beck, Giddens, Lash, 1997) – afirma que nós saímos de uma modernidade despreocupada, herdada do século XVIII, tornamo-nos conscientes dos desastres que impusemos ao nosso ambiente e, agora, praticamos a prudência e a precaução. Nisso teríamos passado das práticas irresponsáveis de nossos ancestrais para as práticas “reflexivas”, atentas à limitação dos danos que ocasionamos.

Meu sentimento é que esses discursos, por mais interessantes que sejam, são talvez demasiado indulgentes conosco mesmos, que talvez eles não olhem a realidade de frente. Eles são, em primeiro lugar, construídos sobre um desconhecimento das realidades históricas – esse passado tão criticado foi tão inquieto quanto nós frente aos danos que criou, e os historiadores têm agora demonstrado isso muito bem.

Penso que esses discursos são também muito otimistas porque é de se duvidar que realmente estejamos salvando o planeta, que estejamos revertendo as tendências destrutivas iniciadas há três séculos. Parece-me que acontece o contrário, pensemos na forma das curvas que descrevem o Antropoceno e que não marcam nenhuma inflexão no período recente.

Esses discursos têm um enquadramento estreito de questões: eles estão errados, a meu ver, ao pensar que a solução para os problemas que enfrentamos virão da “tomada de consciência”e de um debate entre a ciência e a sociedade. Efetivamente, esquecem muitas coisas, esquecem que a sociedade não é homogênea, que as ciências também pertencem ao mundo econômico, que as lógicas produtivas, de mercado e financeiras são frequentemente as mais poderosas e que elas agem transversalmente às lógicas do debate público, só excepcionalmente o levando em conta e apenas quando a mídia se envolve. Esquecem a variedade das instituições de regulação, cuja história é longa: da autorização para colocar medicamentos no mercado às mesas-redondas, aos multiatores e às normas das “melhores técnicas disponíveis” decididas, principalmente, pelos industriais para instalações “duráveis” das novas zonas industriais. E esse mundo complexo e altamente estruturado não pode ser facilmente reformado – e menos ainda ignorado.

*Mariza Romero é professora do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP

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