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Crise como oportunidade para crítica e construção

Editorial da revista Trabalho, Educação e Saúde debate a formação de agentes de saúde frente à tríplice epidemia

23/05/2016
Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Carlos Poly

 

Em meio a uma emergência cabe aos profissionais de saúde debater problemas estruturais que contribuíram para o agravamento da crise ou resta apenas combater seus efeitos imediatos? É esta a provocação que a editora científica Angélica Ferreira Fonseca faz no Editorial “Sobre o trabalho e a formação de agentes de saúde em tempos de zika”, publicado na segunda edição da revista Trabalho, Educação e Saúde (maio-agosto/2016).

Ao abordar a tríplice epidemia (zika-dengue-chikungunya), a editora atenta para as campanhas de educação em saúde que, na maioria das vezes, responsabilizam a população, e acabam por “apagar a falência das políticas públicas intersetoriais e a centralidade da dinâmica econômica e social, ao enfatizarem mensagens de individualização tanto do risco quanto do controle de seus fatores”.

Ela levanta também as correlações com determinantes sociais em saúde, as condições históricas do quadro sanitário brasileiro, a urbanização precária e processos migratórios, dentre outros fatores que são frequentemente obscurecidos neste debate em que o Aedes aegypti é apontado como o único vilão.

Neste contexto, Angélica faz um recorte sobre “formação e ao trabalho em saúde e, mais particularmente, a um trabalho e uma formação socialmente pouco valorizada: a dos agentes de saúde, sejam os agentes comunitários, sejam os agentes de endemias”. O texto aponta para a necessidade de uma formação sólida, técnica e política – em vez de pontual, como vem ocorrendo em treinamentos breves – e discute também a precarização dos vínculos. 

De acordo com a editora, “uma das resultantes dessa regressão no processo de qualificação desses trabalhadores é que, em um momento como o das epidemias atuais, surge a leitura de que os ‘trabalhadores de campo' se mostram pouco habilitados a exercer o conjunto amplo e complexo de atividades que lhe são atribuídas (que incorporam desde a orientação individual sobre sinais e sintomas até o manejo de questões ambientais, além da mobilização comunitária)”. 

Retomando o ponto central do debate, Angélica afirma que o compromisso com a educação profissional em saúde não se sustenta a partir de uma perspectiva tática, “dominada pela ideia de urgência que atravessa nosso imaginário quando o tema é saúde e, mais ainda, quando se estabelece como horizonte apenas o controle de uma ou duas doenças”.

Finalmente, a editora lembra que a crise pode representar “uma oportunidade de romper com esse ciclo de reprodução do discurso de controle biologicista, que, através de agentes de saúde e meios de comunicação, chegam aos territórios e contribuem para retardar posições politicamente mais críticas”.

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