Brasil
Acesso à Informação

Crack na mídia: a saúde pública negligenciada

26/06/2017

No Dia Internacional sobre o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas, o Portal de Periódicos Fiocruz discute como esta questão de saúde pública vem sendo tratada na perspectiva da comunicação e da informação

Por Camila Martins (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: Senado

 

No Dia Internacional sobre o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas (26/6), o Portal de Periódicos Fiocruz debate recentes fatos que vêm mobilizando a opinião pública brasileira. Há pouco mais de um mês (dia 21/5), a chamada “Cracolândia”, região no Centro de São Paulo que concentra traficantes e usuários de crack foi alvo de uma operação que envolveu mais de 900 agentes das polícias Civil e Militar. No final do dia, pelo menos 38 suspeitos por tráfico foram presos e um usuário ficou ferido. A estratégia adotada pelo prefeito e pelo governador reacendeu o debate sobre o consumo de drogas: questão de segurança ou de saúde pública?

A polêmica não é nova. A jornalista e mestre e Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília, Eva Patricia Lopes, lembra que “com a justificativa de combater uma série de problemas crônicos da região e ajudar no tratamento e ressocialização de dependentes de álcool e drogas e de pessoas com problemas psíquicos, há relatos de tentativas de intervenção na região central de São Paulo desde a década de 1980”. As informações constam de seu artigo O tratamento ao usuário de crack nas páginas policiais dos jornais brasileiros, publicado na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação, Inovação e Saúde - Reciis (vol. 7, n. 13, 2013).

A autora faz uma análise de enquadramento de notícias relacionadas à Ação Integrada Centro Legal – operação de policias militares, profissionais de saúde e assistentes sociais, revelando a abordagem dos temas de segurança pública e de saúde pública nos principais jornais brasileiros, nos períodos de julho de 2009 (quando a operação é lançada na Cracolândia), janeiro e fevereiro de 2010 e janeiro de 2012. O artigo revela que a imprensa adota fontes oficiais na seguinte proporção: gestores (29%), autoridade policial (17%), autoridade judicial (13%), profissional de saúde (7%), usuários (6%), parlamentares (5%), cientistas políticos (5%), pesquisadores da área social (2%) e outros (16%). Ressaltando que “os temas que são debatidos entre a população são definidos pelos meios de comunicação de massa e, consequentemente, a ênfase atribuída a cada tema é ditada, também, pela mídia”, Eva mostra que a saúde pública e as questões sociais são negligenciadas em favor de um enfoque que prioriza a segurança.


Internação compulsória em debate na Visa

Outro tema que ganhou grande visibilidade devido a última operação na Cracolândia, foi a internação compulsória que, segundo a Prefeitura de São Paulo, seria necessária após a intervenção policial e “higienização social” da região. Assim como Eva Lopes, os pesquisadores Wilson Couto Borges e Vânia Coutinho Quintanilha Borges, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict/Fiocruz), discorrem sobre a influência do discurso midiático na sociedade, no artigo Crack e internação compulsória em debate: impactos da comunicação e informação na vigilância, publicado na revista Vigilância Sanitária em Debate: Sociedade, Ciência & Tecnologia - Visa em Debate (vol. 4, n. 4, 2016).

Os autores selecionaram matérias publicadas em 2013 sobre crack, internação compulsória e a política de drogas brasileira. Fazendo uma análise semiótica do conteúdo, destacam que a imprensa reforça a internação compulsória como solução para o problema. Eles alertam que, devido a essa abordagem, a saúde pública fica em segundo plano, o que gera consequências graves na construção de políticas públicas no país. “Um dos efeitos mais negativos desse processo é um certo apagamento das construções estabelecidas pelas Reforma Sanitária e Psiquiátrica ao longo de décadas no país, cuja ênfase está no cuidado com respeito aos direitos humanos”. Os sentidos sociais utilizados no discurso midiático interferem no debate público, segundo os autores.

Para saber mais sobre este tema importante no contexto atual do país, leia na íntegra os dois artigos citados na matéria. O acesso às revistas científicas editadas pela Fiocruz é aberto e gratuito.

 

Este portal é regido pela Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, que busca garantir à sociedade o acesso gratuito, público e aberto ao conteúdo integral de toda obra intelectual produzida pela Fiocruz.