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Consciência negra

19/11/2018

Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma seleção de artigos sobre os quilombolas, afirmando a importância de garantir seus direitos e também de valorizar seus conhecimentos

Por Flávia Lobato e Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz) | Foto: ONU Brasil

Mulher em comunidade quilombola na zona rural de Pernambuco
(Imagem: frame de documentário da Opas)

 

Reconhecer a identidade de um povo importa: valorizar suas origens, heranças, história, cultura, saberes. E, claro, possibilitar que exerçam plenamente seus direitos é fundamental numa sociedade democrática. E o Brasil ainda está em dívida com povos e comunidades tradicionais como os quilombolas – "grupos étnico-raciais segundo critérios de autoatribuição, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida” (de acordo com o Decreto 4887/2003). Para se ter uma ideia, não há, por exemplo, informações precisas sobre quantos eles são.

A fim de preencher esta lacuna, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA/ONU) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm trabalhado na sistematização de uma metodologia para incorporar dados relacionados a essas comunidades em todo o país no Censo 2020. A iniciativa é importante para que grupos historicamente marcados por diferentes modos de opressão e violação de seus direitos sejam incluídos como sujeitos de políticas públicas nacionais em todos os segmentos. 

Marcando e celebrando o Dia da Consciência Negra (20/11), o Portal de Periódicos Fiocruz afirma a importância da assistência à saúde para os quilombolas, publicando estudos que colaboram para dar visibilidade à produção de conhecimento sobre e para eles, assim como gerados por eles próprios. Confira os artigos selecionados nas revistas científicas editados pela Fiocruz. Acesse:
 

Insegurança alimentar em comunidades rurais no Nordeste brasileiro: faz diferença ser quilombola?

As comunidades quilombolas, reconhecidas como comunidades tradicionais com presunção de ancestralidade negra, estão distribuídas em todo o território nacional, em maior concentração no Nordeste rural do Brasil. Apresentam características heterogêneas com trajetórias históricas próprias. O objetivo deste artigo foi identificar a prevalência de insegurança alimentar em uma área rural do Nordeste do Brasil e investigar este desfecho de acordo com a residência em comunidades quilombolas e não quilombolas. O estudo transversal contemplou 21 comunidades rurais, sendo 9 quilombolas.

Estudo etnobotânico em comunidade quilombola Salamina/Putumujú em Maragogipe, Bahia

Práticas de cura, hábitos e tradições: na medicina popular, a pesquisa etnobotânica é uma importante ferramenta para o conhecimento acerca das relações dos indivíduos com as plantas, que podem ser utilizadas para diversos fins (medicinais, alimentação, produção de lenha, ornamentação, construções de casas, entre outros). Utilizando-se de entrevistas e questionários, este estudo tem como objetivos revitalizar e documentar os conhecimentos tradicionais relativos às plantas de uso medicinal, utilizadas pela comunidade quilombola Salamina/Putumujú, na Bahia.

Percepções e representações sociais da comunidade quilombola acerca dos Tabânidas (Diptera, Tabanidae) na Ilha da Marambaia, Mangaratiba, Rio de Janeiro

Os tabanídeos são moscas conhecidas vulgarmente no Brasil como mutucas, botucas e moscas dos cavalos. Os residentes da Ilha da Marambaia conhecem as mutucas por essas se encontrarem sempre próximas às suas habitações e por sua presença constante nas atividades diárias ao ar livre. O objetivo do estudo foi identificar o que essa relação significa. Um questionário foi proposto a 60 residentes e a análise foi desenvolvida com espeque na Teoria das Representações Sociais.

Quilombolas: a produção de mel na apicultura familiar do Vale do Ribeira, São Paulo

Mel para "dar" e sobreviver! A apicultura familiar é uma atividade econômica e ecológica (devido à polinização) indispensável para sistemas de agricultura familiar que têm por finalidade trazer a inclusão social, renda fixa e bases ecológicas sustentáveis. Este trabalho teve como objetivo identificar o perfil atual da produção de mel de cinco comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, São Paulo. Com o estudo de georreferenciamento, foram estabelecidas as condições ambientais locais que serviram de embasamento para o levantamento florístico de 85 espécies de plantas, distribuído em 32 famílias botânicas.

A utilização da técnica de grupo focal: um estudo com mulheres quilombolas

Falando de saúde e da mulher quilombola, a pesquisa discute a experiência de utilização da técnica de grupo focal em um estudo com mulheres quilombolas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa descritiva, com vertente antropológica, realizada com 13 mulheres de uma comunidade quilombola, localizada no interior do Rio Grande do Sul. A utilização da técnica de grupo focal permitiu aproximação, interação, troca de saberes, experiências, percepções e sentimentos, além da problematização e aprofundamento acerca do significado de cuidado à saúde da mulher quilombola.

Comunidades quilombolas de Vitória da Conquista, Bahia, Brasil: hipertensão arterial e fatores associados

Qual a prevalência de hipertensão arterial em residentes das comunidades quilombolas no Brasil? De acordo com os resultados, a prevalência foi de 45,4% (considerada alta). Assim, observa-se a necessidade da promoção da saúde por meio de atenção inclusiva aos quilombolas, com ações em níveis individual e populacional. É preciso de um amplo acesso aos serviços de saúde para prevenção, diagnóstico precoce e orientações para o manejo adequado destas pessoas.

Utilização de serviços de saúde por população quilombola do Sudoeste da Bahia, Brasil

O uso de serviços de saúde vem aumentando no país, mas permanecem as desigualdades geográficas e sociais, especialmente entre os grupos minoritários. O objetivo deste trabalho foi analisar o uso de serviços de saúde pela população quilombola de Vitória da Conquista, na Bahia. Trata-se de inquérito de saúde transversal, realizado em 2011, com indivíduos quilombolas maiores de 18 anos. Os resultados apontaram subutilização de serviços de saúde pelos quilombolas, demonstrando a necessidade de melhorar a prestação de serviços de saúde a essa população.

Uma morfologia dos quilombos nas Américas, séculos XVI-XIX

Economia fundada na incorporação de estrangeiros como condição fundamental para a sua reprodução ampliada, ao reger-se por uma lógica de altíssimo desperdício de mão de obra, a escravidão americana parecia presa a um paradoxo. Afinal, dificultava a capacidade de procriação dos trabalhadores e incrementava as taxas de mortalidade dos escravos devido às duras jornadas de trabalho. O presente trabalho parte da constatação da natureza anódina dos estudos acerca dos quilombos em sociedades escravistas nas Américas, os quais muitas vezes juntam milhares de estruturas complexas em uma única categoria.

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