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Combate ao fumo: mortes por câncer de pulmão entre mulheres devem estabilizar em 2030

29/08/2019

Contextualizando o estudo inédito do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer, o Portal traz artigos sobre políticas de controle de tabaco no Brasil e tabagismo entre mulheres

Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)* | Foto: Freepik


O Brasil é um exemplo internacional quando o assunto é a Política Nacional de Controle do Tabaco. Há cerca de um mês (26/7), a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou que o país é o segundo a alcançar o mais alto nível entre 171 países que adotaram as medidas MPOWER de controle do tabaco preconizadas pela Organização. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) colabora de uma forma significativa para esses resultados, que são fruto de um trabalho iniciado pelo Brasil na década de 1990 (saiba mais aqui).

No Dia Nacional do Combate ao Fumo (29/8), há ainda mais evidências a comemorar: as mortes por câncer de pulmão entre mulheres devem estabilizar em 2030, encerrando uma tendência histórica de elevação aqui no país. É o que mostra um estudo inédito do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, lançado em hoje (29/8). Intitulado “A curva epidêmica do tabaco no Brasil: para onde estamos indo?”, o estudo apresenta as tendências temporais da taxa de mortalidade por câncer de pulmão observadas de 1980 a 2017 e estimadas até 2040.

O contexto favorável é fruto de uma série de medidas adotadas pelo governo, especialmente na última década, que envolvem diretamente ações do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste sentido, o Portal de Periódicos Fiocruz destaca, hoje, artigos publicados na revista Cadernos de Saúde Pública, que enfocam o processo de formulação das políticas nacionais: Trajetória da política de controle do tabaco no Brasil de 1986 a 2016 e O processo decisório de ratificação da Convenção-Quadro para o controle do tabaco da Organização Mundial da Saúde no Brasil.

Mais especificamente, trazemos outros dois artigos que abordam o tabagismo entre mulheres. Isso porque são elas que têm protagonizado a redução no hábito de fumar nos últimos 13 anos, segundo o Ministério da Saúde (leia a matéria completa): Prevalência do uso de produtos derivados do tabaco e fatores associados em mulheres no Paraná, Brasil e Cigarro "companheiro": o tabagismo feminino em uma abordagem crítica de gênero.

Apresentamos, ainda, dados atualizados do MS e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) sobre tabaco e câncer de pulmão, para complementar a leitura destes estudos. Confira!


Série histórica: mulheres reduziram o hábito de fumar em 44%, nos últimos 13 anos

De acordo com o Ministério, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre os homens sempre foi superior à verificada entre as mulheres. No entanto, como desde 2005 a taxa entre os homens está caindo e a entre as mulheres subindo, as curvas estão se aproximando. A razão entre a mortalidade homem/mulher diminuiu de 3,6 em 1980 para 1,7 em 2017. No Brasil, o Inca estima que, até o final de 2019, sejam registrados 31.270 novos casos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão em decorrência do tabagismo, sendo 18.740 em homens e 12.530 em mulheres.

O câncer de pulmão é o segundo mais frequente no país. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que 27.833 pessoas foram a óbito em 2017 devido a essa causa. Entretanto, as consequências dos cigarros não são apenas essas.

Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) revelam que, em 2018, 9,3% dos brasileiros afirmaram ter o hábito de fumar. Em 2006, ano da primeira edição da pesquisa, esse percentual era de 15,7%. Nos últimos 13 anos, a população entrevistada reduziu em 40% o consumo do tabaco, o que reforça a tendência nacional observada, ano após ano, de queda constante desse hábito nocivo para a saúde. O Vigitel revela ainda que as mulheres também vêm assumindo um protagonismo importante nesse cenário, superando a média nacional, reduzindo em 44% o hábito de fumar no período.

Realizada com maiores de 18 anos nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, o Vigitel é uma pesquisa telefônica sobre diversos assuntos relacionados à saúde. Para a edição mais recente, foram entrevistados 52.395 pessoas entre janeiro e dezembro de 2018. Leia também o artigo publicado na CSP: Evolução de indicadores do tabagismo segundo inquéritos de telefone, 2006-2014

 

Dados da Opas sobre tabaco e câncer de pulmão na Região das Américas

Uma pessoa morre a cada quatro segundos no mundo e a cada 34 segundos na Região das Américas, devido ao uso de tabaco, de acordo com dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). No total, são 8 milhões de mortes por ano, em todo o mundo, sendo quase 1 milhão delas nesta região.

Mais da metade dos casos de câncer de pulmão estão relacionados ao uso de tabaco, assim como 46% dos casos de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) - uma condição na qual o acúmulo de muco com pus nos pulmões resulta em tosse dolorosa e dificuldade respiratória agonizante. Parar de fumar pode reduzir os riscos: após 10 anos sem consumir tabaco, a probabilidade de desenvolver a doença cai para cerca de metade em relação a um fumante.

Ainda de acordo com a Opas, o câncer de pulmão é o terceiro tipo mais comum de câncer (342.518 novos casos relatados em 2018) e o que tipo que causa mais mortes: o uso do tabaco é responsável por 65% das mortes causadas por traquéia, câncer brônquico e pulmonar.

Para reduzir esta ameaça à saúde, os países devem agir urgentemente para acelerar a implementação das medidas de controle descritas na Convenção-Quadro da OMS para o Controle do Tabaco e reafirmadas pela Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.


Leia os artigos publicados nos Cadernos de Saúde Pública e saiba mais

Trajetória da Política de Controle do Tabaco no Brasil de 1986 a 2016 (Cadernos de Saúde Pública, vol. 34, n. 2, 2018)
A trajetória da política brasileira de controle do tabaco entre 1986 e 2016, seus avanços, limites e desafios são tema do estudo. A análise dos autores contempla diversos fatores, tais como: o contexto político-econômico nacional e internacional, a percepção da sociedade em relação ao fumo, a adoção de medidas intersetoriais de controle do tabaco, assim como ações para a promoção de ambientes livres do fumo e advertências sobre os malefícios do tabagismo. Destacam, ainda, a implementação da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde no Brasil, a partir de 2006, que contribuiu para a expansão e consolidação da política nacional. Entre os desafios, comentam a sustentabilidade do controle do tabaco a médio e longo prazos e a superação das barreiras relacionadas à diversificação em áreas plantadas de fumo, ao combate ao comércio ilícito de cigarros e à interferência da indústria do fumo na política.

O processo decisório de ratificação da Convenção-Quadro para o controle do tabaco da Organização Mundial da Saúde no Brasil (Cadernos de Saúde Pública, vol. 33, supl. 3, 2017)
Em 2003, a Assembleia Mundial de Saúde adotou a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde (CQCT-OMS) como medida de proteção para os cidadãos quanto às consequências sanitárias, sociais, ambientais e econômicas geradas pelo consumo e pela exposição à fumaça do tabaco. Este artigo mostra que o processo de realização de audiências públicas nas principais cidades produtoras da erva, que envolveu o Congresso Nacional, considerando os diferentes interesses, posições e atores sociais envolvidos. De acordo com os autores do artigo, apesar de precedida por intensos debates, a decisão final favorável à ratificação foi tomada por um grupo restrito de agentes públicos, caracterizando um processo decisório que se assemelha a um funil.

Prevalência do uso de produtos derivados do tabaco e fatores associados em mulheres no Paraná, Brasil (Cadernos de Saúde Pública, vol. 28, n.8, 2012)
O estudo envolve 2.153 mulheres com 18 anos de idade ou mais em sete cidades do Paraná, a fim de avaliar a prevalência do uso de produtos derivados do tabaco, considerando o perfil demográfico (cidade, estado civil, escolaridade). Os resultados confirmam a necessidade de programas de controle do tabaco que levem em consideração as questões de gênero e regiões.

Cigarro "companheiro": o tabagismo feminino em uma abordagem crítica de gênero (Cadernos de Saúde Pública, vol. 24, n.12, 2008)
Quais os significados simbólicos e concretos de fumar para as mulheres? Este artigo apresenta os principais resultados de uma pesquisa que investiga o tema sob a ótica crítica e de gênero, utilizando-se de uma abordagem qualitativa. Foram realizadas 14 entrevistas semi-estruturadas com mulheres tabagistas participantes de um programa de tratamento, tendo em vista diversas etapas do processo de cessação. Os resultados evidenciam quanto o cigarro esteve imbricado em suas trajetórias sociais e de gênero, desempenhando importante papel de apoio no enfrentamento das inúmeras dificuldades de sobrevivência. Neste sentido, emergiu, como categoria empírica central, o "cigarro companheiro".


*Com informações do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

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