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Claude Pirmez

27/06/2017
Por Flávia Lobato (Portal de Periódicos Fiocruz)* | Foto: Gutemberg Brito (IOC/Fiocruz)

Claude Pirmez: zelar por ética e integridade em
pesquisa é papel dos pesquisadores e financiadores,
das revistas e instituições

 

O debate ético tem dominado a pauta da mídia brasileira e internacional. Relações perigosas entre empresas e poder público, conflitos de interesse, gestão fraudulenta, a reputação de instituições públicas e organizações privadas em jogo, sob constantes questionamentos e ameaças. Neste cenário, ética, integridade e transparência estão na ordem do dia. Essas questões também mobilizam a comunidade científica, que se vê pressionada a produzir e gerar resultados rápidos e confiáveis, ao mesmo tempo em que precisa lidar com novos modelos de compartilhamento do conhecimento e direitos autorais. Tudo isso diante do mercado de grandes editoras e da crise de financiamento das pesquisas. Em resumo: muitos fatores têm impacto na atuação dos editores de periódicos científicos.

Como parte das ações para fortalecer seu comprometimento com as boas práticas editoriais e minimizar riscos associados a má conduta — como fraudes, plágio, “fatiamento de artigos”, relacionamento abusivo entre autores, coautores e orientandos, entre outros —, os periódicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aderiram ao Comitê de Ética em Publicações (Cope). Criado no Reino Unido, o grupo reúne mais de dez mil periódicos internacionais. A inscrição no Comitê mostra que as revistas pretendem seguir os mais altos padrões de ética de publicação, assim com o Código de Conduta para editores de revista, e que o associado também apoia o trabalho de aconselhamento para editores.

Os editores da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Claude Pirmez e Hooman Momen, foram responsáveis pelo processo de submissão de candidaturas da Fiocruz ao Cope. Além das Memórias, quatro periódicos editados pela Fundação foram aprovados como membros do grupo, em maio deste ano: Cadernos de Saúde Pública; História, Ciências, Saúde – Manguinhos; Trabalho, Educação e Saúde; e Vigilância Sanitária em Debate: Sociedade, Ciência & Tecnologia.

Nos próximos dias (29/6 e 30/6), Claude participa do Simpósio “Falta de reprodutibilidade na pesquisa biomédica: uma ameaça real à ciência?”, promovido pela Academia Nacional de Medicina (ANM). No evento, ela debaterá questões relacionadas à integridade e ética em pesquisa na visão das revistas científicas. Para saber mais sobre estes temas, leia a seguir a entrevista da editora ao Portal de Periódicos Fiocruz:

Portal de Periódicos Fiocruz: Como resultado de uma proposta que surgiu no Fórum dos Editores Científicos da Fiocruz, cinco periódicos científicos editados pela instituição foram aprovados como membros do Comitê de Ética em Publicações (Cope), em maio deste ano. Qual o escopo de atuação do comitê e qual a importância de integrá-lo?
Claude Pirmez: Como o Cope é um fórum de editores e entidades de publicação criado para discutir os aspectos relativos à ética em publicação, integrá-lo significa reafirmar o comprometimento da Fiocruz com as boas práticas editoriais. Além de estabelecer um Código de Conduta para os editores que participam do grupo, o Comitê sugere melhores práticas para as publicações, presta aconselhamento para o enfrentamento de casos específicos de má conduta e fornece ferramentas que podem contribuir para a promoção da integridade científica, incluindo aulas online e aplicativos para a realização de auditorias.

PP: Que requisitos as publicações devem atender para conquistar esta aprovação?
Claude Pirmez:
O Cope tem um fluxo específico para incluir ou não uma revista como associada, considerando tamanho, história, circulação e práticas editoriais da publicação. Além de obedecer a princípios de transparência e boas práticas de publicação, que são avaliados para aprovação da adesão, os participantes do Comitê assumem o compromisso de respeitar o Código de Conduta para editores de publicações científicas. Na lista de padrões mínimos obrigatórios, o documento traz normas que orientam o relacionamento com autores, leitores, conselho editorial e financiadores; o processo de revisão por pares; e o enfrentamento de casos de má conduta científica, entre outros aspectos. É possível consultar quais são estes critérios de forma mais detalhada através deste link: https://publicationethics.org/join-cope

PP: O Comitê abriga publicações de todo o mundo, que transitam em diferentes contextos de financiamento, modelos de acesso e áreas do conhecimento. Quais as vantagens e desvantagens de periódicos tão distintos estarem associados ao mesmo Código de Conduta?
Claude Pirmez: Não há desvantagens, só vantagens. Não é um órgão regulador, mas norteador de diretrizes como um todo. A ética na editoração independe da área. A integridade científica resulta da conduta ética do pesquisador, que não pode cometer atos desonestos como plágio, fabricação e modificação de dados. No entanto, o dever de zelar pela integridade cabe também às instituições científicas, às revistas e aos financiadores. Nas Memórias, por exemplo, temos processos estabelecidos que vão desde a pesquisa para verificar a ocorrência de casos de plágio antes de aceitar um artigo para publicação até a transparência na retratação nos casos em que a má conduta ou o conflito de autoria são detectados posteriormente.

PP: Que instâncias da Fiocruz têm atuado mais diretamente na condução de medidas voltadas à ética e integridade em pesquisa? Em que níveis, de que forma se dá esta articulação interna? Há alguma Política formulada neste sentido?
Claude Pirmez:
A Fundação criou um Comitê de Integridade em Pesquisa (Portaria PR 176/2012), que foi constituído para promover a cultura das boas práticas em pesquisa, o que inclui a questão editorial. Na ocasião, a Fiocruz era a única instituição de pesquisa com um comitê de integridade no Brasil. Isso acompanhou a iniciativa da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] e, mais tarde, da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], que criaram normas ou documentos estabelecendo o papel das agências de financiamento na corresponsabilidade das boas práticas.

PP: No que se refere especificamente à ética e integridade voltada às publicações científicas, que questões você elencaria para enfrentar de forma prioritária no contexto da Fiocruz. Por quê?
Claude Pirmez:
Uma primeira ação estaria relacionada à pós-graduação. Creio que seria interessante criar uma disciplina nos cursos, integrada aos módulos da ética em pesquisa, para discutir as questões ligadas às boas práticas de publicação, particularmente no que diz respeito ao plágio. A segunda seria a criação de um fluxo para avaliar e orientar todos os pesquisadores da Fiocruz sobre as boas práticas em pesquisa. 

PP: Temos assistido a diversas situações de emergências em saúde pública, nas quais aumenta a pressão pela publicação de resultados de pesquisas científicas. Nesse contexto, que medidas têm sido adotadas pelas publicações científicas para equacionar a divulgação de resultados e sua confiabilidade e corresponder às expectativas dos pares da comunidade científica e da sociedade, de forma mais ampla? Pode citar exemplos?
Claude Pirmez: Vou falar de uma experiência da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, na qual atuo como editora-chefe. No momento da epidemia de Zika, Memórias criou o Zika Fast Track, seguindo um modelo iniciado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para agilizar a divulgação dos resultados encontrados pelos pesquisadores com agilidade. Atualmente, a confiabilidade das publicações é baseada no sistema de revisão por pares, e esse sistema foi mantido no Fast Track, pois ao mesmo tempo em que o artigo era divulgado, era também submetido a revisores.

PP: Os periódicos científicos da Fiocruz compartilham de um mesmo Código ou de estratégias comuns para prevenir e coibir más condutas, tais como fraudes, falsificações, plágios, “fatiamento de artigos” etc.?
Claude Pirmez:
Este é um tema que devemos debater, entender e incorporar de forma conjunta. É uma questão fundamental, que estamos buscando trabalhar de forma mais articulada no Fórum dos Editores Científicos da Fiocruz, como parte das ações associadas à elaboração da nossa Política Editorial.
 

* Com informações de Maíra Menezes, do IOC/Fiocruz.

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