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Ciência, sociedade e política de publicação em pauta

12/03/2015

Fiocruz abre ano letivo com conferência da antropóloga Hebe Vessuri, pioneira nos estudos sociais de ciência na América Latina

 

Por Flávia Lobato (Com informações de Carolina Landi, da Agência Fiocruz de Notícias)

 

Repensar o papel das políticas de publicação para que a ciência possa se tornar uma importante ferramenta de transformação para a cidadania. Esta foi a tônica da Aula Inaugural da Fiocruz, realizada no dia 10/3. A conferencista convidada para abordar o tema Ciência, sociedade e política de publicação, foi Hebe Vessuri, pioneira nos estudos sociais de ciência na América Latina. Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Oxford (Inglaterra), atualmente Vessuri é pesquisadora do Centro de Pesquisas em Geografia Ambiental da Universidade Autônoma do México.

A aula inaugural do ano letivo da Fiocruz em 2015 teve como tema Ciência, sociedade de política de publicação (Foto: Peter Ilicciev) O contexto de mudanças e transformações marcou os discursos de abertura do evento, que contou com a presença do presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha; da vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, Nísia Trindade Lima, da vice-diretora da Asfoc/SN, Justa Franco; do coordenador dos Programas de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Capes, Guilherme Werneck, e do doutorando Hermano Albuquerque, coordenador da Associação de Pós-Graduandos (APG) da Fiocruz.

Excelência versus qualidade

A conferencista – que tem reconhecida contribuição nos estudos sociais da ciência e tecnologia na América Latina e na criação de programas de investigação e formação avançada em vários países – fez uma crítica aberta à competição científica. Ela defendeu mudanças nos indicadores de qualidade, atualmente com foco no número de citações publicadas e questionou o conceito de excelência. “A Ciência deveria ter como objetivo melhorar a qualidade de vida do cidadão. Isso não acontecerá se existir apenas a competição intensa”, afirmou.

Além de limitar a Ciência a um grupo restrito, Vessuri acredita que os atuais parâmetros de avaliação desestimulam a criatividade e a originalidade nos temas de pesquisa, pois seriam escolhidos apenas os que se “enquadram” à publicação. “Ser visto significa ser aceito pelo ‘clube de elite’, em que a entrada é ‘monitorada e controlada’. Nesse ‘clube de elite’, as publicações latino-americanas nascem em desvantagem pela ´barreira´ do idioma (espanhol e português). As revistas nacionais e locais devem lutar para ser reconhecidas”. Segundo a pesquisadora, essa política de avaliação tem efeitos indesejáveis. No campo da saúde, questões importantes, ficam de fora. É o caso, por exemplo, das doenças negligenciadas.

Para Vessuri, o acesso aberto surge como uma alternativa à internacionalização não ligada ao mainstream. “Esse movimento tem sido muito importante para a América Latina, onde versões eletrônicas das publicações já haviam sido lançadas bem antes do open access, e têm sido adotadas pelo sistema de avaliação local”, informou. Entretanto, apesar de diversas revistas eletrônicas em acesso aberto, ela acredita que as políticas e os mecanismos de regulação não acompanharam a visão dos cientistas neste sentido. A antropóloga, é preciso contemplar a diversidade no processo de internacionalização: “Não há uma única maneira de ser internacional”, afirmou.

No evento, também foi lançado o Portal de Periódicos da Fiocruz, iniciativa que a conferencista saudou: “Essa oportunidade de ter todos os periódicos reunidos é extraordinária e eu a apoio completamente”, disse Hebe Vessuri.

Este portal é regido pela Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, que busca garantir à sociedade o acesso gratuito, público e aberto ao conteúdo integral de toda obra intelectual produzida pela Fiocruz.