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A ciência positivista a serviço do combate à seca

10/07/2018

Em artigo publicado na HCS-Manguinhos, professor da Unesp analisa as propostas científicas que ambicionavam solucionar o problema das secas através da intervenção do engenho humano

 

 

Por Blog da HCS-Manguinhos


Em 2007, no primeiro ano do segundo mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o início das obras de transposição do rio São Francisco para levar água às áreas do semiárido nordestino. Polêmicas ambientais à parte, saía do papel um projeto acalentado desde os tempos de D. Pedro II, quando surgiu a ideia. 

No artigo O mandacaru não floresceu: a ciência positivista a serviço do combate à seca de 1877-1879, publicado na atual edição da Revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos, o professor Paulo Cesar Gonçalves, do Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras de Assis da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa as propostas científicas que ambicionavam solucionar o problema das secas através da intervenção do engenho humano.  

Historicamente, os registros das secas na região acompanham a ocupação do sertão desde os tempos coloniais. A grande seca de 1877-1879, no entanto, foi determinante para transformar um problema regional em nacional. Relatos e imagens do sofrimento da população sertaneja, dos deslocamentos em massa, das grandes aglomerações nas cidades litorâneas, como Fortaleza, do caos econômico e da iminente perda de controle da ordem social, chegaram à Corte através da imprensa e repercutiram no ambiente intelectual, político e científico, clamando pela intervenção planejada do Estado.

Para os “homens da ciência” das décadas finais do século XIX, o fenômeno das secas deveria ser explicado pelas leis da natureza e caberia ao homem elaborar formas de interferir no clima. Os relatos dos técnicos que começavam a visitar a região com o objetivo de determinar as causas e propor soluções para o fenômeno das longas estiagens, apoiados nos pressupostos científico-sociais, eram considerados iluminados e modernizadores perante o processo civilizatório nacional.

Dessa forma, foi criada uma espécie de “profissão de fé” do cientista esclarecido, preparado e destinado a produzir soluções para os graves problemas brasileiros, traço característico do ambiente intelectual da época.

O mandacaru não floresceu

Pareceres elaborados por engenheiros, geógrafos e médicos, detentores do “saber científico”, colocaram em prática os conhecimentos obtidos através da “razão positivista” em contraponto à sabedoria empírica do sertanejo e sua fé na providência divina. Como resultado, a produção de um discurso científico, dogmático, progressista e civilizador que, ao estudar e associar a seca a uma manifestação da natureza – considerada passível de ser dominada pelo conhecimento humano – exigiu a intervenção estatal através de políticas públicas.

Paradoxalmente, o Estado, então concebido como agente modernizador, foi transformado em instrumento de manutenção do atraso secular, no qual o fenômeno da estiagem ajudou a potencializar e perpetuar a estrutura social desigual e excludente comandada pelos interesses de uma secular elite política e econômica, sempre disposta a se utilizar da seca com o intento de barganhar políticas para a região.

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