Brasil
Acesso à Informação

Cadernos alerta para o controle da leishmaniose visceral

01/08/2016

Edição traz ainda artigos sobre precarização do trabalho; crianças que precisam de cuidados especiais; aumento da sobrecarga de cuidadores familiares de idosos dependentes; sífilis congênita, entre outros.

Por Informe Ensp

 

volume 32 número 6 da revista Cadernos de Saúde Pública alerta em seu editorial sobre o controle da leishmaniose visceral (LV) no Brasil, doença de transmissão vetorial com ampla distribuição mundial, ainda que 90% dos casos ocorram em apenas seis países: Índia, Bangladesh, Sudão, Sudão do Sul, Brasil e Etiópia. Desde o início do século XX, quando foi identificada no Brasil e o ciclo de transmissão elucidado, o controle da doença se configurou em um desafio para pesquisadores e profissionais de saúde. Inicialmente descrita como uma endemia rural, a partir da década de 1980 a doença passou por um processo de urbanização e expansão territorial. Entre 2010 e 2014 foram registrados cerca de 17 mil novos casos de LV e mais de 1.100 óbitos. O Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral (PVCLV) do Ministério da Saúde prevê ações para a redução da transmissão e da morbimortalidade. Apesar dos esforços e dos recursos empenhados para o pleno funcionamento do PVCLV, consolida-se na comunidade científica a percepção de que as ações direcionadas para a redução da transmissão não vêm surtindo o efeito desejado. A LV e o dengue são os principais fracassos no contexto do controle de doenças transmissíveis no país.

No artigo Emprego precário, o trabalho precário, a terceirização, a desigualdade e os riscos do ponto de vista da saúde dos trabalhadores: um diálogo com os autores, a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Maria Inês Carsalade Martins trata das mudanças que ocorreram na linha do tempo do capitalismo no pós-guerra (1950-1970) que ampliou a regulação pública do trabalho, sendo que, na década de 1970, novas formas de organização econômica, combinada com o desenvolvimento tecnológico e com um impacto direto sobre a organização da produção, ganhou espaço, retomando o processo de flexibilização do trabalho a partir da perspectiva da desigualdade. Já nos anos 1980 foram marcados por um decréscimo na participação do Estado no processo de regulamentação, mudanças nas políticas de protecção social e flexibilização dos direitos existentes. Em países semi-periféricos como o Brasil que ainda não alcançaram uma sociedade assalariada e consolidação dos direitos sociais na prática, este processo de mudança em formatos de trabalho e relações assume características particulares, acentuando a desigualdade na relação capital-trabalho e impedindo acesso à qualidade de emprego, expresso em novos mecanismos de contratação que incluem pagamento por resultados, jornada de trabalho flexível, redução de trabalho e estrutura de salários, contratos de serviços com empresas e, especialmente, a terceirização da força de trabalho. Os trabalhadores ficam em situação de vulnerabilidade, uma vez que a negociação é feito individualmente, com regulamentação limitada, e os contratos são negociados entre as empresas e os trabalhadores só estão autorizados a concordar com o que já foi negociado.

O artigo Tradução e adaptação do Children with Special Health Care Needs Screener para o português do Brasil, das autoras Andrea Moreira Arrué e Silvana Granado Nogueira da Gama, da Ensp/Fiocruz; Eliane Tatsch Neves e Tânia Solange Bosi de Souza Magnago, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); Ivone Evangelista Cabral, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Yara Hahr Marques Hökerberg, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), teve como objetivo elaborar a versão brasileira do instrumento Children with Special Health Care Needs Screener, avaliar a consistência interna e a concordância interobservador. O instrumento apresentou consistência interna satisfatória e concordância perfeita. Ressalta-se que a utilização em pesquisas futuras permitirá complementar as análises psicométricas da adequação para o contexto brasileiro, contribuindo para a definição do perfil epidemiológico desse grupo infantil de forma padronizada no cenário da saúde pública brasileira.

No artigo Prevalência de sobrecarga e respectivos fatores associados em cuidadores de idosos dependentes, em uma região pobre do Rio de Janeiro, Brasil, Valéria Teresa Saraiva Lino, Nadia Cristina Pinheiro Rodrigues, Luiz Antônio Bastos Camacho, Gisele OʼDwyer, Idenalva Silva de Lima, Mônica Kramer de Noronha Andrade, Soraya Atie, da Ensp/Fiocruz avaliam que o envelhecimento populacional ocasionou aumento da dependência e da sobrecarga de cuidadores familiares de idosos dependentes. Trata-se de estudo transversal com 140 idosos e cuidadores familiares, para investigar apoio social, maus tratos, coabitação e sobrecarga nos cuidadores familiares, além de dependência, declínio cognitivo e depressão no idoso. Modelos logísticos múltiplos foram construídos no intuito de explicar a sobrecarga dos cuidadores familiares. Conclui-se que investigar e tratar depressão e demência em idosos, assim como prover apoio aos seus cuidadores, podem contribuir para o manejo efetivo da sobrecarga de cuidadores familiares, melhorando a qualidade do cuidado e a saúde de ambos.

Incidência de sífilis congênita e fatores associados à transmissão vertical da sífilis: dados do estudo Nascer no Brasil é o artigo produzido pelas pesquisadoras Maria do Carmo Leal, da Ensp/Fiocruz; e Rosa Maria Soares Madeira Domingues, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), cujo objetivo foi estimar a incidência de sífilis congênita ao nascimento e verificar os fatores associados à transmissão vertical da sífilis. Estudo nacional, de base hospitalar, realizado em 2011-2012 com 23.894 puérperas, por meio de entrevista hospitalar, dados de prontuário e cartão de pré-natal. Realizada regressão logística univariada para verificar os fatores associados à sífilis congênita. Estimada incidência de sífilis congênita de 3,51 por mil nascidos vivos e taxa de transmissão vertical de 34,3%. Casos de sífilis congênita estiveram associados a menor escolaridade materna, cor da pele preta e maior proporção de fatores de risco para prematuridade, bem como ao início mais tardio do pré-natal, menor número de consultas e menor realização de exames sorológicos. A mortalidade fetal foi seis vezes superior nos casos de sífilis congênita, e recém-natos com sífilis congênita apresentaram maior frequência de internação. A sífilis congênita persiste como problema de saúde pública, estando associada à maior vulnerabilidade social e falhas na assistência pré-natal.

 

Este portal é regido pela Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, que busca garantir à sociedade o acesso gratuito, público e aberto ao conteúdo integral de toda obra intelectual produzida pela Fiocruz.