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Blogs como forma de comunicação científica na era das redes sociais

26/03/2018
Cientista avalia a importância do uso de plataformas digitais na disseminação do conhecimento científico
Por Lilian Nassi-Calò (blog Scielo em Perspectiva) | foto: Freepik


Nos anos 2000 foram lançados milhares de blogs com alguma referência à ciência. Destes, cerca de 2.500 podiam ser considerados verdadeiramente científicos, muitos deles mantidos por instituições acadêmicas e periódicos renomados, porém também inúmeros deles escritos por estudantes de pós-graduação, pós-doutores, professores universitários, professores de ciências e jornalistas profissionais, segundo um estudo publicado em 2007 no periódico Cell.

Web logs ou blogs certamente perderam momento desde a década passada, em função da plataforma de microblog Twitter e outras mídias sociais, que requerem menos tempo, esforço e dedicação para disseminar ideias ou opiniões. No entanto, o esforço e a dedicação são diretamente proporcionais ao resultado atingido por 280 caracteres (140 até recentemente) e um texto de, digamos, 800 palavras e talvez algumas imagens ou gráficos.

A despeito da presença ubíqua das mídias sociais em praticamente todas as áreas de atividade da sociedade, a prática de escrever blogs permanece viva e bastante ativa, especialmente na disseminação da ciência, segundo artigo publicado recentemente na Nature. São inúmeros os motivos pelos quais pesquisadores e estudiosos se empenham em fazê-lo. Paige Jarreau enumera nada menos que 59 razões, divididas em nove categorias, que vão desde o prazer pessoal de escrever sobre algo que se tem interesse até tornar a ciência acessível a várias audiências, corrigir conceitos disseminados erroneamente e inspirar jovens a se interessar por carreiras científicas.

A construção de redes de colaboração e o fortalecimento de comunidades científicas é um dos motivos, aponta Stephen Heard, ecologista evolucional na University of New Brunswick , no Canadá: “Escrever blogs não é para qualquer um, porém é importante que as pessoas percebam que é uma forma dos cientistas falarem com seus pares”. Pesquisadores do Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha, realizaram uma pesquisa com 865 pesquisadores das áreas de ciências exatas e da saúde nascidos após 1981. Quinze por cento deles iniciaram um blog, mas poucos escreviam com frequência, alegando falta de tempo e que a prática não era muito popular em seu país. No entanto, percebem que os blogs são apenas um formato digital para a comunicação da ciência e os pesquisadores que não utilizam nenhuma plataforma estão perdendo imensas oportunidades. Esta pesquisa revelou ainda que 70% dos pesquisadores acreditam que manter um blog – ou algum tipo de comunicação científica fora dos periódicos – ajuda a impulsionar a carreira e 90% afirmou que poderia atrair mentes brilhantes para a ciência. Allison McDonald, biologista celular na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Canadá, afirma que seu blog lhe permitiu consolidar uma rede de contatos e serve como fonte de ideias para novos projetos de pesquisa.

Indo ao encontro destes resultados, um recente estudo de pesquisadores brasileiros sobre a relação entre pesquisadores e jornalistas no país evidenciou vários aspectos positivos que decorrem da disseminação pública de resultados de pesquisa científica, como a obtenção de recursos para pesquisa de fontes públicas, melhorar a percepção e o impacto dos pesquisadores perante o público, atrair jovens colaboradores e estudantes e inclusive prestar contas à sociedade dos recursos investidos na pesquisa. Até mesmo uma relação direta foi encontrada entre a veiculação pública de um artigo e o número de citações recebidas.

Os interessados em iniciar um blog, entretanto, não devem esperar altos índices de acesso imediatamente. Heard, no entanto, afirma que o esforço será eventualmente recompensado. Em 2017 ele e outros colegas autores de blogs publicaram um estudo avaliando o impacto de seus blogs destinados à comunidade científica e sites dirigidos a pesquisadores sobre o empreendimento da ciência3. O blog mais popular da amostra considerada pelos autores (n=7) atingiu a mediana de 40.000 visualizações/mês, o segundo atingiu 20.000 e o terceiro, 10.000 visualizações /mês. Os autores salientam, no entanto, que alguns dos mais relevantes impactos dos blogs são impossíveis de quantificar, como reações individuais a determinados posts que motivaram mensagens aos seus autores. Terry McGlynn, um ecologista da California State University em Carson relata que disseminou uma vaga em seu departamento através de seu blog e o elevado número de candidatos que se apresentaram fez elevar seu prestígio na instituição. Como consequência, McGlynn decidiu abrir uma oportunidade a outros em seu blog Rapid Ecology, aceitando contribuições em forma de posts para seu blog de qualquer pesquisador ou estudante de pós-graduação que cumprisse com os seguintes três critérios: ser relevante, ser substancial e ser correto. Assim, até o momento da submissão do artigo, o autor havia recebido contribuições de 30 cientistas que se dispuseram a enviar posts ocasionais.

A rápida disseminação das redes sociais – também na comunicação científica – “diluiu” o impacto dos blogs, segundo Jeremy Caplan, diretor de educação de jornalismo empreendedor na City University of New York Graduate School of Journalism. Contando com Twitter e Facebook para manter-se a par, “as pessoas não querem acompanhar 10, 20 ou 30 diferentes blogs de ciência”. A solução, segundo Caplan, seria postar em um blog e disseminar os posts através das redes sociais, direcionando os leitores para o conteúdo mais detalhado.

McGlynn salienta, entretanto, de que a atividade de criar e manter um blog de ciências não é lucrativa. Se utilizar publicidade como fonte de receita, poderá haver ganhos, da ordem de US$ 10-20 mil por ano, na melhor das hipóteses. Ademais, colegas acadêmicos podem considerar que escrever em um blog ou nas redes sociais constitui uma distração e de certa forma, macular a reputação científica. Alguns autores utilizaram em 2010 pseudônimos ou apenas iniciais para assinar seus posts para desvincular sua identidade acadêmica. Isso pode parecer exacerbado nos dias atuais, porém vale recordar os riscos inerentes à exposição na Internet, podendo predispor os autores de blogs a algum tipo de abuso.

Uma indicação clara de que os blogs de ciência têm relevância e qualidade é o fato de que periódicos renomados mantém coleções de blogs em vários temas. A Nature aparentemente lidera em números, dispondo de uma rede de blogs em várias disciplinas e centenas de categorias. Além da Nature, a Science, a série PLoS, e o BioMed Central mantêm coleções de blogs em vários temas, apenas para citar alguns exemplos. O SciELO lançou em 2013, por ocasião da celebração de seu 15° aniversário, o blog SciELO em Perspectiva, que conta com um blog sobre Comunicação Científica e outro em Ciências Humanas, publicados em português, inglês e espanhol. 

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