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Atraso e destruição na formação de nível médio

03/02/2017

Para editoras da revista Trabalho, Educação e Saúde, Medida Provisória 746 é "um retrocesso na configuração das políticas públicas de educação e saúde no Brasil"

Por Paulo Guanaes (Trabalho, Educação e Saúde) | Foto: Raul Santana

 

Em seu primeiro número de 2017, a revista Trabalho, Educação e Saúde (REVTES) traz o editorial “Um novo cenário de atraso e destruição na formação de nível médio no Brasil”, assinado pelas três editoras científicas do periódico, uma publicação da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). As três professoras-pesquisadoras – Carla Martins, Angélica Fonseca e Marcela Pronko – se posicionam categoricamente contra a denominada “MP do Nível Médio” (Medida Provisória 746), afirmando, que se trata de “um retrocesso na configuração das políticas públicas de educação e saúde no Brasil” e, em consequência, do campo da formação em saúde, tema central da linha editorial da revista.

A REVTES também apresenta neste número os resultados de uma pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa Desinstitucionalização, Políticas Públicas e Cuidado, da EPSJV/Fiocruz, no campo de dois territórios da cidade do Rio de Janeiro – Manguinhos e Complexo do Alemão. A pesquisa aborda a relação entre território e adoecimento em saúde mental no contexto da Estratégia Saúde da Família no município, no período de 2009 a 2013, caracterizado por uma expansão acelerada de cobertura e implantação de um novo modelo de gestão. Os resultados apontaram que as formas de adoecimento advêm da exposição constante ao cotidiano violento de profissionais e pacientes nos territórios estudados, reforçando a importância do reconhecimento pelos profissionais de saúde das relações entre eles e as vulnerabilidades de grupos e comunidades.

Isabelle Araujo e Ângelo Oliveira, autores do artigo Agronegócio e agrotóxicos: impactos à saúde dos trabalhadores agrícolas no nordeste brasileiro, discorrem sobre a questão dos agrotóxicos e a saúde, correlacionando-os aos casos de intoxicação humana. Ao discutirem o fortalecimento do agronegócio no país, os autores compreendem sua construção como um modelo histórico de modernização em expansão em todo o território brasileiro e crescente no Nordeste. Araujo e Oliveira observam que nos últimos anos o agronegócio se fortaleceu e o número de casos de intoxicação por agrotóxicos cresceu, com destaque para a região Nordeste, que apresenta as maiores taxas de letalidade de intoxicação por agrotóxicos no Brasil, afetando majoritariamente os trabalhadores agrícolas.

Marcado desde o início de sua implantação como um programa polêmico, o Programa Mais Médicos revelou-se um importante passo no esforço para se alcançar a tão sonhada universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS). É o que se depreende do artigo Ampliação das equipes de saúde da família e o Programa Mais Médicos nos municípios brasileiros, de autoria de Gabriella Miranda e colaboradores, que trouxe os resultados de uma análise da evolução das equipes de saúde da família do Brasil, entre 2012 e 2015. Os autores assinalam que, no último ano do período, mais de 70% dos municípios tinham aderido ao Programa, o que correspondia a uma expansão da universalização - que, convertida em números, atingia mais de 20 milhões de habitantes de municípios de menor porte populacional. 

Em A educação profissional técnica de nível médio em saúde na rede federal de educação, Anderson e Lilian Boanafina e Mônica Wermelinger analisam o atual cenário da formação de recursos humanos na área da saúde promovida por instituições federais no Brasil. O estudo aponta um aparente descolamento entre as políticas de expansão da rede federal de educação profissional na área da saúde e as demandas do Ministério da Saúde para suprir a carência de profissionais de nível médio em saúde.

O leitor terá ainda à sua disposição, em acesso livre, um ensaio que apresenta a Enquete operária, de Marx, que no ano de 1880 investigou as condições de vida da classe trabalhadora francesa, e mais 10 artigos sobre temas como saúde mental, política de desprecarização do trabalho em saúde, produção do conhecimento sobre educação permanente com base em teses e dissertações, representação em conselhos tutelares e direito humano à alimentação.

 

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