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Abrascão 2018: a quem serve a publicação científica em saúde?

30/07/2018

Pesquisadores e público debatem esgotamento de modelos tradicionais de avaliação de periódicos

Por Valentina Leite (Portal de Periódicos Fiocruz)*

Os editores Alfredo Morabia, Viviana Martinovich, Kenneth Camargo e
Marília Sá Carvalho reunidos no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva 


A publicação científica em saúde no Brasil mereceu espaço no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão 2018) já no primeiro dia do evento (26/7). E o público lotou o auditório Nina Pereira Nunes, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para participar do debate A quem serve a publicação científica em saúde coletiva/saúde pública?. "Estamos aqui para lembrar as múltiplas funções das revistas científicas, sua importância e, acima de tudo, a variedade do que fazem”, disse Kenneth Camargo, editor da revista Physis (Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Uerj). Coube a ele mediar a mesa que reuniu a editora dos Cadernos de Saúde Pública (Fiocruz), Marília de Sá Carvalho; a editora da revista Salud Colectiva (Universidad Nacional de Lanús, Argentina), Viviana Martinovich; e o editor-chefe do American Journal of Public Health (Columbia University, EUA), Alfredo Morabia.

A editora dos Cadernos de Saúde Pública (CSP), Marilia Sá Carvalho, começou questionando: “Se os cientistas ingleses publicam em revistas inglesas e os estadunidenses em revistas americanas, por que os brasileiros estão sempre buscando produzir artigos para fora?”. Para ela, há uma naturalização no ato de exportar nossas produções. “Estamos mandando o que temos de melhor, e essa troca não é justa”, criticou.

Um dos pontos centrais da discussão foi o largo uso do fator de impacto como indicador de qualidade em revistas científicas brasileiras. Considerado uma forma tradicional de avaliação, o fator de impacto está atrelado apenas ao número de citações em artigos, e produz um ranking entre os periódicos. Por se tratar de um indicador exclusivamente quantitativo, a comunidade científica tem questionado a métrica, buscando indicadores capazes de expressar a qualidade de cada revista.

O momento é de reflexão para promover a mudança deste cenário, acredita Marília: “Nós, as três mulheres editoras dos Cadernos, estamos ‘zero’ preocupadas com o fator de impacto”, afirmou a editora, sob aplausos do público. Em seguida, ela destacou iniciativas da CSP como alternativas à produção em massa de artigos científicos. “Implementamos espaços temáticos, como o Perspectivas e o Mais do Mesmo, que oferecem diferentes olhares sobre temas já discutidos, a exemplo de zika”, contou. Sobre processos de avaliação, acrescentou: “Na hora de publicar, não é possível juntar quantidade, qualidade e inovação... Então, optamos por inovar!” (saiba mais aqui).

A desvalorização da produção científica latino-americana foi o tema que a editora da revista Salud Colectiva, Viviana Martinovich, trouxe para a mesa. Ela fez duras críticas aos atuais indicadores de qualidade na ciência. “Os periódicos não são estáticos, ao contrário, são dispositivos móveis, com vida e movimento. Não podem ser analisados de maneira fechada como se faz com método do número de citações – isso aumenta a arbitrariedade”, destacou. Viviana, que atua na Universidad Nacional de Lanús (Argentina), observa uma discrepância entre a crítica e a prática nos países latinos. “Alguns países que tinham outro critério de avaliação, como o México e a Colômbia, acabaram adotando o quartis de citação”, disse, apontando para um grande retrocesso. Ela apresentou dados que mostram publicações amplamente citadas e que, não necessariamente, têm um alto fator de impacto.

A pesquisadora lembrou, também, que as condições de produção da ciência devem ser levadas em consideração em cada país: “O financiamento, o acesso aos recursos e até o tempo é diferente em cada comunidade. Devemos pensar novos modelos, mas sempre respeitando nossos próprios modos de produção”.

Na mesma linha, o editor da revista American Journal in Public Health, Alfredo Morabia (Columbia University, Estados Unidos) comentou que cada publicação tem seu perfil e missão. Neste sentido, ele considera que as revistas devem ser fieis, respeitando sua própria identidade. Além disso, destacou o que deve nortear as publicações no campo da saúde. “Como periódico, a nossa missão é produzir dados científicos recentes que auxiliam a melhorar as condições de saúde das pessoas”.

Alfredo comentou que edita uma revista independente, o que facilita a flexibilização nas políticas de publicação. Segundo ele, o número total de citações durante o ano e o número de subscrições à revista são critérios melhores de avaliação do que o fator de impacto.

Retomando a questão inicial do debate, afirmou: “Acredito que a saúde pública não é só uma ciência, e é muito mais do que a produção científica: trata-se da visão de toda uma sociedade. Por isso, uma revista de saúde pública deve ser, antes de mais nada, útil às pessoas”.

Uma discussão inquietante, que não se esgota no Congresso, como lembrou o mediador Kenneth Camargo: “O que a gente está fazendo aqui hoje não aumenta o número de agulhas no palheiro: aumenta o número de palhas”.


*Com informações de Daniela Lessa, do Portal Fiocruz

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