Brasil
Acesso à Informação

Dominique Babini

15/09/2015
Por Juliana Reis e Roberta Cardoso Cerqueira*

Dominque Babini: Brasil é líder na região em produção
científica e disseminação em acesso aberto



Dominque Babini é coordenadora do Programa de Acesso Aberto do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). Pós-graduada em documentação, ciências da computação e informação pela Universidade de Buenos Aires (Argentina), ela participa de diversos projetos na área de acesso aberto, tais como: Sistema Nacional de Repositórios Digitais da Argentina, Public Knowledge Project (Universidade de Stanford) e o Portal Global de Acesso Aberto (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – Unesco). Com grande experiência em redes de comunicação e indicadores, principalmente na América Latina, no Caribe, Dominique conversou com o Portal de Periódicos Fiocruz, sobre a importância dos portais/indexadores nas regiões em desenvolvimento. Leia a entrevista a seguir.


Portal de Periódicos Fiocruz: Qual o papel dos portais/indexadores de publicações científicas no atual contexto da comunicação e divulgação científica?

Dominique Babini: Os portais/indexadores são um elo vital para o processo de comunicação científica internacional, pois funcionam como agregadores de conteúdo de uma instituição, um país, uma região. Isso possibilita maior visibilidade e acesso aos indicadores de produção científica de diversidade geográfica e institucional.

PP Fiocruz: Neste cenário, qual é a importância de portais/indexadores como, por exemplo, SciELO, Latindex, Redalyc e Clacso? E para o movimento de acesso aberto?

Dominique Babini: Esses portais/indexadores regionais oferecem, pela primeira vez, visibilidade e acesso aos resultados da produção científica da região, que tem pouquíssima representatividade em indexadores internacionais tradicionais. Estes e outros portais/indexadores (como Reference, Sidalc etc.) fazem parte do sistema global, sem fins comerciais, de repositórios digitais de ciência e tecnologia. E mais: estão visíveis e acessíveis a partir da biblioteca mais usado no mundo (a web) e do catálogo da biblioteca mais movimentado do mundo (Google). Assim, cumprem o papel de permitir que se conheça o que é publicado na nossa região e também contribuir para os indicadores de avaliação do uso e impacto da pesquisa publicada – caso dos indicadores da SciELO e Redalyc.

PP Fiocruz: Nos últimos anos houve um aumento considerável no número de publicações científicas e no uso de portais de periódicos. Por que as publicações científicas ainda enfrentam tantas dificuldades em relação aos requisitos desses portais?

Dominique Babini: Em relação ao uso dos portais de periódicos, concordo que os números são impressionantes, e é interessante como nós estamos começando a conhecer os novos perfis de usuário que surgem de acesso aberto às publicações científicas de portais como o SciELO e Redalyc (Alperin, 2014), além do uso tradicional pelos pares. Sobre as dificuldades de publicações científicas em relação às exigências destes portais, muitos fatores influenciam, como: a falta de recursos para a dedicação de uma equipe editorial profissional, quando a revista é publicada; e um conhecimento limitado de boas práticas para as publicações científicas e sua adequação às novas exigências de indexação e acesso aberto. Neste sentido, os portais institucionais, nacionais e regionais de revistas de qualidade contribuem para conscientização e formação quanto às boas práticas, que são o que confere qualidade a uma publicação científica.

PP Fiocruz: Por que a exposição e oferta de periódicos de acesso aberto nestes portais/indexadores é tão importante?

Dominique Babini: Uma revista de acesso aberto publicada no site da revista e/ou de sua instituição tem visibilidade e impacto limitado se comparada à visibilidade e ao impacto que consegue ao se juntar a coleções de portais de periódicos e repositórios institucionais, nacionais, regionais e internacionais. Esses portais atraem público pelo volume de suas coleções. Já as revistas e instituições são atraídas pelo prestígio de fazer parte destes espaços, assim como pelo fato de que os portais/indexadores oferecerem indicadores bibliométricos e de produção científica.

PP Fiocruz: A América Latina é líder na publicação de revistas de acesso aberto. Como você avalia o desempenho do Brasil no movimento Open Access?

Dominique Babini: O Brasil é líder na região em produção científica e disseminação em acesso aberto. SciELO é um exemplo claro disso, bem como iniciativas do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e repositórios, portais digitais e centros de pesquisa universitários (a exemplo do repositório institucional da Fiocruz - Arca e do Portal de Periódicos). No diretório internacional de revistas de acesso aberto (DOAJ), o Brasil é o segundo país do mundo, depois dos EUA, em quantidade de revistas publicadas em acesso aberto. Nos últimos 15 anos, o Brasil tem tido uma grande contribuição para a gestão do acesso aberto como um bem comum, que vem sendo administrado de forma colaborativa e solidária pela mesma comunidade científica e acadêmica, sem intermediários comerciais. Isso tem estimulado toda a América Latina a optar pelo modelo de acesso aberto, no qual o custo de publicação em acesso aberto é parte do custo da pesquisa. É um modelo observado com muito interesse pelos países desenvolvidos, que há décadas têm terceirizado a comunicação científica para o setor comercial – e que agora também comercializa a publicação em acesso aberto, cobrando a taxa APC para processamento de artigo.

PP Fiocruz: Recentemente, o bibliotecário Jeffrey Beall se referiu ao portal SciELO como “a favela das publicações”. Até que ponto esta afirmação também afeta outros indexadores/portais que trabalham com revistas de acesso aberto?

Dominique Babini: Com o avanço das revistas de acesso aberto no mundo (mais de 10 mil DOAJ), já é hora da comunidade científica internacional encontrar um mecanismo mais confiável do que Jeffrey Beall para definir o que são revistas de qualidade – para que essa opinião não esteja nas mãos de apenas uma pessoa, com todas as limitações que isso pode representar. Em nossa região, o catálogo Latindex oferece um panorama regional em revistas de qualidade e trabalha em conjunto com as iniciativas nacionais para identificar revistas de qualidade em cada país.

Os comentários do Sr. Beall sobre SciELO e Redalyc revelam uma visão perturbadora de certos setores a respeito de modelos de negócios não comerciais de comunicação científica que contribuem para a discussão internacional da ciência de uma forma mais participativa e representativa das diversas realidades geográficas. Graças à conhecida preferência dele por editoras comerciais internacionais, não surpreende que desacredite duas iniciativas não comerciais e bem-sucedidas de acesso aberto, como SciELO e Redalyc.

Deve-se destacar as respostas recentes que este comentário começou a gerar. Poucos dias depois, Library Journal apresentou uma compilação de respostas aos quais se somaram os comentários compilados no blog SciELO, e à publicação de um comunicado preparado por especialistas, nos sites da Confederação de Repositórios de Acesso Aberto (Coar) e Scholarly Publishing and Academic Resources Coalition (Sparc), também disponível em quatro línguas pela Redalyc. Em tempos de transição de um modelo fechado de comunicação científica – baseado principalmente em assinaturas de revistas – para um modelo de acesso aberto, é importante manter ativo o debate sobre que modelo de acesso aberto para a América Latina queremos. Por isso, agradeço esta oportunidade de compartilhar estas questões com vocês.

* Editoras-adjuntas do Portal de Periódicos Fiocruz:
Juliana Reis é editora executiva da Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde.
Roberta Cardoso Cerqueira é editora executiva da revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos.

 

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